Os trabalhadores estrangeiros deixaram um saldo líquido de 11,1 bilhões de euros na Segurança Social portuguesa entre 2015 e 2024, segundo dados reunidos em um novo painel digital de acesso gratuito lançado no Porto. A ferramenta foi desenvolvida por alunos do Centro de Formação Prepara Portugal e apresentada no último sábado (12), durante a segunda edição do Universo Prepara, encontro dedicado à qualificação profissional de imigrantes diante das mudanças no mercado de trabalho e do avanço da inteligência artificial.

O painel está disponível gratuitamente em preparaportugal.com/imigrantes e reúne informações de bases oficiais como Aima, Segurança Social, Gabinete de Estratégia e Planejamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (GEP/MTSSS), Eurostat e Pordata.

O valor resulta da diferença entre as contribuições feitas pelos imigrantes e as prestações sociais recebidas no período e, para dimensionar o montante, seria suficiente para pagar durante um ano a pensão média de velhice de cerca de 1,4 milhão de pessoas.

Quanto os imigrantes contribuíram

Os € 11,1 bilhões representam a diferença acumulada entre o dinheiro pago pelos trabalhadores estrangeiros à Segurança Social e o valor das prestações sociais recebidas pelos imigrantes ao longo dos dez anos analisados.

Para chegar a uma dimensão mais concreta do montante, o levantamento utiliza como referência a pensão média de velhice de € 676,95 por mês, registrada em outubro de 2025. Nesse valor, os € 11,1 bilhões seriam suficientes para financiar durante um ano as pensões médias de aproximadamente 1,4 milhão de pessoas.

A comparação serve apenas como referência, já que as contribuições para a Segurança Social financiam diferentes prestações e não ficam destinadas exclusivamente ao pagamento de aposentadorias.

“Ainda assim, os números mostram que já não é possível discutir a sustentabilidade da Segurança Social e o pagamento das reformas sem considerar o contributo dos trabalhadores imigrantes”, afirma Higor Cerqueira, fundador e diretor pedagógico do Prepara Portugal.

Outro dado destacado pelo levantamento é a evolução do número de estrangeiros que contribuem para o sistema. Entre 2015 e 2024, a quantidade de contribuintes estrangeiros aumentou 5,1 vezes, crescimento superior ao registrado pela população estrangeira residente no mesmo período.

Em todos os anos analisados pelo painel, as contribuições feitas pelos trabalhadores estrangeiros foram superiores às prestações sociais recebidas.

Onde estão os trabalhadores estrangeiros

Além do impacto financeiro na Segurança Social, o painel permite consultar a evolução da população estrangeira em Portugal, as nacionalidades mais representadas e os setores econômicos e regiões que concentram trabalhadores imigrantes.

Entre as atividades com maior presença de mão de obra estrangeira estão atividades administrativas e de apoio, alojamento e restauração e construção.

Em números absolutos, Lisboa e Porto concentram os maiores contingentes. Quando a análise considera o peso proporcional das contribuições de estrangeiros, porém, o cenário muda: distritos como Beja, Faro e Setúbal apresentam maior dependência relativa desse grupo de trabalhadores.

A proposta do painel é reunir em um único espaço informações que estavam distribuídas entre diferentes bases públicas.

“O trabalho permitiu também que os alunos aplicassem conhecimentos de tratamento e análise de dados a uma questão que está marcando a atualidade portuguesa”, explica Pedro Stob, formador responsável pelo levantamento realizado pelos alunos do curso de Análise de Dados e TI Aplicado à Gestão.

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Imigração no centro do debate

O lançamento ocorre em um momento em que a imigração ocupa novamente um espaço central no debate público português. Em 31 de agosto, o presidente da República, António José Seguro, promulgou o diploma que altera os regimes de entrada, permanência e afastamento de estrangeiros e as regras para concessão de asilo, depois de algumas das normas terem sido submetidas à fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional.

Para Cerqueira, a ferramenta pretende oferecer uma base de dados para uma discussão que muitas vezes é marcada por percepções e números apresentados isoladamente.

“A imigração é muitas vezes discutida a partir de perceções. Este painel ajuda a olhar para dados concretos, perceber onde os imigrantes estão a trabalhar e dimensionar o seu contributo para o país. Não elimina os desafios existentes, mas permite um debate mais informado”, afirma.

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Dez anos de Estude em Portugal

A segunda edição do Universo Prepara aconteceu no Auditório Francisco de Assis, no Porto, e reuniu especialistas ligados às áreas de tecnologia, emprego e empreendedorismo.

O evento também marcou o início das comemorações dos dez anos do Estude em Portugal, primeiro projeto criado por Cerqueira em Portugal e que posteriormente deu origem ao Centro de Formação Prepara Portugal.

Durante o encontro, foram apresentados novos projetos voltados à formação e à integração profissional de imigrantes. Um deles foi o protocolo firmado entre o Centro de Formação Prepara Portugal e a Universidade Politécnica de Bragança, que prevê a oferta de dois Cursos de Especialização Tecnológica: Marketing Digital e Tratamentos de Estética e Bem-Estar.

As formações são de nível 5 e permitirão aos diplomados candidatar-se ao ensino superior e solicitar a creditação da formação concluída. As primeiras turmas estão previstas para janeiro de 2027, com até 30 alunos em cada curso.

Cerqueira também fez o pré-lançamento do livro Quem Vê Close Não Vê Corre, no qual reúne episódios de sua trajetória pessoal e experiências relacionadas ao empreendedorismo imigrante.

Durante o evento, também foram anunciadas a próxima edição do Prêmio Estrela do Atlântico e a criação de um canal no YouTube dedicado aos bastidores dos projetos desenvolvidos pelo fundador do Prepara Portugal.

flavio@revistaentrerios.pt