Os brasileiros têm presença expressiva na odontologia em Portugal. Segundo dados recentes da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), havia 13.498 profissionais registrados no país em 2024. Entre os 1.638 estrangeiros, 705 eram do Brasil, o equivalente a 43% do total de outras nacionalidades. Nos últimos três anos, o número cresceu 13%.
“Quando, no avião, alguém levanta durante um voo longo no meio da noite para escovar os dentes, pode ter certeza de que é um brasileiro. É um exemplo em relação à educação e boas práticas”, afirma Miguel Pavão, presidente da entidade em Portugal.

Miguel Pavão, presidente da OMD, falou sobre a influência que o Brasil exerce entre os médicos dentistas em Portugal. Crédito: Divulgação
A dentista Aline Marodin conta que operou um jovem de apenas 24 anos que precisou colocar implantes na boca. “É um choque de realidade. Lembro que na minha escola tínhamos um “escovódromo”. Valorizamos a questão estética, enquanto aqui, é um tabu escovar os dentes no shopping. Ninguém fala de escovação nas escolas e também há uma forte cultura do tabagismo”, afirma ela.
Brasileiros ajudam a transformar a saúde bucal em Portugal
Já Camila Neves Batko, que atuou em pequenas vilas no interior do país, diz que, embora a saúde bucal ainda seja associada ao alto custo, essa percepção vem mudando.
“Existe esse mito de que cuidar dos dentes é para os ricos. Mas hoje em dia, após dez anos atuando aqui, vejo que os portugueses estão mais adeptos às manutenções a cada seis meses e até a fazer tratamentos de harmonização”, afirma.
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Para Miguel Pavão, há um avanço na discussão do tema com a ampliação de tratamentos preventivos e de reabilitação. Segundo ele, o Brasil tem uma atuação mais estruturada em projetos de prevenção e educação. “Há projetos, literacia, políticas. São mais de 600 escolas de medicina dentária por lá, então, a oferta é grande”, detalha.
Essa participação, porém, não é recente. Pavão conta que os brasileiros estiveram no centro da própria regulamentação da profissão. Muitos chegaram ao país na década de 1980, provocando resistência entre profissionais portugueses, que questionavam a legalidade de suas atuações. “A criação da nossa ordem, em 1998, tentou regularizar a situação. Não havia uma entidade que pudesse fazer isso”, conta ele.
Reconhecimento do diploma ainda é desafio para estrangeiros
Hoje, para atuar no país, os estrangeiros precisam passar pelo processo de reconhecimento ou homologação do diploma. A burocracia, porém, pode ser um obstáculo; já que todo o trâmite pode levar de dois a três anos, fazendo com que alguns profissionais procurem outros países europeus.
A proximidade cultural e linguística ajuda a explicar a escolha pelo país, mas as condições salariais fazem com que parte dos brasileiros migre posteriormente para lugares como Irlanda, França e Holanda.
O presidente também critica as condições oferecidas aos dentistas no início da carreira e comemora uma mudança recente: o Parlamento português aprovou a inclusão deles no Serviço Nacional de Saúde (SNS), permitindo que ofereçam atendimento de saúde oral nas Unidades Locais de Saúde (ULS).
Segundo ele, a medida corrige uma divisão feita há quatro décadas, quando estomatologistas e médicos dentistas foram separados, e a medicina dentária ficou fora do sistema público.
A Ordem dos Médicos Dentistas mantém conversas com o Conselho Federal de Odontologia (CFO) para estabelecer parcerias de formação, já que, de acordo com Pavão, também há procura de profissionais portugueses por especializações no Brasil.
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Esse protagonismo também se reflete no empreendedorismo. Aline Marodin mantém uma clínica em Portimão, no Algarve, há mais de dez anos e, em setembro, inaugura uma segunda unidade em Lisboa, onde atuarão pelo menos cinco profissionais. Uma das suas especialidades é a cirurgia bucomaxilofacial, que envolve a face, os maxilares, a cavidade oral e a região cervical.

Aline Marodin possui uma clínica no Algarve e abrirá outra em breve em Lisboa. Crédito: Divulgação
“Já fiz cirurgias no Porto, em Lisboa e no Algarve. Os portugueses gostam muito da nossa mão de obra. Sempre tive sucesso porque cheguei com várias especializações”, conta ela.
Para Aline, uma das razões para a boa receptividade está na experiência prática adquirida durante a formação. “Aqui, o curso é mais teórico, enquanto no Brasil, já no segundo ano, estamos atendendo pacientes”, compara.
Ela diz, porém, que a receptividade pode variar de acordo com o nível de especialização. “Se você é um ortodontista ou um profissional super especializado, será bem-vindo. Mas quem é recém-formado ou só clínico geral é mais difícil, porque muitos enxergam como um concorrente”, afirma.
Já Camila Neves Batko veio para fazer mestrado e pedir a equivalência do diploma na Universidade do Porto. Começou atuando para um grupo de clínicas na área de implantes, e realizava atendimentos por Leiria, Lisboa, Cascais e Porto. Agora abrirá um novo espaço em Leiria.

Camila Neves Batko fez sua carreira nos últimos anos atuando no interior de Portugal. Crédito: Divulgação
Ela diz que precisou enfrentar diversos tipos de preconceitos e discriminação, especialmente em cidades menores. Mesmo com as adversidades, garante que gosta de morar no país. “Já tive oportunidades para ir para a França, Bélgica, Espanha, mas gosto mesmo de estar aqui”, relata.
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O empreendedorismo brasileiro também chegou à tecnologia voltada para o setor. Amanda Prado e Wessley Silva criaram o software Linkeify, que reúne em uma única plataforma ferramentas de gestão administrativa e financeira, controle de estoque, relacionamento com fornecedores e laboratórios, marketing e CRM para clínicas dentárias.

Amanda Prado utilizou sua experiência como dentista para a criação do Linkeify. Crédito: Divulgação
A plataforma também conta com o Doctor IA, recurso de inteligência artificial que transcreve consultas e auxilia na elaboração dos registros e prescrições dos tratamentos. A tecnologia pode ainda apoiar a análise de radiografias e fotografias e centralizar a comunicação entre os profissionais da clínica.
Para os pacientes, há um portal no qual é possível acompanhar pagamentos, prescrições e tratamentos realizados.
Lançado há pouco mais de dois meses, o software já é utilizado por 17 unidades dentárias em Portugal. O objetivo é ampliar a presença no país e, futuramente, levar a solução ao Brasil e a outros mercados europeus, como Espanha e França.
“Com a solução, o profissional pode visualizar tudo o que foi realizado mesmo se estiver viajando para um curso ou formação, por exemplo. É possível prever todo o faturamento, o que facilita muito a parte de gestão”, ressalta Amanda.
renan@revistaentrerios.pt

Renan Araújo