Mais de 1,4 mil urnas eletrônicas foram preparadas no Distrito Federal para atravessar fronteiras, fusos horários e até zonas de conflito. A operação coordenada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF), em parceria com o Itamaraty, garante a votação de quase 919 mil brasileiros que vivem no exterior.
Uma urna eletrônica brasileira pode sair de Brasília e, poucos dias depois, estar em uma embaixada na Ásia, em um consulado na Europa ou em um local de votação do outro lado do mundo. Entre esses dois pontos existe uma operação que envolve tecnologia, diplomacia, transporte internacional e um plano de contingência para garantir que, mesmo quando algo dá errado, o voto aconteça.
Nas eleições deste ano, 918.911 brasileiros estão aptos a votar no exterior, segundo dados da Justiça Eleitoral. São eleitores espalhados por 134 países, em 1.361 seções eleitorais mapeadas. Para eles, a votação é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República.
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Como as urnas são preparadas
Assim que termina o prazo para o julgamento das candidaturas, começa uma corrida contra o relógio. Desde 16 de setembro, as urnas destinadas ao exterior passaram pelo processo de carga, testes e lacração no Distrito Federal. A identificação individual permite acompanhar o equipamento durante todo o percurso.
Depois da cerimônia pública de lacração, elas são entregues ao Itamaraty, responsável por coordenar o transporte internacional por meio de uma empresa contratada para a operação. De Brasília, os equipamentos seguem para os aeroportos de Viracopos, em Campinas, e Guarulhos, em São Paulo, de onde são distribuídos para diferentes países.
Mas a logística não termina quando a urna embarca em um avião. “Os nossos maiores desafios neste momento são verificar o estado em que as elas chegaram nesse transporte, porque há locais muito distantes, especialmente os que estão nos continentes da Ásia e Oceania, e sabemos que nesse transporte podem ocorrer avarias”, explica Ricardo Noronha, assessor-chefe da Assessoria Eleitoral do Exterior do TRE-DF à EntreRios.
Quando chegam ao destino, as urnas são novamente testadas pelas equipes das embaixadas e consulados. A ideia é descobrir antes do dia da votação se algum equipamento sofreu danos durante a viagem.

E se a urna não chegar?
É justamente aí que entra uma das partes menos visíveis da operação: o plano B já precisa estar pronto antes mesmo de o plano A terminar. Em todas as seções eleitorais são enviadas urnas de lona, que funcionam como uma espécie de seguro logístico. Elas serão utilizadas diretamente em 28 seções que não contam com urna eletrônica, mas também ficam disponíveis como contingência caso um equipamento eletrônico apresente problemas.
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A regra é simples: primeiro tenta-se solucionar o problema ou substituir a urna por um equipamento reserva. Se isso não for possível, a votação pode ser feita em cédulas de papel.
“Ainda que as urnas eletrônicas não cheguem a tempo, na pior das hipóteses, não deixará de haver votação, porque o plano B já foi executado antes mesmo do plano A.”
Nas seções com menos de 100 eleitores aptos, a votação já ocorre em cédulas de papel. Para que uma seção eleitoral seja instalada no exterior, é necessário haver pelo menos 30 eleitores aptos.
Uma operação que atravessa zonas de conflito
O desafio fica ainda maior quando o destino está em uma região que enfrenta instabilidade política ou conflitos. Em 2026, há locais de votação em cidades como Tel Aviv, Teerã, Beirute e Kiev, além de países que enfrentam outras dificuldades logísticas. Em alguns casos, espaços aéreos fechados ou alterações nas rotas internacionais obrigam as urnas a fazer caminhos diferentes até chegar ao destino.
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“Há países que estão com espaço aéreo fechado. Então, toda essa operação demanda da empresa contratada pelo MRE um desenho de uma outra logística que muitas vezes faz com que o avião que entrega as urnas tenha que voltar por outros países até chegar ao seu destino”, explica o assessor do TRE-DF.
Mais de 29 horas de votação
Quando tudo chega ao destino, ainda existe outro fator que torna a eleição no exterior diferente: o relógio. Por causa dos fusos horários, a votação dos brasileiros que vivem fora do país se estende por mais de 29 horas, começando pela Nova Zelândia e terminando no Canadá, sempre considerando o horário de Brasília.
Assim que a votação termina em cada local, os boletins de urna são impressos e afixados nas seções eleitorais. A transmissão dos resultados começa conforme o encerramento da votação em cada país, mas a divulgação oficial pelo Tribunal Superior Eleitoral ocorre somente depois do fechamento da votação no Brasil. No exterior, portanto, a eleição não acontece em um único lugar nem exatamente ao mesmo tempo. Ela se espalha por consulados, embaixadas e locais de votação em dezenas de países, acompanhando a geografia e os fusos do planeta.
Os números desta eleição
- São 1.407 urnas eletrônicas
- Cerca de 1.361 seções eleitorais mapeadas
- Quase 919 mil eleitores aptos a votar
- Eleição é realizada em 134 países

Lizzie Nassar