Quem visita Évora, no Alentejo, quase sempre começa pelo mesmo lugar. No ponto mais alto do centro histórico, as colunas do Templo Romano concentram câmaras fotográficas, grupos de visitantes e uma fila constante de quem procura um dos monumentos mais conhecidos de Portugal. Durante décadas, foi ele quem resumiu a presença do Império Romano no local. Mas basta afastar-se alguns metros para perceber que a antiga Ebora, nome original da cidade, não termina ali.

Parte das termas romanas permanece preservada sob o edifício da Câmara Municipal. Um troço da muralha do século II continua incorporado ao tecido urbano. A atual Rua 5 de Outubro segue o traçado da antiga Decumana, principal eixo comercial da cidade romana. Estudos arqueológicos também identificaram vestígios do antigo aqueduto romano sob parte do Aqueduto da Água de Prata, construído no século XVI. Espalhados pelo centro histórico, esses lugares ajudam a contar uma história menos conhecida e mostram que a presença de Roma continua integrada ao cotidiano de Évora.

O interesse por esse patrimônio acompanha o crescimento do turismo na cidade. Em 2025, Évora registou 738.673 dormidas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), consolidando-se como o principal destino turístico do Alentejo. A Espanha continua a liderar entre os mercados emissores de visitantes, seguida por Estados Unidos, França e Alemanha, todos com crescimento expressivo nos últimos anos.

O crescimento do turismo local tem sido acompanhado por uma presença cada vez maior de visitantes brasileiros. Em 2025, 3.321 visitaram a cidade, tornando o Brasil a oitava principal origem entre os turistas internacionais.

O número representa um aumento de 76% em relação a 2024, quando recebeu 1.884 visitantes brasileiros, segundo dados do Município de Évora.

O avanço coloca o Brasil entre os mercados internacionais que vêm ganhando espaço no turismo eborense, em um movimento que amplia o público interessado não apenas pelos monumentos mais conhecidos, mas também pela história e pelo patrimônio que permanecem espalhados pela cidade.

Há cinco anos, o historiador Paulo Galego percorre esse cenário quase diariamente. Licenciado em História, conduz visitas guiadas por Évora e outras cidades alentejanas, como Elvas, Vila Viçosa e Monsaraz, sempre com um olhar voltado para o patrimônio. 

O historiador Paulo Galego conduz visitantes pela Évora romana. Crédito: Renato Velasco

Curiosamente, o roteiro que propõe aos grupos não começa diante do templo. “O melhor sítio para começar a perceber a cidade romana de Évora é junto ao Palácio Dom Manuel”, resume. À primeira vista, a escolha parece contraditória. Construído no século XVI, o edifício pertence a um período muito posterior ao domínio romano. Mas é justamente ali que Galego apresenta uma reconstrução digital da antiga Ebora e ajuda o visitante a compreender como a cidade foi crescendo sobre o mesmo território ao longo dos séculos.

A caminhada, então, passa a revelar uma cidade que normalmente escapa aos roteiros mais rápidos. Entre uma parada e outra, Galego prefere conduzir a visita por perguntas. “Quando nós nascemos há duas coisas certas”, diz ao grupo. Depois de uma breve pausa, completa: “Vamos morrer… e pagar impostos”, arremata.

É junto ao Palácio de D. Manuel que Paulo Galego começa o roteiro pela Évora romana, usando uma reconstrução digital para mostrar como a antiga Ebora se transformou ao longo dos séculos. Crédito: Renato Velasco

A brincadeira introduz uma explicação sobre a organização urbana da antiga Ebora. Como outras cidades romanas, ela era estruturada a partir de dois grandes eixos. O Cardo, orientado no sentido norte-sul, e a Decumana, que ligava o leste ao oeste. Esta última correspondia à principal rua comercial da cidade e, hoje, acompanha o percurso da Rua 5 de Outubro.

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Galego conta que era pela Decumana que artesãos e comerciantes deixavam a cidade todas as manhãs para vender seus produtos. Na saída e no regresso, passavam por postos responsáveis pela cobrança de impostos. São episódios como esse ajudam a compreender a importância de Ebora durante o domínio romano.

Embora não figurasse entre os principais centros administrativos da Lusitânia, província romana que abrangia grande parte do atual território português e parte do oeste da Espanha, ocupava uma posição estratégica entre Olisipo, atual Lisboa, e Emerita Augusta, hoje Mérida, na Espanha. Controlava um território agrícola rico e tornou-se um município romano com estatuto próprio, identificado nas inscrições da época como Ebora Liberalitas Julia.

Para o arqueólogo e historiador André Carneiro, professor da Universidade de Évora, essa relevância nem sempre é percebida pela quantidade de monumentos preservados.

“Do ponto de vista arqueológico, temos o templo, que está à vista de toda a gente. Depois há uma parte das termas no edifício da Câmara Municipal e um troço da muralha romana na Rua de Burgos”.

A afirmação resumida pode soar surpreendente para quem associa Évora à principal cidade romana de Portugal. A explicação está justamente na forma como a cidade evoluiu.

“Foi-se acrescentando uma espécie de bolo com várias camadas”.

Segundo Carneiro, Évora não foi reconhecida como Patrimônio Mundial da Unesco por representar um único período histórico, mas pela convivência entre diferentes épocas. Em vez de substituir completamente as construções anteriores, cada geração acrescentou uma nova camada urbana sobre a existente.

A romana permaneceu como fundamento material e simbólico da cidade, influenciando não apenas o traçado das ruas, mas também a forma como Évora passou a olhar para a própria história.

É essa permanência que também molda a relação dos moradores com o patrimônio. Nascida e criada em Évora, Célia Aleixo diz que viver cercada por tantos vestígios históricos sempre foi motivo de orgulho.

Ao mesmo tempo, acredita que o desafio não está apenas em preservar esse legado, mas em comunicá-lo melhor. Durante décadas, por exemplo, o principal monumento romano ficou conhecido como Templo de Diana, denominação hoje considerada incorreta pelos especialistas.

O olhar para além das colunas do templo transforma uma caminhada por Évora numa viagem pela antiga Ebora. Parte das respostas está escondida sob um edifício que milhares de pessoas atravessam diariamente.

No subsolo da Câmara Municipal, uma pequena área preserva o que restou das antigas termas romanas. É apenas uma fração do complexo original, mas suficiente para revelar o nível de sofisticação da engenharia romana.

Preservadas no subsolo do edifício da Câmara Municipal, as termas romanas revelam parte da estrutura de um dos principais espaços de sociabilidade da antiga Ebora. Crédito: Renato Velasco

“As termas eram um espaço muito importante nas cidades romanas. Eram um espaço de sociabilidade”, explica Carneiro.

Além dos banhos, as termas também funcionavam como espaços de convivência, com negócios, conversas, exercícios físicos e bibliotecas.

Era uma infraestrutura que dependia de outro elemento indispensável à cidade: a água. A poucos minutos dali, o Aqueduto da Água de Prata ajuda a contar outra parte dessa história.

Construído entre 1533 e 1537 por ordem de D. João III, ele pertence ao período moderno, mas estudos arqueológicos identificaram que os últimos quilômetros do seu percurso aproveitaram estruturas muito mais antigas, colocados por cima do aqueduto romano.

Ainda não se conhece toda a extensão da obra original, mas a descoberta confirma que soluções de engenharia desenvolvidas há cerca de dois mil anos continuaram a servir de referência séculos depois.

“Para os romanos, a água era essencial”, resume Paulo. Ela abastecia fontes públicas, casas, oficinas e as próprias termas, mas também exigia uma administração rigorosa.

Durante a visita, Galego explica que existia um responsável por controlar a distribuição da água para agricultores e outros utilizadores. Quem pretendesse utilizá-la pagava pelo serviço e o desvio clandestino era punido com multas.

Essa preocupação com o abastecimento integrava um sistema urbano muito mais amplo. Ao percorrer o centro histórico, o historiador chama atenção para um detalhe que costuma passar despercebido.

A atual Rua 5 de Outubro segue praticamente o mesmo traçado da antiga Decumana, principal eixo comercial da cidade romana. Com cerca de doze metros de largura, era por ali que circulavam mercadores, artesãos e viajantes.

Em contraste, o Cardo, eixo norte-sul, media aproximadamente metade dessa largura. A organização urbana obedecia a uma lógica rigorosa, repetida em diferentes cidades do Império.

Ao longo desse percurso também estavam concentradas oficinas de sapateiros, ferreiros, ourives e outros artesãos. Embora a atividade comercial tenha mudado completamente, a função da rua permanece semelhante.

Hoje, vitrinas de artesanato, cafés e pequenas lojas ocupam praticamente o mesmo eixo onde, há cerca de dois mil anos, circulavam comerciantes romanos.

Nem todos esses vestígios são imediatamente reconhecíveis. Na Rua de Burgos, um troço da muralha romana atravessa discretamente edifícios posteriores. O acesso acontece pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo e, por isso, permanece pouco conhecido entre os visitantes.

Outras estruturas aparecem incorporadas às próprias muralhas medievais. Ao longo da visita, Galego mostra torres romanas que continuaram a ser utilizadas durante os períodos visigótico, islâmico e cristão. Em alguns pontos, basta observar o corte das pedras para distinguir épocas diferentes convivendo na mesma construção.

Diferentes épocas da história convivem na mesma paisagem: vestígios romanos dividem espaço com marcas dos períodos visigótico, muçulmano e cristão, como camadas que o tempo não apagou. Crédito: Renato Velasco

Essa sobreposição ajuda a explicar por que Évora conserva relativamente poucos monumentos romanos isolados: a cidade nunca deixou de ser habitada. Por isso, muitos vestígios permanecem escondidos sob edifícios posteriores ou só aparecem quando obras de reabilitação obrigam à realização de escavações arqueológicas.

“Em Évora, o principal desafio não é preservar. É descobrir”, afirma Carneiro.

Segundo o arqueólogo, ainda há o que encontrar: “É muito provável que Évora tivesse um teatro romano e um anfiteatro. Nós simplesmente ainda não sabemos onde estão”.

Essa convivência entre uma cidade viva e um patrimônio ainda em descoberta faz parte da rotina dos próprios moradores. Pedro Mendes acompanha esse processo com interesse: “A todo o momento começam a aparecer novos vestígios”.

Na avaliação dele, muitos turistas concentram a visita apenas no centro histórico e acabam por ignorar outros sítios arqueológicos existentes na região. Ao mesmo tempo, reconhece que preservar esse legado exige conciliar investigação arqueológica e funcionamento da cidade.

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“Tem de haver um equilíbrio entre a evolução da cidade e a preservação dos vestígios históricos”. Enquanto novas descobertas continuam a surgir sob o solo eborense, outras permanecem diante dos olhos de quem percorre a cidade, muitas vezes sem serem percebidas.

É a convivência entre passado e presente que ajuda a explicar por que a antiga Ebora continua muito maior do que as colunas que a tornaram famosa. Crédito: Renato Velasco

Gastronomia romana

Ao longo do tempo, a cidade mudou de governantes, religiões e arquiteturas. Vieram visigodos, muçulmanos, reis portugueses e urbanistas renascentistas. Ainda assim, a antiga Ebora nunca deixou completamente de servir de base para a cidade que continuou a crescer sobre ela.

Para Carneiro, essa permanência não está apenas nas estruturas arqueológicas, mas também pode ser percebida na forma como a cidade preservou uma identidade profundamente mediterrânea.

“O Alentejo é um território essencialmente de três grandes produções: azeite, vinho e pão”, resume. Os três produtos já ocupavam um lugar central durante o período romano e continuam a definir parte da gastronomia regional.

Na Antiguidade, o azeite era utilizado para cozinhar, iluminar ambientes, cuidar da pele e até em rituais religiosos, enquanto o vinho fazia parte da alimentação cotidiana, dos banquetes e das celebrações. Já o pão era a base da dieta das populações.

“Hoje continuamos a cozinhar sobretudo com azeite. O vinho continua muito presente e o pão permanece essencial na nossa alimentação”, diz Carneiro. Ele ressalta que a cozinha alentejana mudou profundamente ao longo dos séculos — sobretudo após a chegada de ingredientes vindos das Américas, como o tomate e a batata —, mas a lógica mediterrânea construída ainda na época romana permanece facilmente reconhecível.

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Essa aproximação entre patrimônio e gastronomia também passou a fazer parte do seu trabalho como arqueólogo. Além das escavações e da investigação universitária, participa de projetos que procuram transformar conhecimento histórico em experiências para o público.

Um deles envolve a criação de conteúdos arqueológicos para um futuro empreendimento turístico em Évora, recorrendo a recursos digitais para mostrar aos visitantes como era a cidade romana. Outro nasceu junto à Villa Romana de Torre de Palma, onde colaborou na elaboração de um menu inspirado em ingredientes e sabores consumidos durante a Antiguidade.

A proposta procura aproximar o visitante de um patrimônio que nem sempre pode ser visto. É uma forma diferente de contar a mesma história.

Referência cultural

Segundo Carneiro, essa ligação com Roma permanece constantemente como referência cultural. Foi durante o Renascimento que intelectuais ligados à corte portuguesa passaram a recuperar deliberadamente referências da Antiguidade clássica, inspirando edifícios, instituições e a própria imagem da cidade.

“Évora volta sempre ao seu passado romano”, resume ele.

Para o arqueólogo, essa escolha ajuda a explicar por que a cidade parece, muitas vezes, mais romana do que o número de vestígios preservados faria supor. Entre os moradores, essa convivência com diferentes tempos históricos acontece de forma quase natural.

Célia acredita que preservar esse patrimônio significa, antes de tudo, respeitar aquilo que já existia.

“Os vestígios romanos, medievais ou de qualquer outra época têm de conviver lá. O resto de nós é que se deve adaptar ao já existente”.

O patrimônio histórico faz parte da vida cotidiana dos moradores, que convivem diariamente com vestígios de diferentes períodos da história da cidade. Crédito: Renato Velasco

Pedro também vê essa herança como parte da identidade eborense, embora admita que a convivência diária possa tornar alguns monumentos quase invisíveis para quem vive na cidade. Mesmo assim, diz acompanhar com entusiasmo cada nova descoberta arqueológica. Para ele, os vestígios que continuam a surgir demonstram que a história de Évora ainda está longe de ser totalmente conhecida.

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Talvez seja essa a principal diferença entre visitar uma cidade construída sobre ruínas e caminhar por uma cidade que nunca deixou de crescer sobre elas, afinal, em Évora, o legado romano não termina nas colunas do templo.

Ele continua no traçado das ruas, nas muralhas incorporadas à cidade, nas termas escondidas sob edifícios públicos, na engenharia que ainda orienta parte da paisagem urbana e, sobretudo, na forma como diferentes gerações escolheram olhar para esse passado.

O roteiro romano de Célia Aleixo

Para Célia, a melhor forma de conhecer Évora é entrar na cidade pelas antigas muralhas e deixar que o percurso revele, pouco a pouco, as diferentes camadas da sua história.

O caminho sugerido:

O percurso de Pedro Mendes

Pedro propõe um roteiro cronológico, começando antes mesmo da fundação da cidade romana.

O caminho sugerido:

flavio@revistaentrerios.pt

Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.

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