Há mais de uma década, o português João Azinheiro aproxima artistas, galerias e colecionadores dos dois lados do Atlântico. A relação começou na ArtRio, passou pelo Rio de Janeiro e hoje se estende entre Porto, Lisboa e São Paulo

Quando João Azinheiro chegou à ArtRio pela primeira vez, em 2014, trazia dois artistas portugueses na bagagem e uma pergunta ainda sem resposta: o que aconteceria quando a arte portuguesa encontrasse o mercado brasileiro?

A experiência acabou se tornando um ponto de partida. Um dos artistas fez uma residência no Rio de Janeiro, e Azinheiro começou a construir uma relação que, mais de dez anos depois, continua sendo um dos eixos de seu trabalho como galerista.

“Foi a primeira grande porta que se abriu para entender um pouco o que é a arte brasileira e também o que é estar aqui no Brasil”, conta.

Arquiteto de formação e natural do Barreiro, em Portugal, Azinheiro chegou às artes visuais por caminhos que passam pela arquitetura, pela música e pela própria curiosidade. Antes de trabalhar com artistas, já conhecia o Brasil de outras formas. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina e Tim Maia faziam parte da trilha sonora de sua casa. Niemeyer e Lygia Clark entraram depois no seu repertório visual. O contato direto com o país, no entanto, mudou a escala dessa relação.

“Eu nunca tinha vindo ao Brasil nessa perspectiva. Aqui, passei a ter outro tipo de abordagem, outro tipo de contato, mais da questão da língua, das pessoas, dos hábitos, dos costumes”, diz. Foi também a partir desse contato que começou a olhar de outra maneira para a produção artística portuguesa.

Uma relação de mão dupla

A KUBIKGALLERY, fundada por Azinheiro no Porto, tornou-se um dos instrumentos dessa aproximação. A galeria mantém espaços no Porto e em Lisboa e, mais recentemente, passou a atuar também em São Paulo.

A estratégia não se limita a levar uma exposição pronta de um país para o outro. Há colaborações com outras galerias, artistas que fazem residências, projetos conjuntos e exposições pensadas para circular entre os dois mercados.

Um exemplo é o trabalho com artistas brasileiros como Helena Ramos e Zoe Passos. Helena, fotógrafa, desenvolve uma pesquisa que passa por tecidos, cores e diferentes possibilidades da imagem. Depois de ser apresentada pela KUBIKGALLERY em Portugal, recebeu o Prémio de Arte Revelação Novo Banco e teve uma exposição em Serralves.

Na ArtRio, durante a semana em que conversamos com Azinheiro, Helena dividia o espaço da galeria com Zoe Passos. As duas são brasileiras e pertencem a uma geração próxima, mas trabalham com linguagens diferentes.

João Azinheiro. Crédito: Lizzie Nassar

João Azinheiro. Crédito: Lizzie Nassar

Para Azinheiro, colocar esses trabalhos lado a lado é também uma forma de produzir novas conversas. A mesma lógica vale para os artistas portugueses. A ideia é criar condições para que eles encontrem público e colecionadores no Brasil, enquanto artistas brasileiros ganham novas possibilidades de circulação na Europa. É uma tentativa de fazer com que a relação entre os dois países não seja apenas cultural ou afetiva, mas também profissional.

O mercado e as barreiras

A circulação, entretanto, não acontece sem obstáculos. Azinheiro chama atenção para as diferenças entre os mercados e para os custos envolvidos na entrada de obras europeias no Brasil. Segundo ele, quando uma obra portuguesa chega ao mercado brasileiro seguindo todos os procedimentos legais, os valores podem aumentar significativamente.

Na direção contrária, afirma, existem mais facilidades para artistas brasileiros chegarem à Europa. O galerista defende que políticas culturais poderiam ajudar a diminuir essas dificuldades, principalmente quando galerias portuguesas levam artistas para outros mercados. “Quando elas cruzam o Atlântico, no caso do Brasil, nós deveríamos ter um suporte”, afirma.

Para ele, esse apoio não significa substituir o papel das galerias privadas, que continuam responsáveis pela escolha dos artistas e pelos riscos comerciais. A questão seria criar condições para que a produção artística possa circular.

Quem consegue entrar?

Existe ainda outra barreira, menos visível: a porta de entrada. Azinheiro conta que a galeria recebe muitos portfólios de artistas interessados em trabalhar com o espaço. Nem todos são selecionados. E uma resposta negativa, segundo ele, não significa necessariamente que o trabalho não tenha qualidade.

“Às vezes, nós não estamos preparados para determinados artistas”, explica.

Para quem está começando, ele recomenda uma aproximação menos automática: conhecer as galerias, acompanhar os artistas que elas representam e entender seus projetos antes de simplesmente enviar um portfólio. “É importante também frequentar a galeria.”

A observação revela uma questão maior do mercado contemporâneo: em um cenário com cada vez mais artistas produzindo, vendendo e divulgando o próprio trabalho pelas redes sociais, o papel das galerias também está mudando.

Azinheiro reconhece essa transformação. Artistas criam exposições independentes, vendem pela internet, usam Instagram e TikTok e constroem seus próprios caminhos. Mas ainda acredita na importância do encontro presencial. A arte não precisa ser um lugar fechado.

Essa preocupação com acesso aparece também na maneira como Azinheiro fala sobre o público. Ele lembra de uma experiência em uma grande galeria de Nova York, onde se sentiu em um ambiente mais restrito do que um museu.

A experiência reforçou uma ideia que carrega até hoje: a arte não deveria ser percebida como um território reservado a milionários. “Arte é um pensamento que traz novas questões, novas imagens. É uma viagem.”

No Brasil, ele diz ter encontrado uma relação diferente entre público e obra. Uma relação que, em sua percepção, pode ser mais leve. Ele conta que já ouviu brasileiros dizerem que querem ter uma obra alegre em casa, e não algo depressivo — “para isso já chega a chuva que tenho aqui no Rio”.

A brincadeira revela uma característica que ele associa ao público brasileiro: o desejo de estabelecer também uma relação afetiva e prazerosa com a arte.

João Azinheiro. Crédito: Lizzie Nassar

João Azinheiro. Crédito: Lizzie Nassar

Mas Azinheiro não defende uma arte necessariamente fácil. Pelo contrário. Para ele, temas políticos e questões importantes para a sociedade precisam continuar presentes na produção contemporânea — seja na arte, no cinema, no teatro ou na música. O desafio, diz, está em não transformar a arte em um espaço inacessível.

Brasil e Portugal: parecidos, mas nem tanto

Depois de tantos anos entre os dois países, Azinheiro passou a observar também as diferenças culturais que aparecem dentro do próprio mercado de arte.

Ele reconhece que está generalizando quando compara brasileiros e portugueses, mas identifica comportamentos distintos. Portugal, na visão dele, é mais marcado pela formalidade e pela saudade. O Brasil lhe parece mais espontâneo e aberto no primeiro contato.

“Às vezes, o irmão é mais mal-humorado e o outro mais engraçado ou mais divertido”, diz, sorrindo.

A metáfora do irmão talvez explique melhor a relação que ele tenta construir através da arte. Não se trata, segundo sua perspectiva, de apagar as diferenças entre os dois países, mas de reconhecer uma proximidade que já existe — e criar oportunidades para que ela se manifeste.

Mais de dez anos depois daquela primeira ArtRio, a ponte continua sendo construída. Entre Porto, Lisboa, São Paulo e Rio de Janeiro, Azinheiro trabalha para fazer a arte circular em duas direções. Algumas obras atravessam o Atlântico. Artistas fazem residências. Galerias colaboram. Colecionadores se encontram.

E, no meio desse movimento, permanece uma ideia simples: talvez a língua comum entre Brasil e Portugal possa ser também um ponto de partida para olhar a arte contemporânea sem tantas fronteiras.