O samba que ecoa nas rodas do Coletivo Gira, em Lisboa, vai ganhar um cenário à altura de sua trajetória. Fundado em 2021 por mulheres e pessoas não binárias brasileiras que vivem em Portugal, o grupo se apresenta no sábado (29), no Castelo de São Jorge, durante a programação Pôr do Sol no Castelo, e aproveita a ocasião para realizar a captação de seu primeiro audiovisual ao vivo.
O coletivo é formado por Kali Peres (cavaquinho e voz), Emile Pereira (percussão e voz), Tida Pinheiro (percussão e voz), Lika Mattos (percussão e voz), Meli Huart (percussão), e Brunão (pandeiro). A proposta vai além da música pois o Gira nasceu do amor pelo samba e por suas raízes afro-brasileiras, mas também do desejo de ocupar espaços, promover a igualdade de gênero e colocar mulheres, pessoas negras e a comunidade LGBTQIAPN+ no centro da roda.

Castelo São Jorge em Lisboa. Credito: Divulgação
Para as artistas, chegar ao Castelo de São Jorge carrega uma dimensão simbólica que ultrapassa a apresentação. Percussionista e cantora, a gaúcha Tida Pinheiro, que também viveu parte da vida no Rio Grande do Norte, destaca justamente a relação entre território, história e pertencimento.
“O castelo é um lugar onde historicamente se dominava, se controlava a cidade e foi também um ponto de disputa e de tomada da cidade por diferentes povos ao longo do tempo. Então, para a gente, enquanto imigrantes brasileiras, estar hoje nesse lugar e tendo a possibilidade de tocar no castelo, ocupando esse espaço com a nossa presença, com a nossa música, com a nossa cultura, com o nosso povo, tem uma potência muito grande”, afirma.
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Segundo ela, a presença do grupo representa uma inversão simbólica:
“Nós vamos chegar nesse território não para dominar, mas para compartilhar aquilo que a gente tem de mais rico, que é a nossa cultura, a nossa ancestralidade e a nossa capacidade de criar encontros com outros povos que também ocupam essa cidade”.

Por do Sol no Castelo São Jorge. Reprodução Instagram: @castelodesjorge
A escolha do local também estabelece uma conexão especial com a própria tradição do samba. Tida lembra que São Jorge é considerado, no Brasil, um dos santos associados ao samba e vê nessa coincidência uma ponte entre ancestralidade e território. O repertório preparado para a apresentação passa pelos tambores, pelo samba, pela ancestralidade afro-brasileira e pelos orixás, mas também pelas memórias e referências construídas pelo coletivo ao longo de sua caminhada. “Para nós, esse show é muito mais do que uma simples apresentação, é um momento de ocupação simbólica, de celebração, de encontro”, resume a artista.
A dimensão política do trabalho também aparece nas falas de Kali Peres, natural de Porto Alegre, que destaca a importância de ampliar os debates sobre diversidade dentro do próprio movimento feminista: “Uma das coisas importantes é reforçar a interseccionalidade e entender essas diferentes ‘mulheridades’. Para além da misoginia que mata todos os dias, também existe uma transfobia muito forte, seja aqui ou no Brasil”, disse a artista em março deste ano à EntreRios.
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Roda de samba do Coletivo Gira. Crédito: Divulgação
Primeiro audiovisual
O show no castelo ganha ainda outro peso por marcar a produção do primeiro audiovisual do Coletivo Gira. Para Tida, registrar a apresentação ao vivo significa transformar uma noite de música em memória e documento da trajetória construída pelo grupo em Lisboa. “Esse show ganha ainda um significado muito especial porque vai ser o primeiro audiovisual do Coletivo Gira, a nossa primeira produção ao vivo. A gente vai registrar esse momento junto com o público, então queremos muito que as pessoas estejam lá, cantando, celebrando e fazendo parte desse registro com a gente”, diz.
O momento sintetiza a trajetória de um coletivo que encontrou no samba uma forma de criar comunidade longe do país de origem e, ao mesmo tempo, afirmar presença na cidade que escolheu como território de vida e criação.
Pôr do Sol no Castelo com Coletivo Gira
Data: 29 de agosto (sábado)
Horário: 19h
Local: Castelo de São Jorge, Lisboa
Entrada: gratuita, mediante lotação
Bilhetes: distribuição no dia do evento, a partir das 18h, com limite de 1 bilhete por pessoa.
A apresentação faz parte da sexta edição do Pôr do Sol no Castelo, programação que leva música às muralhas do Castelo de São Jorge durante os fins de tarde de agosto, com atrações que transitam por diferentes sonoridades, incluindo música eletrônica, afrobeat, hip-hop, house, samba e jazz.
jordan@revistaentrerios.pt

Jordan Alves