A escritora brasileira Conceição Evaristo foi a autora escolhida para inaugurar a Biblioteca Manifesto ou Manifesto Library, projeto permanente idealizado pela cantora Dua Lipa em parceria com a Livraria Lello, no Porto, em Portugal. A obra Olhos d’Água, publicada em 2014, tornou-se o primeiro título disponibilizado ao público no novo espaço, dedicado a livros que desafiam a censura, confrontam estruturas de poder e dão visibilidade a vozes historicamente silenciadas.

O projeto foi inaugurado no sábado (27), durante o festival literário Babell, marcando a primeira iniciativa física permanente do Service95 Book Club, clube de leitura criado por Dua Lipa em 2023. A Biblioteca Manifesto reúne 100 títulos considerados fundamentais para compreender questões contemporâneas relacionadas à liberdade de expressão, memória, identidade, raça, gênero e poder.

Ao comentar a escolha de sua obra para abrir a coleção, Conceição Evaristo destacou a importância simbólica da iniciativa. “Junto à recepção calorosa que recebi na Livraria Lello, na cidade do Porto, em Portugal, tive a grata surpresa de saber que o livro ‘Olhos d’Água’, de minha autoria, foi escolhido como a primeira obra a ocupar as prateleiras da Manifesto Library”, afirmou a escritora em publicação nas redes sociais.

 

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Ela acrescentou que a biblioteca permanente, desenvolvida em parceria entre a Livraria Lello e o Service95 Book Club, disponibilizará ao público 100 obras que revelam “vozes silenciadas e histórias esquecidas”, “preenchendo lapsos, vazios da história e da literatura”.

Composto por 15 contos protagonizados, em sua maioria, por mulheres negras, Olhos d’Água aborda temas como pobreza, violência urbana, racismo, desigualdade social, relações de gênero e exclusão. As narrativas apresentam personagens que, ao longo da história, tiveram suas experiências frequentemente invisibilizadas, característica que dialoga diretamente com a proposta da Biblioteca Manifesto.

Livro Olhos d’Água da escritora Conceição Evaristo. Crédito: Fernanda Baldioti

Nascida em Belo Horizonte, em 1946, Conceição Evaristo construiu uma trajetória que une produção literária, pesquisa acadêmica e militância em defesa da valorização da cultura negra. Graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), a autora consolidou-se como uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea e da luta antirracista.

Laurentino Gomes. Crédito: Divulgação Leia também Em novo livro, Laurentino Gomes revisita a era do ouro e revela como a escravidão transformou Portugal e Brasil

Instalada no novo auditório cultural da Livraria Lello, a Biblioteca Manifesto foi concebida para funcionar como um espaço permanente de leitura, reflexão e debate. O acervo reúne cerca de cinco mil exemplares distribuídos entre cem títulos organizados em quatro grandes eixos temáticos: Poder, Controle, Voz e Memória.

 

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Na categoria Poder, estão reunidas obras que questionam quem exerce autoridade sobre a sociedade e quem tem o direito de contar determinadas histórias. Já Controle reúne livros que discutem mecanismos de vigilância, propaganda, influência tecnológica e formas de controle ideológico.

O eixo Voz privilegia autores e personagens historicamente marginalizados, abordando temas como raça, identidade, gênero, pertencimento e diversidade. Já Memória contempla obras que preservam relatos sobre guerras, ditaduras, exílios e traumas coletivos, funcionando como instrumentos de resistência ao apagamento histórico.

Segundo Dua Lipa, a iniciativa nasceu do desejo de transformar seu clube de leitura em um espaço permanente de encontro entre escritores e leitores.

“A Biblioteca Manifesto é uma parceria dos sonhos entre a Livraria Lello e o Service95 Book Club. Quando fundei o Service95 Book Club, minha ambição era criar um lar para escritores e leitores, onde quer que estivessem e independentemente de suas circunstâncias.”

A cantora afirma que o novo espaço presta homenagem aos livros e autores que enfrentaram perseguições ao longo da história.

“Esta biblioteca é um santuário dedicado aos livros que desapareceram, aos autores cuja coragem desmascara as estruturas de poder e controle e aos leitores que se recusam a aceitar que alguém lhes diga quais livros podem ler. Você está convidado a nos visitar e decidir por si mesmo o que deve estar nestas prateleiras.”

Em outro momento, Dua Lipa reforça que a leitura continua sendo um ato de resistência. “Às vezes, a atitude mais subversiva que alguém pode ter é ler um livro e, depois, conversar sobre ele.”

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A proposta da Biblioteca Manifesto surge em um contexto de aumento das restrições à circulação de livros em diferentes partes do mundo. Segundo a Livraria Lello, somente em 2023 foram registrados 4.240 casos de censura a livros em distritos escolares e bibliotecas públicas dos Estados Unidos. Em 2024, escritores foram presos ou detidos em mais de 40 países por causa de textos publicados ou declarações públicas.

A seleção da Biblioteca Manifesto reúne obras que, em diferentes épocas, foram proibidas, censuradas ou alvo de contestação pública. Outras continuam despertando debates sobre liberdade de expressão, identidade, raça, memória e poder político. A proposta, segundo os organizadores, não é criar um arquivo da censura, mas reafirmar o papel da literatura como instrumento de liberdade intelectual, pensamento crítico e preservação da memória coletiva.

fernanda@revistaentrerios.pt