Uma obra de Christina Oiticica passou três meses submersa nas águas do Lago Maggiore, no norte da Itália. Mamã Muxima, criada a partir de um sonho da artista, foi colocada no lago em 5 de junho e retirada em setembro, pouco antes da abertura de Quando o céu invade a terra, exposição que ocupa o Grand Hotel Majestic, em Pallanza, Verbania.

A mostra, com curadoria de Adelina von Fürstenberg e colaboração do arquiteto Marcelo José Mendonça, reúne trabalhos que exploram a relação entre arte, natureza e espiritualidade. Para Mendonça, essa ligação está no centro da produção da artista:

“Para mim, a natureza e a arte de Christina estão profundamente ligadas. Suas obras mostram a beleza, as cores e as formas presentes no mundo natural, despertando sentimentos de tranquilidade e admiração. Ao observar sua arte, sinto que a natureza não aparece apenas como inspiração, mas também como uma forma de expressar emoções e de nos fazer refletir sobre a nossa relação com o mundo ao nosso redor. É uma arte que toca o olhar e também o coração.”

Christina Oiticica. Crédito: Divulgação Leia também Christina Oiticica apresenta exposição inspirada em Brasil, Angola e Europa

A curadora Adelina von Fürstenberg e o arquiteto Marcelo José Mendonça. Crédito: Marcos Borges

Mamã Muxima nasceu de uma experiência onírica. Christina conta que sonhou que visitava uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Quando as luzes se acenderam, ela viu uma imagem da santa coberta por corações. Mais tarde, descobriu a Nossa Senhora da Conceição da Muxima, em Angola, associada à devoção conhecida como Nossa Senhora dos Corações. A coincidência deu origem à pintura.

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O trabalho foi então colocado nas águas do Lago Maggiore, próximo à Isola San Giovanni Borromeo, em frente ao hotel que recebe a exposição. Durante três meses, a tela ficou sujeita à ação da água, das correntes, da luz e dos microrganismos do lago. A experiência faz parte da pesquisa desenvolvida por Christina ao longo de sua carreira, na qual os elementos naturais participam diretamente da transformação das obras.

O resultado, porém, surpreendeu a própria artista. Quando a tela foi retirada do lago, a imagem central de Nossa Senhora havia desaparecido.

“Quando saiu do lago, eu fiquei muito surpresa porque a imagem de Mamã Muxima tinha ido embora. Aí eu falei: como é que eu vou trabalhar isso?”, conta Christina à EntreRios.

A reação inicial deu lugar a outra interpretação. “Depois eu compreendi que fazia parte do processo e que, na realidade, ela se foi porque ela foi para outros lugares, ela foi espalhar a energia dela para outros lugares.”

Obra Mamã Muxima. Crédito: Marcos Borges

A artista decidiu, então, trabalhar sobre o que restou. Primeiro, precisou esperar a tela secar. Depois, retomou a composição com materiais que havia levado de Genebra. Recolocou partes que haviam se desprendido e sido encontradas próximas ao local da retirada, além de incorporar novamente o terço que fazia parte da obra. Também acrescentou corações de papel machê que já pertenciam à sua pesquisa.

“Eu gostei muito. Eu fiquei muito contente com o resultado, com a ideia de colocar os corações e tudo. E a imagem principal se foi”, afirma.

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A transformação de Mamã Muxima sintetiza o método que Christina desenvolve desde que passou a levar suas pinturas para fora do ateliê. Nascida no Rio de Janeiro, em 1951, e radicada em Genebra desde 2008, a artista trabalha com procedimentos que incluem enterrar telas, colocá-las em rios ou deixá-las em contato com árvores, permitindo que terra, água, vento, chuva, sal e outros elementos naturais deixem marcas sobre a superfície. Ao contrário de uma pintura feita integralmente no ateliê, cada intervenção produz um resultado que não pode ser repetido.

A exposição apresenta outros trabalhos que exploram esse processo. Entre eles estão Heart of Bahia, escultura em forma de coração feita com fitas do Senhor do Bonfim; a série Birth of Venus, realizada com a intervenção do sal nas Salinas Ettore e Infersa, em Marsala, na Sicília; e duas obras desenvolvidas em colaboração com o artista indígena Txa Txu Pataxó, enterradas durante um ano sob uma gameleira em uma aldeia indígena na Bahia.

Obra Birth of Venus de Christina Oiticica. Crédito: Marcos Borges

Também integram a mostra ilustrações realizadas por Christina para uma edição especial de Stories for parents, children and grandchildren, de Paulo Coelho, seu companheiro há mais de quatro décadas.

Quando o céu invade a terra é uma realização da Art for The World, da Fondation VRM e do Grand Hotel Majestic, com curadoria de Adelina von Fürstenberg e colaboração de Marcelo José Mendonça. A exposição fica em cartaz no Grand Hotel Majestic, em Pallanza, Verbania, até 27 de outubro.