Nesta terça-feira (8), o Sítio da Nazaré, no alto da vila portuguesa famosa por suas ondas gigantes, será palco de um encontro que atravessa o Atlântico e leva consigo a memória, a música e a fé de Belém do Pará. Fafá de Belém se apresenta durante as tradicionais Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré e leva à vila portuguesa o Encontro das Nazarés, projeto criado para aproximar duas cidades separadas pelo Atlântico, mas unidas por uma mesma devoção. Para a cantora, porém, o encontro vai muito além de uma coincidência religiosa. É um encontro de afetos, histórias e formas diferentes de viver a fé.

“Essa fé que é inclusiva, essa fé que é feliz, essa fé que é um grande abraço, ela nasceu aqui. Debaixo do manto de Nossa Senhora de Nazaré, somos iguais”, afirma.

Quem já viveu o Círio de Nazaré em Belém sabe que há momentos que escapam às palavras. Fafá tenta explicar justamente essa experiência quase física, que transforma a cidade antes mesmo de a procissão ganhar as ruas. “O Círio não se consegue explicar. A frequência de amor, de perdão, de fraternidade, de esperança é tão forte que ela é quase palpável”, diz.

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Fafá de Belem. Crédito: Lucas Lima

Fafá de Belem com Larissa Larissa Ushizima do Sebare e Dora Batalha da Confraria de Nossa Senhora de Nazaré. Crédito: Lucas Lima

Segundo a artista, a atmosfera começa a se formar muito antes da grande procissão, alimentada pela expectativa dos reencontros e dos afetos que ficaram pelo caminho. “A partir do final de agosto, as pessoas já ficam felizes. E há uma expectativa de você encontrar um amigo com quem você não conseguiu fazer as pazes, uma pessoa que você não conseguiu dizer que amava, ou aquela pessoa que você deixou de encontrar e para quem você queria dar um abraço. Então, essa expectativa sempre muito amorosa vai se estabelecendo na cidade.”

É quando a procissão passa que, para Fafá, esse sentimento se torna impossível de controlar. Não importa onde o devoto esteja na rua, numa varanda, numa calçada ou na janela de um hotel.

“Quando chega a semana do Círio, isso é incontrolável. Quando a procissão caminha e passa na frente daquilo que você estiver, você pode estar na rua, você pode estar na varanda de um hotel, você pode estar numa calçada, não tem como não se emocionar. Não tem como você não ser tomado por um sentimento arrebatador, uma coisa que aqui dentro você não consegue dizer.”

Fafá de Belém. Crédito: Lucas Lima

Fafá de Belém se emociona durante o lançamento do projeto em Lisboa. Crédito: Lucas Lima

Ivete Sangalo. Crédito: Fernanda Baldioti Leia também Ivete Sangalo transforma Cascais em uma grande roda de samba

A cantora conta que viu essa mesma emoção atravessar as gerações dentro da própria família. “As minhas duas netas, em épocas diferentes, disseram exatamente a mesma coisa: ‘Avó, é uma coisa aqui dentro que dá uma vontade de chorar, mas não é ruim’. Eu vi isso na minha neta mais velha e na minha neta mais nova. E é o olhar da criança diante de uma coisa que ela não consegue explicar, mas que sente.”

É essa experiência amazônica da fé que Fafá agora atravessa o oceano para compartilhar com Nazaré. A artista, que chegou a Portugal pela primeira vez em 1978 e construiu ao longo de quase cinco décadas uma relação artística e afetiva profunda com o país, enxerga no projeto uma oportunidade de descobrir também a Nazaré portuguesa.

“É o Encontro das Nazarés. Porque toda essa solidariedade, esse amor, esse abraço, essa fé que é feliz, essa fé que é inclusiva, ela nasceu aqui. Apesar de ter algumas particularidades. A corda não tem aqui, tem lá. O manto tem em todos os lugares. Mas a filosofia nas duas Nazarés é um grande abraço, é uma grande ajuda. É olhar para o outro amorosa e afetuosamente”, explica ela que faz questão de destacar que não se trata de transformar uma tradição na outra.

Fafá de Belém. Crédito: Jordan Alves

Fafá de Belém, uma das grandes vozes da música brasileira, mantém uma relação de décadas com Portugal. Crédito: Jordan Alves

Para Fafá, essa conversa entre os dois territórios precisa ser conhecida pelos dois lados do Atlântico: “Acho que isso precisa ser falado, resgatado, para que o brasileiro descubra, para que o paraense descubra e para que o português descubra que lá também tem uma Nazaré. E que o brasileiro descubra que aqui também tem uma Nazaré, que é um poderoso canto de fé, uma força e uma fé tão abrangente, tão generosa.”

jordan@revistaentrerios.pt