O Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, afirmou, nessa quarta-feira (25), em apresentação do boletim econômico de março de 2026, que “os trabalhadores estrangeiros estão em Portugal para trabalhar e estão a fazer trabalho em várias atividades, independentemente da nacionalidade”. Segundo ele, em 90% dos seus tempos de permanência “estão a fazer isso”.
Ele afirmou que “talvez valha a pena ter uma política ativa de imigração, tentar identificar os setores em que há mais necessidades e tentar atrair pessoas nesses setores. Também é importante, como noutros países, tentar atrair mais imigrantes com licenciatura, mestrado, doutoramento“, afirmou.
O boletim econômico do Banco de Portugal apontou que, entre 2010 e 2024, foram registrados 1,4 milhões de entradas de imigrantes no país, sendo 1,2 milhões desde 2018.
Em 2025, cerca de 1,13 milhões de estrangeiros estavam registrados na Segurança Social, sendo 66,25% trabalhadores por conta de outrem. Em 2010, eram apenas 152 mil estrangeiros, o que representa um aumento de 644,73% em 15 anos. Os dados mostram que houve um aumento significativo especialmente a partir de 2022.
Entre 2010 e 2024, 38% dos imigrantes que chegaram a Portugal são brasileiros, seguido pelos países do Sul da Ásia (Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão), com 19% e dos países africanos de língua portuguesa (PALOP), com 14%, empatados com os cidadãos britânicos e da União Europeia, com 14%. A chegada de brasileiros teve um grande crescimento, passando das 100 mil, em 2022 e 2023, mas apresentando uma queda em 2024.
Já entre os setores de atividade, cerca de 20% dos trabalhadores ingressaram em empresas das atividades administrativas e dos serviços de apoio, 18% no alojamento e restauração, 15% na agricultura e pesca e 14% na construção. O comércio representou 10% e a indústria 7%.
O estudo ainda realizou uma comparação entre os cidadãos nacionais e os imigrantes e verificou que os portugueses utilizam mais os subsídios da Segurança Social do que os imigrantes. “Há menos prestações sociais e menos pensões do que acontece com os nacionais”, afirmou Pereira.
Na relação entre os indivíduos entre 29 e 46 anos, cerca de 4% dos portugueses possuem subsídio desemprego, 1,6% possuem outros benefícios e 1,4% são pensionistas, totalizando 7% de beneficiários. Entre os estrangeiros, 3,6% possuem o subsídio desemprego, 0,7% têm outras prestações e 0,2% são pensionistas, totalizando 4,5%.
Segundo o boletim, “o subsídio de desemprego representou cerca de 1,7% do tempo de permanência, enquanto as outras prestações sociais corresponderam a 0,9%” e que “a fração do tempo em que receberam pensões é residual, refletindo o facto de serem maioritariamente jovens e com entrada recente no país”.
“Os imigrantes praticamente não recebem pensões e recebem muito pouco subsídio de desemprego. Para todos os efeitos estão a trabalhar e, portanto, também não precisam do subsídio”, destacou Pereira.
O Banco de Portugal ainda fez uma análise dos imigrantes que contribuem com a Segurança Social e indicou que cerca de 22% dos estrangeiros têm permanência inferior a um ano e que 39% contribuem por até três anos.
Estima-se que cerca de metade permaneça até 70 meses (quase seis anos), enquanto cerca de 40% permanece nos registros da Segurança Social ao fim de dez anos. Os estrangeiros passam mais de 90% do seu tempo em Portugal como trabalhadores por conta de outrem ou como trabalhadores independentes.
Segundo o documento, a perspectiva de emprego é o que determina o grau de permanência dos imigrantes em Portugal, o que justifica as longas permanências no sistema da Segurança Social. “Estrangeiros que recebem o subsídio desemprego têm um risco 55% superior de sair dos registros da Segurança Social, presumivelmente em busca de melhores oportunidades em outros destinos”, destaca o documento.
Há ainda o fator da criação de laços parentais que diminui o risco de saída em 68%. “A presença de famílias é fundamental para aumentar a retenção dos trabalhadores estrangeiros”, ressalta o boletim.
“Globalmente, os resultados sugerem que Portugal ainda está longe dos países com maior grau de permanência dos trabalhadores estrangeiros. Políticas que favoreçam vínculos laborais estáveis, melhores condições remuneratórias e enquadramentos institucionais que apoiem a parentalidade poderão contribuir para aumentar esta retenção”, finaliza o documento.
Confira o estudo completo do Banco de Portugal aqui.
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Renan Araújo