Em Fátima, centro de Portugal, a fé tem endereço, roteiro e preço. Todos os anos, milhões de visitantes chegam para rezar diante da Capela das Aparições, participar das celebrações no Santuário e percorrer um território onde peregrinação e turismo se encontram. O movimento também se traduz em hotéis, restaurantes, lojas e serviços.

Em 2024, o concelho de Ourém — equivalente ao município, na divisão administrativa brasileira — recebeu 762.362 hóspedes e registrou 1.255.757 diárias, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). É em uma de suas freguesias (ou bairro, no português do Brasil), Fátima, que está o Santuário que dá nome a um dos principais destinos católicos de Portugal.

Segundo dados de 2024 do Santuário de Fátima, 6,2 milhões de pessoas participaram de pelo menos uma celebração religiosa no período. O número equivale a mais da metade da população portuguesa. Do total de hóspedes registrados no concelho de Ourém, 61,15% eram estrangeiros, com Espanha, Coreia do Sul, Estados Unidos, Polônia e Brasil entre os principais mercados. Ao todo, foram registrados 38.876 brasileiros hospedados no concelho, parte de um fluxo internacional que movimenta a cadeia de hotéis, restaurantes, comércio e outros serviços ligados ao turismo.

A fronteira entre peregrinação e o setor turístico é difícil de traçar. Quem chega para cumprir uma promessa também ocupa um quarto de hotel, faz uma refeição, compra uma lembrança e, muitas vezes, combina a passagem pelo Santuário com outros pontos do país. A devoção, portanto, movimenta uma cadeia que ultrapassa os limites do espaço religioso.

Um grupo de 32 pessoas da Obra de Maria — associação privada de missionários, padres e outros fiéis —, vindo do Brasil, exemplifica essa interseção entre devoção e economia. A maioria é de Montes Claros (MG). Cada um pagou 20 mil reais para seguir o roteiro de 12 dias, que de Fátima seguiria em ônibus para outros destinos marianos em Braga, Santiago de Compostela, na Espanha, e Paris, na França.

“É um alimento para a alma, uma fonte de alegria”, descreve Ionete de Magalhães Souza, 59 anos, que se orgulha da vocação de fé desde criança.

Grupo de peregrinos brasileiros durante visita a Fátima, onde a viagem religiosa também movimenta o turismo, a hotelaria, a restauração e o comércio local. Crédito: Renato Velasco

Grupo de peregrinos brasileiros durante visita a Fátima, onde a viagem religiosa também movimenta o turismo, a hotelaria, a restauração e o comércio local. Crédito: Renato Velasco

Em Fátima, Ionete compra lembranças e presentes para familiares, amigos e para si, claro. O singelo hábito impacta fortemente a economia local, como a injeção de 60,4 milhões de euros em alojamento turístico em 2024, segundo dados do INE. 

Os números ajudam a dimensionar o peso econômico que o turismo associado a Fátima adquiriu na região. Embora as estatísticas não permitam separar quanto das receitas decorre exclusivamente da peregrinação, a presença do Santuário organiza uma cadeia de serviços que envolve hotelaria, restaurantes, comércio e transporte.

No local, os momentos que concentram mais visitantes estão o Rosário e a Procissão de Velas, uma das imagens mais conhecidas de Fátima. A celebração começa com a oração do Rosário na Capelinha das Aparições do Santuário e segue, depois, em procissão pelo recinto, com os fiéis carregando velas acesas.

Fernando Melo, missionário e guia turístico (esquerda) e Ionete de Magalhães (direita) escolhem lembranças entre centenas de milhares oferecidas no comércio, como terços, medalhas e imagens.

Fernando Melo, missionário e guia turístico (esquerda) e Ionete de Magalhães (direita) escolhem lembranças entre centenas de milhares oferecidas no comércio, como terços, medalhas e imagens. Crédito: Renato Velasco.

Loriga. Crédito: Turismo de Portugal Leia também Vilas de Portugal e Brasil estão entre as melhores do mundo; descubra

Mas engana-se quem pensa que a experiência em Fátima se limita ao Santuário. A pouco mais de 2 quilômetros da Cova da Iria, está Aljustrel, a pequena aldeia onde nasceram e viveram os três Pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta. As casas onde viveram foram preservadas e hoje podem ser visitadas, assim como a Casa-Museu de Aljustrel, que apresenta aspectos do cotidiano da comunidade rural na época das aparições. O percurso desde o Santuário pode ser feito a pé em cerca de 30 minutos.

A cerca de 500 metros de Aljustrel, ficam os Valinhos, lugar associado à aparição de 19 de agosto de 1917. A área é atravessada pelo Caminho dos Pastorinhos, que liga os lugares percorridos pelas crianças, e pela Via-Sacra, formada por estações que conduzem até ao Calvário Húngaro. O trajeto pode ser percorrido a pé, formando uma extensão natural da visita ao Santuário e acrescentando à experiência a paisagem e a memória dos lugares ligados às aparições.

A estratégia de turismo em torno de Fátima também passou a olhar para o caminho como parte da experiência. Os Caminhos de Fátima são promovidos pelo Turismo de Portugal como itinerários que combinam espiritualidade, cultura, patrimônio e natureza, conectando diferentes territórios ao Santuário. A proposta é diversificar a experiência do visitante e transformar o percurso em uma forma de conhecer o território, e não apenas em uma etapa para chegar ao destino.

Se os peregrinos são a alma do turismo religioso, os comerciantes são o sustento. José Dias da Conceição, dono do Centro Comercial de Fátima, mantém um negócio familiar que atravessa mais de quatro décadas. A loja divide espaço com uma fábrica de produção de materiais religiosos, onde trabalham funcionários que estão lá desde o início. “Sou um bom patrão”, brinca José Dias, orgulhoso de manter tradições e empregos.

José Dias da Conceição, proprietário do Centro Comercial de Fátima, mantém há mais de quatro décadas um negócio familiar ligado à produção e comercialização de artigos religiosos. Crédito: Renato Velasco

Tudo começou com a fábrica de tecidos do pai, um dos treze sócios que deram origem ao negócio. “Depois, compramos a parte dos sócios, e o negócio virou, de fato, de família”, recorda. A loja oferece mais de 300 mil artigos, entre terços, medalhas, imagens e lembranças de variados valores, e exporta para Itália e Inglaterra.

O movimento de clientes varia conforme o calendário das peregrinações. Em janeiro e fevereiro, meses mais fracos, atendem 30 a 40 pessoas por dia; no pico, a média sobe para 300, e o restaurante do grupo chega a receber 500 pessoas. As mudanças nos transportes internacionais também impactam as vendas: a redução da bagagem permitida para brasileiros, de 32 para 23 quilos, reduziu o volume de compras.

Fiéis fazem orações diante de uma imagem sagrada em Fátima, Portugal, um dos principais destinos de peregrinação católica do mundo.

Religiosos em oração em Aljustrel, uma das opções para além do Santuário. Crédito: Renato Velasco.

Há eventos especialmente favoráveis, como a visita do papa, em 2017, que provocou fluxos recordes de peregrinos, e outros de triste memória, como a pandemia. Em 2024, Fátima registrou um aumento de 9,03% no número de diárias em relação a 2023, confirmando a recuperação e sinalizando um caminho de expansão.

Ali, a economia não começa quando o peregrino abre a carteira. Começa antes, quando decide viajar. A escolha de um hotel, o restaurante depois da celebração, a lembrança levada para casa e os dias passados na região fazem parte de uma cadeia que transforma uma motivação religiosa em movimento turístico. É essa combinação que explica a dimensão econômica de Fátima, que recebe visitantes de diferentes partes do mundo e converte uma tradição religiosa centenária em uma das experiências turísticas mais particulares de Portugal.

Além do Santuário

Fátima e Ourém em números

762.362 hóspedes em Ourém

1.255.757 pernoites em alojamentos turísticos

38.876 hóspedes brasileiros na cidade

61,15% dos hóspedes eram estrangeiros

No Santuário

6,2 milhões participantes em celebrações religiosas

2,7 milhões participantes em missas

1,3 milhão participantes no Rosário e Procissão de Velas

1 milhão visitas a museus religiosos

Maio, setembro e outubro são os meses de maior afluência

Estrutura de alojamento

63 hotéis, com capacidade para 7.866 pessoas

281 alojamentos locais, com capacidade para 3.406 pessoas

Fonte: Turismo do Centro de Portugal, com Censo de 2024

Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios. Você pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler na íntegra online.