O Consulado do Brasil em Lisboa enfrenta uma defasagem no número de funcionários diante do aumento da demanda por serviços. Atualmente, pouco mais de 40 pessoas trabalham no órgão, entre diplomatas, oficiais e assistentes de chancelaria do Itamaraty e funcionários locais, como assessores e consultores jurídicos e psicológicos. Segundo o cônsul-geral Alessandro Candeas, em entrevista exclusiva à EntreRios, o número é menor do que há dois anos, em razão de cortes na equipe.
“Desde que cheguei aqui, houve um crescimento de 300% no número de emissões de passaportes. São 1,5 mil ao mês, às vezes 90 por dia. É algo muito intenso que exige recursos materiais e humanos”, relata.
Apenas no primeiro semestre de 2026, foram mais de 50 mil solicitações, um aumento de 17% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, foram respondidos mais de 20 mil e-mails e realizados 1.824 atendimentos no Setor de Assistência a Brasileiros, que oferece orientações jurídicas e psicológicas em casos de violência doméstica e situações de vulnerabilidade. A expectativa é superar 100 mil solicitações até o fim do ano, ante 85 mil em 2025.
O cenário ocorre em meio às limitações de recursos e aos cortes de verbas enfrentados pelo Itamaraty, enquanto crescem os pedidos por passaportes nos consulados brasileiros pelo mundo. Funcionários também reclamam da falta de reajustes salariais e cogitam realizar greves.
Impressão de passaportes no Brasil libera equipe para outros atendimentos
O Consulado tem feito ajustes nos horários e nas escalas da equipe. Uma das iniciativas que ajudaram no processo foi a transferência da impressão dos passaportes para a Casa da Moeda no Brasil. A medida já foi adotada em diferentes países, especialmente em Portugal e nos Estados Unidos.

Passaporte brasileiro está sendo impresso pela Casa da Moeda do Brasil. Crédito: Freepik
“O Consulado é um pouco como uma gráfica, o que exige recursos humanos. Com a produção feita no Brasil, esses funcionários estão sendo realocados para ampliar o atendimento e realizar ações de validação, por exemplo. Antes, os serviços relacionados aos passaportes eram normalmente concentrados no turno da manhã, e estamos abrindo também o período da tarde”, explica.
Leia também
Consulados em Portugal passarão a imprimir a maior parte dos passaportes na casa da Moeda, no Brasil
Na prática, o processo continua sendo realizado pela representação, que recebe, checa e analisa os registros antes de encaminhá-los à Casa da Moeda. Depois, os passaportes são enviados por mala diplomática. Para o cônsul, a mudança não deve aumentar o prazo de entrega.
“Grandes consulados como Lisboa, Boston, Nova York, Madri e Miami levam de 30 a 60 dias. A demanda é grande e os recursos são limitados. Já o envio por mala diplomática do Brasil deve ser de até duas semanas. No final das contas, o prazo deve continuar semelhante”, ressalta.
O órgão também tem investido em tecnologias como chatbots (assistentes virtuais), que podem tirar dúvidas e oferecer orientações imediatas. Uma das ferramentas será utilizada durante as eleições de 2026.
Leia também
Onde votar nas eleições brasileiras em Portugal? Veja como consultar o local e a seção
A orientação é conferir os documentos necessários antes de enviar os pedidos, evitando correções ou novas validações que podem atrasar o processo.
Outro ponto de atenção é não deixar a renovação do passaporte para a última hora. “É importante verificar a data de validade para que ela não seja menor do que seis meses. O planejamento é bom para você, para sua família, e ajuda a melhorar nosso trabalho”, orienta.
Mesmo com saída de brasileiros, procura pelo Consulado segue em alta
O cônsul-geral também afirmou perceber um movimento de brasileiros que deixam Portugal, seja em direção ao Brasil ou a outros países, como a Espanha. Ainda não há dados oficiais consolidados sobre esse fluxo.
Um dos indicadores desse movimento é o número de pedidos de certidões e de Autorizações de Retorno ao Brasil (ARBs). Na avaliação de Candeas, as dificuldades relacionadas às políticas imigratórias em Portugal, o maior custo de vida e novas oportunidades de retorno ao país contribuem para o fenômeno.
Leia também
Brasileiros deixam Portugal com destino à Espanha e ao Brasil em busca de melhores condições de vida e cenário mais favorável à imigração
Apesar disso, ele ressalta que não houve diminuição da população brasileira. “Você tem as duas curvas: cresce a comunidade aqui (ainda que em ritmo menor do que antes) e aumenta também a saída, assim como a procura pelo Consulado. Não é um jogo de soma zero”, ressalta.
Entre os serviços mais demandados estão a assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente vítimas de violência doméstica, além de ações relacionadas a casos de xenofobia e racismo.
O Consulado tem realizado campanhas para conscientização desses temas, além de apoiar entidades como a Casa do Brasil em Lisboa. “Há também uma interlocução com as instâncias portuguesas para manifestar nossa preocupação. Mas é importante que isso chegue às ruas, à interação com as comunidades”, frisa.

O cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, no dia da apresentação do Concurso Amigos e Amigas do Brasil. Crédito: Carol Ribas
A campanha Amigos e Amigas do Brasil recebeu 108 trabalhos de 263 estudantes portugueses, brasileiros e de outras nacionalidades, com o objetivo de combater a xenofobia e valorizar a integração e a multiculturalidade.
“Fiquei muito feliz com o resultado. Mostra que há potencial de correção da xenofobia e do racismo dentro das escolas quando você trabalha com a cultura. Conversei com alunos, professores e diretores e o impacto foi muito positivo”, celebrou.
Leia também
Consulado do Brasil em Portugal premia trabalhos contra xenofobia; confira os vencedores
Candeas afirma que há discursos que levantam suspeitas sobre a comunidade brasileira, mas não existem dados ou estatísticas que comprovem essas alegações. Ele ressalta que os integrantes da comunidade não vivem de subsídios, pagam seus impostos e contribuem para a Segurança Social.
“São integrados culturalmente, falam a mesma língua. A presença deles aqui é importante em vários níveis: temos muitos empreendedores, investidores, pesquisadores, trabalhadores na indústria e na cultura. O brasileiro traz esse tempero e essa alegria para Portugal”, finaliza.
renan@revistaentrerios.pt

Renan Araújo