A atriz, roteirista e pesquisadora Noá Bonoba inverte a lógica tradicional das produções audiovisuais ao viver uma mulher cisgênera em Morte e vida Madalena, longa de Guto Parente que estreia nos cinemas de Portugal nesta quinta (20). A escolha de uma travesti para viver uma personagem que não é trans levou Noá a definir a experiência como “cisfake”, termo usado para questionar as escalações de elenco, que historicamente, restringem artistas trans à interpretação de personagens que assim se identificam.
No filme, Noá vive Madalena, uma produtora grávida de oito meses que assume o controle das filmagens depois que o realizador do projeto desaparece misteriosamente. Aos 35 anos e com 16 de carreira, ela é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará, onde pesquisou cinematografias trans e possibilidades de reestruturação do audiovisual brasileiro. A experiência, garante, reforça a necessidade de olhar para artistas trans também por sua formação técnica. “Existe algo para além disso que é a minha profissão”, afirma.

Noá Bonoba como Madalena em Morte e vida Madalena. Crédito: Divulgação
Em entrevista a EntreRios, Noá fala sobre a construção da personagem, o conceito de “cisfake”, os desafios de viver de atuação e os próximos passos da carreira, que incluem seu primeiro longa-metragem como cineasta, Iguaragua.
O que foi mais desafiador ao interpretar Madalena?
Entender que não se tratava de uma comédia escrachada. Madalena não é uma personagem apenas cômica, ela tem um arco tragicômico e está passando por um luto. O absurdo da situação é que provoca o humor, e não o fato de eu tentar forçar um jeito engraçado de ser.
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Como construiu esse tom tragicômico?
Quanto mais dramática eu conseguisse ser, mais engraçado seria. É quase o entendimento oposto do que significa fazer uma comédia convencional.

O cinema dentro do cinema em Morte e vida Madalena. Crédito: Divulgação
A história fala muito sobre fazer cinema independente. Se reconhece nesse universo?
Apesar de ser um desafio no Brasil, existe uma identificação universal com o coletivo, a gente vira uma família. Tudo o que é retratado ali já aconteceu em filmes do próprio diretor ou em histórias que ouviu de alguém. O roteiro é uma reunião dessas coisas que acontecem em um set.
O filme recebeu prêmios em diferentes lugares. O que isso representa para você?
Que ele reverbera uma ligação com o público. Quando estreou na França, no FidMarseille, primeiro festival em que ganhou um prêmio, foi muito bem recebido pelos franceses. Na comédia, o riso é uma recepção imediata, e era muito legal ver que piadas que a gente achava que só seriam entendidas em determinada língua também geravam essa conexão.

Noá Bonoba vive uma produtora de cinema às voltas com o inesperado. Crédito: Divulgação
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O que espera da estreia em Portugal?
Que os portugueses se identifiquem, da mesma forma como foi na França. É um filme que homenageia o modo independente de fazer cinema sem romantizá-lo.
Como foi viver uma mulher cisgênera na ficção?
Fiz algo ainda muito raro. No cinema existe uma exigência grande de convencimento. Pessoas cisgêneras sempre interpretaram pessoas trans e nunca foi questionado se era crível ou se atuação estava convencendo.

A personagem Madalena assume o controle do set de filmagens. Crédito: Divulgação
É daí que surge o termo “cisfake”?
Sim. Quando uma atriz transgênero interpreta uma personagem cisgênera, chamo de “cisfake”. É uma resposta a um procedimento violento. Quando cobramos que pessoas trans interpretem pelo menos papéis também trans, falamos de uma questão do mercado de trabalho. O “cisfake” coloca essa experiência em outra perspectiva.
Por que considera importante que uma atriz trans possa fazer uma personagem cisgênera?
Porque ainda estamos presas a essa lógica de uma trans para fazer uma personagem trans. Não se pensa: por que não testar várias possibilidades para essa pessoa, independentemente de como ela se identifica? Tenho 16 anos de carreira e 15 filmes no currículo. Existe algo para além da transgeneridade que é a minha profissão.
A personagem foi escrita originalmente para você?
Não. Qualquer atriz poderia fazer, inclusive eu. Foi mais importante o que já conheciam do meu trabalho e da minha trajetória.

Uma comédia tragicômica sobre cinema, luto e os imprevistos de uma produção independente. Crédito: Divulgação
Prefere ser apresentada como atriz trans ou atriz travesti?
Travesti. E é importante colocar o nome da pessoa para além do gênero. Dar destaque à singularidade para além da nossa identidade.
Quais são seus maiores sonhos profissionais?
Continuar na carreira e conseguir viver dela. Trabalho em outras áreas da arte, porque ser atriz, por si só, nunca me sustentou. Depois de Madalena, acreditei que teria outros convites e me frustrei.

Morte e vida madalena. Crédito: Divulgação
E o que vem por aí?
Também sou cineasta e estou com meu primeiro longa-metragem em pós-produção, Iguaragua. Estou dedicada ao teatro neste momento, não por escolha própria, mas por falta de oportunidade.
Qual seu maior desejo atualmente?
Todos os dias eu tento restabelecer o amor à vida.
jordan@revistaentrerios.pt

Jordan Alves