A moda brasileira terá um representante exclusivo na CPLP Fashion Week 2026, um dos principais eventos de moda e cultura dos países lusófonos. O designer baiano Alexandre Fraga, fundador da marca autoral Alleropeu, será o único brasileiro presente na programação oficial do evento, que acontece entre os dias 22 e 25 de maio, em Lisboa e Estoril, reunindo nomes da moda de países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Radicado em Portugal desde 2022, Fraga desfila no dia 23 de maio, no Casino Estoril, levando para a passarela referências do Nordeste brasileiro, ancestralidade afro-brasileira e técnicas artesanais que se tornaram marcas registradas da Alleropeu. Em entrevista exclusiva à revista EntreRios, o estilista falou sobre imigração, os desafios de construir carreira fora do Brasil, a chegada da marca à New York Fashion Week e a expectativa para a CPLP Fashion Week 2026.

 

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EntreRios: Me conte um pouco da sua história e da sua relação com a moda. Quando começou?

Alex Fraga: Minha relação com a moda começou muito antes da criação da Alleropeu. Cresci em Salvador, na Bahia, em uma realidade simples, cercado por referências populares, culturais e humanas muito fortes. Sempre tive ligação com arte, teatro, dança e expressão visual, principalmente por meio de projetos em comunidades e escolas públicas.

A moda surgiu inicialmente como uma forma de linguagem e identidade. O que começou como interesse criativo acabou se transformando na necessidade de construir narrativas por meio das peças. Sempre me interessei por volumes, estruturas, materiais artesanais e pela capacidade que a roupa tem de comunicar força, memória e pertencimento.

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A Alleropeu começou a ganhar forma mais concreta após minha mudança para Portugal, em 2022. Em 2024, realizei o primeiro desfile da marca em Setúbal, marcando o início público da trajetória da Alleropeu. Desde então, a marca passou a desenvolver um trabalho autoral que conecta referências do Nordeste brasileiro, ancestralidade afro-brasileira, arquitetura popular e técnicas manuais a uma linguagem contemporânea e conceitual.

Em 2025, a marca chegou à New York Fashion Week.

EntreRios: Quando tomou a decisão de sair do Brasil e viver em Portugal, foi mais um plano estruturado ou um salto no escuro? Há quanto tempo está aqui e em que cidade vive?

Alex Fraga: Foi muito mais um salto no escuro do que um plano totalmente estruturado. Vim para Portugal em 2022 buscando recomeçar e abrir novos caminhos, tanto pessoais quanto profissionais. Como acontece com muitos imigrantes, precisei reconstruir praticamente tudo do zero e me adaptar a uma realidade completamente diferente da que eu vivia em Salvador.

Também existia uma necessidade muito forte de testar meus próprios limites e capacidades. Acho que sair do Brasil foi uma forma de me desafiar como criador e como pessoa.

Hoje vivo na região de Almada, próxima de Lisboa, e foi em Portugal que a Alleropeu começou a ganhar projeção pública e internacional.

EntreRios: O que mais te surpreendeu quando começou a trabalhar com moda em Portugal, tanto no lado positivo quanto nas dificuldades?

Alex Fraga na Setúbal Fashion Show 2024. Crédito: Divulgação

Alex Fraga: No lado positivo, encontrei uma proximidade muito grande com diferentes culturas, especialmente dentro da comunidade lusófona. Isso abriu espaço para apresentar referências do Nordeste brasileiro, da ancestralidade afro-brasileira e da construção artesanal da Alleropeu para pessoas de vários países. Portugal acabou funcionando como uma ponte entre o Brasil e o cenário internacional.

Também me surpreendeu a receptividade do público em relação ao trabalho manual e conceitual. Muitas pessoas se conectam emocionalmente com as histórias por trás das peças e com as referências culturais que levo para os desfiles.

Na parte difícil, acredito que o maior desafio tenha sido começar praticamente do zero em outro país, sem uma estrutura consolidada.

Como imigrante e designer brasileiro, também precisei aprender a encontrar meu espaço sem perder minha identidade. Hoje entendo que justamente essa identidade acabou se tornando uma das maiores forças da marca.

EntreRios: Em 2024, você realizou o primeiro desfile da Alleropeu em Setúbal. O que passou pela sua cabeça naquele momento em que a marca “ganhou vida” fora do Brasil? A marca já existia no Brasil?

Alex Fraga: A Alleropeu já existia de forma muito íntima no Brasil, quase como um universo criativo que eu carregava comigo. Antes mesmo da marca ganhar nome, eu já criava roupas para espetáculos teatrais e projetos ligados à dança e à performance, algo que influenciou diretamente minha forma de pensar moda.

Mas foi em Portugal, no desfile de Setúbal, que senti que a marca realmente ganhou corpo e presença pública.

Desfile da Alleropeu na Setúbal Fashion Show 2024. Crédito: Divulgação

Naquele momento, muita coisa passou pela minha cabeça. Existia o peso emocional de ser um imigrante tentando reconstruir a vida em outro país, mas também uma sensação muito forte de resistência e confirmação pessoal. Ver aquelas peças na passarela e perceber que a mensagem estava chegando às pessoas foi muito marcante.

Também pensei muito na minha origem. Em como um menino vindo de São Cristóvão, em Salvador, criado por uma mãe solo, estava conseguindo levar referências do Nordeste brasileiro para uma passarela em Portugal.

EntreRios: E como surgiu a oportunidade de participar da New York Fashion Week?

Alex Fraga: A oportunidade surgiu de uma forma muito simbólica para mim. Durante o desfile da Alleropeu em Setúbal, em 2024, conheci pessoas e marcas que estavam presentes no evento, entre elas a Empório Aragão.

Depois daquele contato inicial, no dia 1 de janeiro de 2025, recebi o convite para integrar o projeto em Nova York. A proposta era desfilar em um evento realizado em um navio de luxo, nas águas de Manhattan.

Alleropeu na New York Fashion Week 2025. Crédito: Divulgação

Claro que também existiram medo e insegurança. Fiquei bastante preocupado com a questão do visto americano, principalmente por estar vivendo em Portugal. Mas consegui o visto e pude viver esse momento tão importante para a trajetória da Alleropeu.

Nova York representou mais do que um desfile. Representou a confirmação de que um trabalho construído de forma independente, carregando referências da Bahia e da manualidade brasileira, podia alcançar espaços internacionais sem perder sua identidade.

EntreRios: Pode adiantar um pouco do que o público verá na CPLP Fashion Show 2026?

Alex Fraga: A coleção está sendo desenvolvida junto com Sara Andrade, também de São Cristóvão, em Salvador. Na CPLP, o público encontrará estruturas arquitetônicas, crochê, muito macramê desenvolvido com cordas navais, além de peças que transitam entre memória, artesanato e futurismo.

A coleção percorre referências das marisqueiras, das rendeiras, das estruturas urbanas e históricas de Salvador, além de elementos inspirados nas marcas simbólicas da Guerra de Canudos.

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EntreRios: As suas roupas estão à venda? Onde as pessoas podem adquiri-las?

Alex Fraga: Sim, as peças da Alleropeu já estão disponíveis para venda, tanto por encomenda quanto em lançamentos e coleções selecionadas da marca.

Grande parte do trabalho funciona de forma muito autoral e artesanal, então muitas peças acabam sendo desenvolvidas de maneira exclusiva ou em edições limitadas.

Alex Fraga na New York Fashion Week 2025. Crédito: Divulgação

As pessoas podem acompanhar e adquirir as peças principalmente pelo Instagram da marca e também pelo site oficial da Alleropeu, onde estamos expandindo cada vez mais essa presença internacional.

EntreRios: Após conquistar espaço em Portugal e nos Estados Unidos, qual é o próximo “rio” que a Alleropeu pretende navegar? Como você projeta a marca para os próximos cinco anos dentro do mercado global de luxo e design autoral?

Alex Fraga: O próximo “rio” já confirmado para a Alleropeu é Roma, em uma participação muito especial que deve consolidar a marca em uma nova vertente de trabalho e ampliar ainda mais esse percurso internacional. Ao mesmo tempo, existe uma ligação muito forte com a Bahia. Sinto que preciso estar mais presente nesse território, porque grande parte da minha identidade criativa nasce dali.

Um dos meus maiores sonhos é participar do Afro Fashion Day, que considero um dos eventos mais importantes da moda negra brasileira. Também quero passar pelas grandes semanas de moda do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, além de retornar aos Estados Unidos para novos projetos.

fernanda@revistaentrerios.pt