O escritor português Mario Maximo transformou a defesa da lusofonia em uma das principais marcas de sua carreira. Autor de mais de 30 livros, entre romances, poesias, crônicas, contos e ensaios, ele também se dedicou à aproximação entre os países de língua portuguesa por meio de iniciativas culturais e políticas. Durante dez anos, promoveu a Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas, foi vereador da Câmara Municipal de Odivelas e recebeu, em 2017, o Prêmio Lusofonia.

À frente da administração da Gala Prémios da Lusofonia e do Fórum Permanente Debates da Lusofonia, Maximo acompanha de perto os desafios de uma comunidade que compartilha o idioma, mas enfrenta barreiras para fazer circular seus livros, integrar seus cidadãos e construir políticas comuns. Para ele, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que completa 30 anos, poderia ter avançado mais, e o Brasil, poderia ter tido um papel mais ativo.

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Em entrevista exclusiva à EntreRios, o escritor fala sobre os caminhos da lusofonia, critica as políticas migratórias de Portugal, comenta o papel do Brasil e defende o fortalecimento dos laços culturais entre as nações. “A lusofonia é o futuro. Em conjunto, pode-se chegar ainda mais longe”. Confira a entrevista na íntegra:

 

Mario Maximo em encontro de autores internacionais promovido pela CPLP em 2022. Crédito: Divulgação

Como avalia esses 30 anos da CPLP?

É um projeto extraordinário, mas poderia ter ido mais longe. A primeira grande oportunidade perdida da CPLP foi a questão do acordo ortográfico. Como é algo anterior à comunidade, de 1990, ainda não está ratificado, pelo menos em Angola. Isso significa que ainda há muito caminho a ser feito.

Em cada país há uma pequena CPLP. Vamos ao parlamento e estão lá portugueses, angolanos, cabo-verdianos, brasileiros. Há povos que, em conjunto, falam e escrevem a mesma língua. O papel da CPLP devia ser mais alargado nesse contexto.

Como o senhor analisa a questão dos direitos humanos, ligada à situação de Domingos Simões Pereira (presidente deposto após golpe militar em Guiné-Bissau, que foi preso, libertado e hoje está em Portugal)?

Ele é meu amigo pessoal. Seus dois mandatos na CPLP foram brilhantes, em que muito se avançou. A prisão dele foi lamentável e triste. Não faz sentido que Domingos Simões Pereira esteja detido sem nenhum tipo de culpa formada.

Não quero substituir-me aos guineenses, mas o respeito aos direitos fundamentais é uma preocupação fulcral. Há problemas dessa natureza em todos os lugares, mas naturalmente de forma diferente em Portugal ou em Cabo Verde do que na Guiné Equatorial.

A questão dos direitos humanos não é vista como algo que mereça a devida atenção. Ou respeitamos os direitos humanos dentro do quadro da lusofonia, ou a lusofonia não terá voz autônoma e digna no contexto internacional.

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Seus livros chegam ao Brasil e a outros países lusófonos?

Alguns ainda não chegaram ao Brasil, mas já estive no país algumas vezes: no ano passado, fui convidado para uma celebração dos 500 anos de Luís de Camões, em Teresina, no Piauí.

É praticamente travado que livros brasileiros venham para Portugal e vice-versa.  Não sei como funciona em Angola, Moçambique ou Cabo Verde (presumo que o problema seja idêntico), mas pensando no tamanho do mercado editorial do Brasil, não entendo como só é possível para um autor português ter o livro disponível lá se for editado por uma editora brasileira, ou se a editora portuguesa se instalar no Brasil.

Acho que os governos não têm feito o esforço necessário. O livro digital não substitui o físico, é apenas mais um meio de chegar à literatura.

Há um acordo de mobilidade entre os membros da CPLP, mas Portugal recentemente restringiu as regras de migração. O que acha sobre a possibilidade de integração?

É um assunto delicado. Em todos os continentes alguns desses movimentos migratórios trouxeram novos problemas. Claro que há migrações mais dramáticas que outras. Ouvem falar da Europa como se fosse uma espécie de terra dourada em termos de direitos humanos (comparativamente até é, mas cada vez menos, e esse é o problema).

Muitos regimes africanos permitem que a emigração aconteça, e a incentivam, mas não fazem nada para fixar as pessoas na sua terra. Não são todos perseguidos politicamente. Muitos são pessoas desesperadas, que procuram outra vida.

Ainda assim, há mobilidade real. O modelo Schengen reproduzido na lusofonia seria muito complexo. Há uma enorme disparidade nos índices de desenvolvimento humano entre os países da CPLP. Portugal está num primeiro nível, o Brasil num segundo, e depois todos os outros vêm por aí. Uma reprodução do acordo de Schengen seria, na prática, ingerível.

O autor presente em cerimônia do Gala Prémios da Lusofonia em 2023. Crédito: Divulgação

O que acha das políticas migratórias portuguesas?

Portugal está no mau caminho, a seguir políticas claramente xenófobas. Quando, por exemplo, não se permite o reagrupamento familiar, isso não está de acordo com a nossa matriz. Isso me preocupa muito.

Certa vez, visitei a Mesquita de Odivelas, a mais frequentada do país, e muitos dos fiéis eram descendentes de quem veio de Moçambique após a descolonização. Nunca houve ali uma única questão com os muçulmanos, porque são pessoas perfeitamente integradas. Mas quando começamos a definir políticas de agressividade em relação a elas, podem começar a ser empurradas para guetos e esse é exatamente o efeito contrário ao pretendido.

Fórum de Lisboa. Crédito: Renan Araújo Leia também 30 anos de CPLP: autoridades cobram avanços na mobilidade e na integração lusófona

No Brasil, praticamente não há o conceito de lusofonia e conhecemos muito pouco sobre esses países. Como vê a relação do país com essa comunidade?

O Brasil podia ter feito muito mais ao longo deste processo, e em certos momentos não cumpriu com suas obrigações. É um país grande demais no contexto da lusofonia. Hoje o português é uma das quatro línguas mais faladas do mundo também por causa do Brasil. Mas, o tema não é uma preocupação central, justamente por ser quase um continente.

Não há uma língua geral: há aquela falada da maneira que a história e o desenvolvimento de cada povo gerou dentro de cada país. Isso tem de ser respeitado. Não se vai pôr os brasileiros a falar como os portugueses, nem o contrário. Seria anticultural.

Acredita que a comunidade lusófona pode crescer e se fortalecer?

Em conjunto pode se chegar mais longe. Espero que os líderes dos povos de expressão portuguesa tenham a noção de que a CPLP não é apenas um departamento sediado num palácio em Lisboa. É algo muito maior, que pode ser entrelaçado por políticas objetivas e claras.

É extraordinário atravessar o oceano e continuar a falar a mesma língua. Não se pode perder isso. Essa é a força do Brasil como país. Vocês têm alemães, japoneses, poloneses, por exemplo, que já se “abrasileiraram” completamente. Se soubermos os caminhos adequados e houver respeito mútuo, a lusofonia, para mim, é o futuro.

renan@revistaentrerios.pt