O Brasil vive mais um processo eleitoral, com o eleitor nas cordas ou na lona, exausto e atordoado com a polarização que leva direita e esquerda a uma guerra, na melhor das hipóteses, de nervos. Paralelamente ao duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro, um time de ex-atletas passou os últimos meses atrás de votos, gastando nas ruas todo o fôlego e o condicionamento físico de anos e anos de uma vida dedicada a treinos e hábitos saudáveis. Tem também ex-treinador na disputa eleitoral, e até ex-dirigente. Encerrada a carreira esportiva, a porta da política tem se aberto como uma opção de futuro mesmo a quem nunca pareceu politizado o suficiente para sonhar encarar um paletó, uma tribuna, mil votações e canetadas.
São muitos os que passaram a enxergar, após a aposentadoria, a urna de uma eleição como o ponto de partida para uma nova trajetória. Romário, na vida pública desde 2011, quando começou essa jornada como deputado federal, tornou-se senador da República em 2015. O ex-craque, tetracampeão com a seleção brasileira na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, está em seu segundo mandato, com validade até 2031. Quem poderia imaginar, há 32 anos atrás, que o Baixinho, destaque no mundo do futebol, associaria um dia sua imagem de atleta à política? Ninguém. Nem mesmo ele. E, pelo visto, gostou.
O risco de um eventual mandato desastroso desconstruir a imagem de atleta vitorioso e de boa índole é real, mas quem descamba para a política leva, dos tempos esportivos, apenas a vontade de competir e vencer. É mais um jogo, de um novo campeonato. Afinal, faz parte da personalidade de quem obteve sucesso no esporte a autossuficiência. O craque cresceu e se aposentou mantendo o ego inflado por torcedores, fãs, dirigentes, imprensa, medalhas e troféus conquistados. E tem mais: quem troca o vestiário pela política normalmente tem disciplina e liderança, além do nome reconhecido.
A identificação emocional do torcedor com o ídolo mais uma vez viabilizou, na campanha eleitoral deste ano, a exploração da paixão. Ou seja: o processo de transferência da popularidade para a política confunde a torcida com o eleitorado. É como se o fã depositasse seu voto na urna em retribuição ao dirigente que organizou as finanças do clube, ou ao treinador que montou um time competitivo, ou ao jogador que fez um gol de placa.
No fim, nada tem a ver com nada. Mas só resta torcer pra dar certo.

Marluci Martins