Ano de Copa do Mundo costuma seguir um roteiro conhecido no Brasil. A Seleção Brasileira entra em cena, o País volta a discutir escalações, surgem heróis improváveis e os ídolos do futebol retomam o centro das atenções. Mas em 2026 surgiu uma novidade atípica para um ano dominado pelo futebol. E às vésperas da bola rolar no Mundial na América do Norte, o personagem esportivo que tem despertado a atenção dos brasileiros não veste chuteiras, não joga em gramados e sequer depende de uma convocação para brilhar. Sua ferramenta de trabalho é uma raquete.
Aos 19 anos, João Fonseca caminha a golpes certeiros para se tornar o novo ídolo nacional. Não apenas pelos resultados que vem conquistando no circuito mundial, mas pela sensação de que estamos diante de um talento cap de mobilizar até quem normalmente não acompanha seu esporte. E isso independe do que acontecer nos próximos dias em Roland Garros, onde o jovem vem assombrando o mundo ao eliminar o gênio Novack Djokovic e o norueguês Casper Rudd, avançando às quartas de final do torneio francês, um dos quatro do chamado Grand Slam.
O fenômeno ganha ainda mais força porque surge justamente quando o maior ídolo esportivo brasileiro das últimas duas décadas se aproxima do fim de sua trajetória na Seleção. Neymar continua sendo um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, mas sua jornada caminha para o epílogo. Lesões, desgaste físico e a própria passagem do tempo transformaram o protagonista de tantas campanhas em um personagem cada vez mais próximo da despedida do que de um novo começo. Sua convocação para Copa ganhou ares de drama com a lesão da panturrilha confirmada na semana passada.
Enquanto Neymar se aproxima da saída, João Fonseca surge como novidade. Não se trata de uma simples troca de gerações. É quase uma mudança de cenário. O futebol sempre foi a principal fábrica de ídolos do País. Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Neymar formam uma sequência de ícones que atravessa décadas e ajuda a explicar a relação afetiva do brasileiro com o esporte. O tênis, por outro lado, raramente produziu figuras capazes de ultrapassar seu próprio universo. A grande exceção foi Gustavo Kuerten.
Por isso existe algo de simbólico na imagem de Guga em Paris, acompanhando de perto a campanha do jovem brasileiro em Roland Garros, torneio que venceu por três vezes, nos anos de 1997, 2000 e 2001. Não é apenas a presença de um ex-campeão nas arquibancadas. É o maior tenista da história do Brasil observando o garoto que pode sucedê-lo e com isso recolocar o País no topo do esporte. O tricampeão sabe exatamente o que significa carregar as expectativas de uma nação em uma quadra de tênis e o peso de ser o último ídolo do esporte no País.
A cena quase resume a coluna inteira. De um lado, Guga, a memória afetiva de uma geração que descobriu o esporte das raquetes. Do outro, João Fonseca, a novidade que começa a apresentar esse universo a um público que talvez nunca tenha acompanhado uma partida de tênis inteira.
Talvez seja cedo para comparações. Pode ser precipitado falar em sucessão de qualquer legado. Mas há sinais que não podem ser ignorados. Em um País acostumado a buscar seus heróis nos gramados, um garoto de 19 anos está conseguindo deslocar olhares para uma quadra. E isso, por si só, já é um acontecimento. Está nascendo um novo ídolo. E, desta vez, ele não vem do futebol.