No Porto, o Boteco Igrejinha nasceu de uma memória pessoal que atravessa décadas. Rodrigo Soares, 52 anos, lembra que a ideia do espaço começou ainda na infância. “Quando tinha 11 anos, a minha avó construiu uma capela para batizar a minha irmã. Fiquei irritado com isso e disse que um dia teria a minha capela”, contou. Anos mais tarde, depois de viver na Suíça, trabalhar na moda e passar pela confeitaria, abriu o bar em 2023.
O conceito mistura referências religiosas reinterpretadas e cultura pop, com cantoras de música pop sendo “cultuadas” como uma brincadeira, sem intenção de choque, segundo ele. “Nunca quis ofender ou profanar qualquer coisa em relação à religião”, afirmou. O foco, diz, está na experiência de quem entra. “O que a gente mais recebe de feedback positivo é justamente isso: fazer as pessoas se sentirem à vontade”.

Inaugurado em 2023, o Boteco Igrejinha nasceu de uma memória de infância do proprietário Rodrigo Soares e aposta em um ambiente acolhedor marcado por referências religiosas reinterpretadas e cultura pop. Crédito: Flávio Oliveira
Esse tipo de negócio integra um setor mais amplo que já tem dimensão global. Estimativas da Organização Mundial do Turismo indicam que turistas LGBTQIAPN+ representam cerca de 10% do total mundial de viagens. Portugal surge consistentemente bem posicionado em rankings internacionais de segurança e inclusão, como o Gay Travel Index 2025 da Spartacus, onde aparece no topo ao lado de Espanha, Canadá, Islândia e Malta.
Essa percepção de segurança ajuda a explicar o crescimento de eventos ligados à diversidade em várias cidades europeias. Em Lisboa, a Parada da Diversidade já se consolidou como um dos maiores eventos do gênero do país, com impacto direto na hotelaria, restauração e comércio local.
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Em Madrid, o WorldPride transformou a cidade num dos principais destinos europeus do turismo queer, com efeitos econômicos amplamente documentados na ocupação hoteleira e no consumo urbano durante o evento.
No Porto, esse movimento também ganha forma com o festival Porto Pride, vice-presidido por Duarte Duarte. Ele descreve o evento como algo que ultrapassa a celebração simbólica. “O Pride não é só festa, é também economia a mexer na cidade”, afirmou. Segundo Duarte, a edição mais recente do evento teve uma forte presença internacional, sobretudo de Espanha, França, Brasil e Reino Unido. “Há pessoas que vêm já especificamente para o evento”, explicou.

Realizado anualmente na cidade, o Porto Pride atrai visitantes de diferentes países e ajuda a movimentar setores como hotelaria, restauração e entretenimento. Crédito: Divulgação
Esse fluxo tem impacto direto em diferentes setores. “Alojamento enche, restauração trabalha mais, há mais consumo na cidade”, disse. Duarte acrescenta que o Porto Pride também funciona como ponto de entrada para novos públicos na cidade. Isso porque muitos visitantes acabam por prolongar estadias ou regressar noutras épocas do ano, criando um efeito direto no turismo urbano.

O festival reúne centenas de participantes todos os anos e contribui para aumentar a ocupação hoteleira, o movimento nos restaurantes e o consumo em diferentes áreas da cidade. Crédito: Divulgação
Esse circuito encontra paralelo em espaços como o Lusitano, no Porto, criado por Mário Carvalho. Aos 64 anos, ele soma mais de duas décadas na vida noturna da cidade.
“Quando abri, disseram que não ia ter ninguém”, recorda sobre a inauguração em 2005. O espaço tornou-se referência para o público LGBTQIAPN+, mas hoje enfrenta o desafio da renovação e da sustentabilidade. “Temos de diversificar para manter os clientes antigos e trazer gente nova”, afirmou.

Aberto em 2005, o Lusitano tornou-se uma referência da vida noturna LGBTQIAPN+ no Porto e segue como um dos espaços mais tradicionais do segmento na cidade. Crédito: Flávio Oliveira
Mário também aponta para uma dificuldade recorrente no setor: o acesso a patrocínios e apoio comercial ainda é instável, apesar da maior visibilidade do segmento. Essa realidade contrasta com o crescimento do turismo voltado à comunidade, que movimenta milhares de milhões de euros globalmente e é frequentemente associado a maior frequência de viagens e gasto médio superior.
Entre a Igrejinha, o Lusitano e o Porto Pride, há diferentes escalas de atuação, mas uma lógica comum: todos dependem da circulação de pessoas e da capacidade de transformar a cidade em experiência.
Rodrigo fala do acolhimento como base do seu negócio. Mário da longevidade de um espaço que atravessa gerações da noite portuense. Duarte da dimensão urbana e internacional de um evento que atrai visitantes estrangeiros e movimenta a economia local.
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Em conjunto, estes casos mostram um setor em crescimento, mas ainda desigual e com fragilidades. A circulação de turistas e eventos não elimina dificuldades de financiamento, percepções erradas e dependência de sazonalidade. Lisboa, Porto e Madrid entram na rota internacional do turismo LGBTQIAPN+, mas essa integração continua longe de ser homogênea, entre visibilidade, disputa e a própria sustentabilidade do segmento.
Fato é que, quando colocados no mesmo mapa, estes exemplos mostram como o turismo e os negócios ligados à diversidade deixaram de ser periféricos para se tornarem parte ativa da economia urbana.
flavio@revistaentrerios.pt
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Flávio Oliveira