Quando a instrutora Elena Pantera viu uma propaganda com trechos de capoeira na televisão grega, em 2004, sua reação foi de incredulidade. “Olha o que eles fazem, nunca vou fazer”, pensou. Anos depois, aquela manifestação cultural que parecia tão distante se tornaria parte central de sua vida. Hoje, quase duas décadas depois da primeira aula, a grega ensina a modalidade em Atenas ao lado do marido, o professor baiano Diego Caixote, e participa de iniciativas que aproximam os gregos da cultura brasileira.

Professor Diego Caixote e instrutora Elena Pantera, em Atenas. Crédito: Flávio Oliveira
A história dos dois se cruza com a própria trajetória da capoeira no país. Embora a prática já estivesse presente na Grécia quando Caixote chegou, em 2021, ainda havia pessoas que nunca tinham tido contato com ela. Para o mestre baiano, um dos desafios era justamente ampliar esse alcance.
“Nosso trabalho aqui é de fortalecer, melhorar o nível da capoeira e divulgar”, afirma ele. Caixote começou a praticar ainda criança, levado pelo irmão para uma roda em Salvador. A atividade acabou se tornando profissão e abriu caminhos que ultrapassaram a prática esportiva. Foi por meio dela que conheceu outros países, pessoas de diferentes culturas e chegou à universidade, além de aprender uma nova língua.

Diego Caixote, em oficina de berimbau. Crédito: Reprodução/Instagram
Quando decidiu se mudar para a Grécia, não deixou a atividade para trás. A mudança, porém, significou recomeçar um trabalho que já estava estruturado na Bahia. Antes de ir para a Europa, Caixote mantinha atividades em escolas, projetos sociais e outros espaços em Salvador, além de viajar para ministrar aulas.
“Vim para a Grécia através da minha esposa. Ela foi passar um período da pandemia comigo lá em Salvador e a gente tomou a decisão de vir morar aqui”, conta.
Mas a mudança significava mais do que mera distância geográfica: Caixote tinha que, literalmente, falar grego. “Foi um desafio pela língua, pelo período da pandemia e pela diferente cultura”, lembra.
A relação com os gregos, no entanto, foi uma das partes mais fáceis da adaptação. Para o baiano, há uma proximidade de comportamento entre os dois povos, especialmente com os baianos. “O grego é de ajudar as pessoas, gosta de festa, tem uma energia muito mais próxima do brasileiro”, diz.
Uma grega na Bahia
Antes mesmo de conhecer Caixote, Elena já havia começado a construir sua relação com o Brasil por meio da capoeira, já que alguns amigos a convidaram para conhecer a prática no fim dos anos 2000. Ela demorou cerca de dois anos para aceitar o convite, mas, quando finalmente entrou em uma aula, não saiu mais.

Instrutora Elena Pantera. Crédito: Reprodução/Instagram
“Tinha música, instrumentos e movimentações que nunca fiz com meu corpo”, conta ela sobre a primeira aula. O contato inicial com o Brasil, entretanto, era limitado: conhecia principalmente a imagem difundida do país associada ao esporte, à dança e ao samba, mas modalidade abriu uma porta diferente.
“Era sempre aquela chamada para ir ao Brasil, ir à escola, conhecer pessoalmente o mestre Camisa, nosso fundador da Abadá Capoeira. Era um sonho”, afirma.
As viagens se tornaram frequentes. Elena participou de encontros, competições e atividades ligadas à modalidade e conheceu diferentes regiões do país. Até chegar à Bahia, onde a prática se misturaria definitivamente à sua vida pessoal.
Em uma viagem a Salvador, acompanhada de amigas, conheceu Caixote. Ele foi buscá-las no aeroporto e, a partir daquele encontro, a relação dos dois se desenvolveu. Elena chegou a morar quase um ano na Bahia, período que coincidiu com a pandemia. “Foi a melhor decisão da minha vida”, afirma.
Lá, conheceu espaços ligados à história da capoeira e passou a ter uma relação mais próxima com a cultura que, até então, conhecia principalmente através da prática. A temporada também aprofundou sua relação com a língua portuguesa.
Português aprendido na roda
O idioma entrou na vida de Elena por uma necessidade. Para compreender as músicas cantadas durante as rodas, começou a traduzir as letras. Aos poucos, percebeu que entender as palavras era apenas o primeiro passo.
Ela buscou ajuda de professores, passou a estudar português e, depois, aprimorou a língua durante o período em que viveu na Bahia. Hoje, fala o idioma com desenvoltura e brinca que os anos de convivência com baianos também a ensinaram a falar “baianês”.

Batizado e troca de cordas da Abadá-Capoeira, realizado em maio de 2024, em Atenas, com a participação do mestrando Cascão Monteiro como convidado especial. Crédito: Reprodução/Instagram
A língua se tornou, inclusive, uma das ferramentas utilizadas pelo casal para apresentar o Brasil aos gregos. Um dos projetos desenvolvidos por eles foi o Let’s Talk About Brazil, realizado com apoio da Embaixada do Brasil em Atenas e do Instituto Guimarães Rosa.
Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, os participantes tiveram contato com português, capoeira, história, dança, samba, frevo, batuque e percussão. A iniciativa procurou alcançar também pessoas que não tinham qualquer relação anterior com a modalidade.
“Pensamos que podemos abrir esse projeto para pessoas fora da capoeira também, para conhecer a história e cultura do Brasil”, explica Elena. Segundo ela, há a possibilidade de uma segunda etapa em breve, inclusive com a continuidade dos participantes da primeira edição.
Da escola pública a um espaço próprio
O trabalho do casal também chegou às escolas públicas gregas: atualmente, a capoeira está presente como atividade complementar em três instituições, com planos de expansão. Além dos movimentos, jogos e instrumentos, a atividade é utilizada como ferramenta pedagógica.
“A capoeira é muito rica. Ela tem a corporalidade, ludicidade, musicalidade e, além da língua portuguesa, a gente conseguiu desenvolver um projeto de ensinar o português através da capoeira”, afirma Diego.
Em 2026, a trajetória ganhou outro capítulo com a abertura de um espaço físico próprio em Atenas. Batizado de Espaço Salvador, o local representa para Caixote a possibilidade de apresentar a modalidade sem dividi-la com outras atividades.
Até então, as aulas eram realizadas em locais destinados também a outras lutas e práticas. Agora, a intenção é que quem entre no endereço reconheça imediatamente a identidade da capoeira.

Espaço Salvador, em Atenas. Crédito: Reprodução/Instagram
“A ideia é que as pessoas entrem e vejam a capoeira, sintam a energia da capoeira, principalmente da Bahia, que é a minha terra”, diz.
O nome também funciona como uma ligação entre os dois lugares. Salvador é a cidade onde Caixote começou sua trajetória e onde mantém, desde 2008, o projeto Sítio da Capoeira, voltado ao atendimento gratuito de crianças.
O endereço de Atenas passou a fazer parte dessa mesma rede, inclusive por meio de intercâmbios, como o de 2024, em que alunos gregos viajaram para Salvador. Este ano, houve um movimento inverso, com integrantes do projeto baiano indo à Grécia. A intenção é manter a troca nos dois sentidos, permitindo que mais alunos gregos conheçam a Bahia e que brasileiros tenham a oportunidade de conhecer Atenas.
Para Elena, a capoeira acabou indo além do que meramente colocá-la em contato com uma manifestação cultural brasileira. A prática transformou sua relação com o mundo e, ao mesmo tempo, permitiu que ela se aproximasse de uma cultura que hoje também faz parte de sua identidade.
Para o casal, a prática se tornou uma forma de criar relações entre culturas e manter uma conexão entre Grécia e Bahia. O Espaço Salvador representa uma nova etapa dessa trajetória, mas não encerra um percurso que continua sendo construído.
“É um sonho que a gente está realizando, ainda está acontecendo”, resume Caixote.
Serviço
Espaço Salvador
Dimitrakopoulou, 22
Atenas 111 41, Grécia
Telefone: +30 694 677 8709
Instagram: @abada_capoeira_athens
flavio@revistaentrerios.pt

Flávio Oliveira