Ela não pede poses perfeitas nem corpos moldados por padrões. Em Lisboa, a fotógrafa brasileira Dai Moraes convida mulheres a olharem para si mesmas com mais gentileza — e, muitas vezes, pela primeira vez.

Desde que se mudou para Portugal, em 2016, a carioca construiu um trabalho que vai além da imagem: suas sessões de fotografia boudoir (ensaios sensuais) tornaram-se um espaço de escuta, acolhimento e reconexão com o próprio corpo, ajudando a desafiar o conservadorismo ainda presente na relação dos portugueses com a nudez e a autoestima.

Formada em Publicidade e Propaganda, Dai fotografa profissionalmente desde 2011. Atua em Portugal, Brasil e Reino Unido, com foco em ensaios boudoir, casamentos e registros afetivos. O fio condutor de todo o seu trabalho é a busca por verdade e emoção.

“Quero que as mulheres se sintam bonitas e sensuais com o corpo que têm”, afirma.

No boudoir, seu principal território criativo, a proposta é clara: nada de artifícios que alterem o corpo ou criem uma versão idealizada da mulher fotografada. Ou seja, aqui não entra Photoshop!

Dai Moraes. Crédito: Divulgação

Dai Moraes. Crédito: Divulgação

As sessões acontecem em um ambiente seguro e acolhedor, com orientação cuidadosa sobre poses, looks e expressão, mesmo para quem nunca esteve diante de uma câmera profissional.

Exposição multimídia

Esse olhar atento ganhou ainda mais força com o projeto +Mulher, idealizado por Dai em 2013. A iniciativa propõe uma reflexão sobre o significado da beleza feminina e o resgate da autoestima por meio da imagem e da narrativa visual.

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O projeto tornou-se uma exposição multimídia exibida por mais de dez meses em cidades como Lisboa, Oeiras, Coimbra e Cantanhede, abrindo espaço para conversas sobre amor-próprio, aceitação e autenticidade.

Histórias marcantes

Ao longo dos anos, algumas histórias marcaram profundamente o percurso da fotógrafa. Uma delas é a de Sara Guedes, portuguesa que enfrentava um tratamento contra o câncer de mama.

Sara Guedes. Crédito: Divulgação

Sara Guedes. Crédito: Dai Moraes

O contato surgiu de forma inesperada, a partir de uma conversa com a filha Beatriz. “Um dia ela chegou e me contou: ‘sabia que a mãe da minha amiga vai ter que usar peruca?’ Entendi tudo com aquele comentário”, relembra Dai.

A partir dali, a fotógrafa se aproximou como rede de apoio e ofereceu uma sessão boudoir por meio do +Mulher. “Sei o quanto essa doença mexe com a autoestima feminina.” O resultado surpreendeu Sara: “Me senti super bem, à vontade e empoderada. As fotografias ficaram absolutamente incríveis. Nelas voltei a me encontrar, a me sentir mulher e a ver a beleza, embora que diferente, da nova Sara.”

Outra relação construída ao longo do tempo foi com Ana Andrade, que procurou Dai em 2019 em busca de aceitação corporal. A experiência se repetiu ano após ano. “As sessões funcionam como um booster para a minha autoestima. Estava precisando me reconectar com a ‘Ana Diva’ que sei que existe”, resume Ana.

Ana Andrade. Crédito: Dai Moraes

Ana Andrade. Crédito: Dai Moraes

Durante esse percurso, Ana descobriu um câncer de tireoide. “Apesar da força e alto astral, toda essa história mexeu muito com ela”, conta a fotógrafa. A proximidade levou ao convite para participar da terceira edição do +Mulher, em 2022, e o vínculo segue até hoje, com novos ensaios já planejados.

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O início no boudoir

O caminho até o boudoir começou cedo. Dai realizou sua primeira sessão desse tipo em 2011, ainda no Brasil, para compor o portfólio. “Naquele momento entendi que eu precisava estudar e me dedicar mais a este segmento, que era totalmente diferente e mais sensível do que os outros.”

Mara Raposo posa para Dai Moraes. Crédito: Dai Moares

A cliente Maria Raposo durante ensaio. Crédito: Dai Moraes

Parte desse aprendizado veio como assistente das sessões Paparazzo do antigo site Ego, da Globo.com. A primeira cliente pagante chegou em 2013, no Rio de Janeiro.

Ao falar dos ensaios que mais a emocionaram, Dai evita hierarquias, mas compartilha histórias que ajudam a entender a potência do trabalho. Uma cliente contou, durante a sessão, que nunca havia se enxergado feminina nem permitido se apaixonar.

Depois da experiência, iniciou um relacionamento e hoje tem dois filhos. “Não é algo mágico, mas acho essa história fantástica por ter sido um exemplo muito prático de como ela transformou o olhar dela sobre ela mesma.”

Cliente posa para Dai Moraes. Crédito: Dai Moraes

Dai Moraes realiza ensaios em diferentes locações. Crédito: Dai Moraes

Outro momento importante foi fotografar a própria mãe, na terceira edição do projeto, após um período em que ela esteve entre a vida e a morte. “Mostrar a beleza apesar das cicatrizes e sua história de superação foi realmente especial.”

Hoje, com uma carreira consolidada em Portugal, Dai Moraes segue fiel ao propósito que a trouxe até aqui. “Uma certeza que eu tenho é que o +Mulher nunca vai parar, esse projeto já se tornou o meu propósito.”

A cliente Rosana durante ensaio em estúdio. Crédito: Dai Moraes

A cliente Tatiana durante ensaio em estúdio. Crédito: Dai Moraes

Para este ano, estão previstas edições especiais ligadas ao Dia da Mulher e ao Outubro Rosa. Em 2026, a fotógrafa também participa da escrita de um capítulo em um livro sobre feminismo, ampliando sua atuação para além da imagem.

 

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