O tempo de migração em massa de brasileiros em Portugal acabou, ao menos por enquanto. Se entre 2019 e 2025, essa população passou de 134.461 para 574.195 pessoas, um aumento de 327%, é possível observar que essa tendência de crescimento começou a arrefecer nos últimos anos. Para se ter uma ideia, entre 2024 e 2025, o aumento da população brasileira foi de apenas 1,56%. Os dados são do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O movimento tem algumas explicações e a principal delas diz respeito às mudanças nas regras de imigração impostas pelo governo do primeiro-ministro Luis Montenegro, do PSD, desde 2023. Nessa esteira foram aprovadas a Lei dos Estrangeiros, que revogou a manifestação de interesse (que permitia a regularização após a pessoa já ter entrado no país), a Lei da Nacionalidade (que ampliou o tempo de cinco para sete anos de residência para a obtenção da cidadania) e ampliados mecanismos para expandir a deportação e combater a imigração ilegal.

Com isso, muitos brasileiros têm deixado o país. Ainda não há números oficiais, mas o movimento já foi admitido pelo Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, que tem intensificado o auxílio aos brasileiros nessa situação. Para o advogado especialista em imigração Wilson Bicalho, a desaceleração da imigração brasileira não possui uma explicação única, mas sim uma combinação de fatores jurídicos, econômicos e sociais, que incluem baixos salários e episódios de discriminação.

“O aperto das regras migratórias é um fator relevante, porque afeta quem já vivia em Portugal e enfrentava dificuldades para regularizar ou renovar a sua situação documental. Mas ele deve ser analisado em conjunto com as condições econômicas. O custo de vida aumentou de forma expressiva especialmente em relação à habitação e esses preços não voltaram a cair. Em paralelo a isso, temos a pressão por serviços públicos como saúde e educação”, ressalta.

Leia também Aima ordena saída de 23 mil imigrantes; EntreRios teve acesso a documento e conversou com brasileira notificada: “Fiquei assustada”

Para o advogado, políticas de flexibilização oferecidas por países como a Espanha também têm contribuído para essa debandada. Ao todo, estima-se que mais de 900 mil estrangeiros que já moravam no país desde o ano passado e não tinham a documentação necessária pediram a regularização, beneficiando especialmente latino-americanos.

Outro diferencial é o tempo de apenas dois anos para a obtenção da cidadania com o visto de trabalho. A Espanha registrou um aumento da população brasileira de 25% entre 2022 e 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A EntreRios conversou com brasileiros que tem deixado o país luso com destino à Espanha a fim de entender mais sobre esse fenômeno, além de falar aqueles que resolveram voltar ao seu país de origem (veja abaixo).

Em junho, a influenciadora Ana Carolina Braga se mudou para o sul da Espanha com o marido Felipe Rodrigues e a filha Mariana, de seis anos, após quase cinco anos vivendo no norte de Portugal. Ela afirma que foi muito feliz no país ao longo desse período, mas afirma que nos últimos tempos muita coisa mudou, especialmente na questão política e migratória.

Ana Carolina Braga disse ter se sentido bem-vinda na Espanha. Crédito: Divulgação

“Acompanho o Parlamento e é muito difícil escutar deputados dizerem que nós não somos bem-vindos. E as pessoas começaram a se sentir validadas para replicar esses discursos e a compartilhar dados falsos e inventados. É mais fácil colocar a culpa naquele que é de fora por problemas que você não conseguiu resolver antes”, lamenta ela.

A comunicadora disse ter recebido diversos tipos de ameaças pelas redes sociais, o que aumentou sua sensação de insegurança em Portugal. Ela disse que estava planejando criar raízes no país, inclusive com a compra de um apartamento, e que a busca pelo passaporte europeu não era o seu objetivo principal. “A nacionalidade me permitiria ter um pouco mais de segurança em relação aos meus documentos. Mas não era o que eu estava atrás”, destaca.

Ana Carolina ressalta que levou apenas 20 dias para obter a sua autorização de residência e outros documentos na Espanha, mas, por outro lado, ainda não conseguiu regularizar toda a sua situação burocrática em Portugal. “A gente se sente com muito mais dignidade aqui, ninguém pergunta se sou estrangeira ou se estou legalizada no país”, frisa.

Já a empresária brasileira Patrícia Lemos viveu em Portugal por sete anos com o programa de apoio à imigração Vou Mudar para Portugal e decidiu se mudar para Alicante, no país vizinho, no final de 2024, para estimular a prática e o aperfeiçoamento de seus filhos Valentina, no vôlei e João Pedro, no futebol.

Leia também Governo aprova nova medida no Parlamento que restringe imigração em Portugal

“Portugal é o primeiro caminho do brasileiro na Europa porque ele traciona mais rápido. Mas com as mudanças vimos que não é mais para todos os brasileiros”, lamenta ela. A empresária descreve que, em sua base de usuários, a procura por Portugal, embora ainda esteja alta por parte de famílias de alto padrão, tem caído significativamente nos últimos anos. “Quem vai para trabalhar, não tem a vida estruturada e pensa nos sete anos para a nacionalidade começa a olhar para o lado”, diz.

Patricia Lemos escolheu a Espanha para aperfeiçoar a vida esportiva dos filhos João Pedro e Valentina. Crédito: Divulgação

Patricia elogia ainda a rapidez para a disponibilização de documentos e destaca que os custos de vida das cidades espanholas são menores do que em várias regiões de Portugal (exceto Madri e Barcelona). Mas ela ressalta que devem haver pontos de atenção, como a falta de uma rede de contatos de brasileiros e a língua.

“O maior problema é a ilusão do brasileiro de que ele vai se virar com o portunhol. Uma coisa é turistar, outra coisa é utilizar serviços do dia a dia ou fazer reuniões em espanhol”, aponta.

A cautela na imigração para a Espanha também é reforçada pela advogada Amanda Kalil que vive em Sevilla há 14 anos e possui o próprio escritório. Ela afirmou que, no final de 2025, o número de contatos com o escritório aumentou cerca de 25% ao mês e, pelo menos metade disso, era composto por brasileiros que viviam em Portugal.

A advogada Amanda Kalil vive em Sevilla há 14 anos e fala dos cuidados ao imigrar para a Espanha Crédito: Divulgação

Segundo a profissional, o brasileiro que vive em Portugal e pensa em mudar para a Espanha deve ter alguns cuidados. Mesmo com a documentação em dia, será preciso aplicar para um visto no Consulado espanhol em Portugal. “A única exceção é se a pessoa for titular do estatuto de longa duração da União Europeia, ou seja, já estiver vivendo em situação regular em Portugal durante cinco anos”, aponta.

Ainda que haja essa troca de residência, fica o alerta. “Ao aplicar para uma residência aqui ela perde a contagem do tempo de residência em Portugal para a cidadania”, alerta. Ela aconselha que essa troca deve ser feita apenas no caso de uma proposta profissional consistente.

“Muitas pessoas procuram essa mudança na base da emoção. Tem gente que não deveria nem ter imigrado para Portugal, que demorou anos para se regularizar e quer fazer o mesmo na Espanha. É preciso se planejar”, afirma.

Brasileiros também têm o Brasil como destino de volta

A Espanha não é o único local de destino de brasileiros que viviam em Portugal. Muitos também têm optado em voltar para o Brasil por conta dos altos custos de vida, da falta de oportunidades profissionais, de restrições à imigração e do crescimento do discurso anti-imigração.

O geógrafo Daniel Oliveira e sua esposa Camila Bruno voltaram para o Brasil após passarem mais de dez anos em Portugal. Ele afirma ter sentido falta de estar próximo da família, de amigos e da cultura brasileira e diz ter sentido um desapontamento com o país europeu.

Daniel Oliveira e sua esposa Camila Bruno. Ele destacou que os altos custos em Portugal foram decisivos para o retorno do casal ao Brasil. Crédito: Divulgação

“É um país que tem se tornado cada vez mais caro, principalmente na questão habitacional, mas também com o aumento do preço de produtos e com salários que não acompanharam a inflação. Se torna mais difícil manter a qualidade de vida que se espera quando vamos para a Europa”, relata, lamentando ainda os casos de racismo e xenofobia no país.

Para Oliveira, existe uma romantização da situação na Europa que nem sempre corresponde à realidade. “Com o tempo as pessoas vão percebendo isso, porque não há esse leque de oportunidades que se sonha”, explica.

Já a jornalista Giovanna Angelini e seu marido Luiz Boaventura também possuem um pensamento semelhante com a mudança recente de Braga para uma cidade na região metropolitana de São Paulo. Para ela, não havia oportunidades profissionais relevantes na sua área, além dos salários serem muito baixos.

Giovanna e Luiz deixaram Braga para retornar ao Brasil por conta de melhores oportunidades profissionais. Crédito: Divulgação

“Morei dois anos em Braga e trabalhava remotamente para o Brasil e, mesmo ganhando em real, ainda assim tinha uma renda maior do que se trabalhasse para uma empresa portuguesa”, conta.

Para ela, o endurecimento nas regras de imigração não é o melhor caminho. “Acredito essas regras sobre imigração devem ser revistas pelo impacto gerado na economia do país. Na minha visão, Portugal tem problemas muito maiores do que a imigração em si, como o alto custo de vida e poucas oportunidades qualificadas”, aposta ela.

Leia também Parlamento aprova novas medidas que endurecem regras de imigração em Portugal

A psicanalista Fernanda Hamann conta que a decisão de voltar para o país de origem com o marido e dois filhos, de 3 e 9 anos, foi influenciada pela doença de seu pai, o que a fez questionar sobre o contato com o restante da família. “Sempre senti como se ouvisse a nota aguda de um violino a me lembrar a todo momento: você não está em casa. Essa nota ficava mais estridente a cada episódio de xenofobia, especialmente quando aconteciam contra os meus filhos”, relembra ela.

Fernanda Hamann disse que presenciou muitos amigos sofrendo com a falta de documentação em Portugal. Crédito: Divulgação

Apesar de contar com a cidadania italiana, ela sempre sentiu a opressão causada pelo discurso xenofóbico propagado nas redes sociais e nas ruas. “Assistir à partida de amigos que têm dificuldades burocráticas para renovar sua documentação é uma situação muito triste. Conheço pessoas que trabalharam muito, contribuíram para a Segurança Social e agora querem voltar para o Brasil porque não suportam mais esse ambiente hostil”, finaliza.

renan@revistaentrerios.pt

Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.

Assine aqui →