De um libanês que aportou de navio na Bahia nasceu uma das famílias mais tradicionais do mercado de arte brasileira. Itamar Musse, 58 anos, mantém viva a herança centenária em peças sacras, como santos barrocos, e obras contemporâneas. As vitrines luminosas de seu ateliê na Avenida da Liberdade, em Lisboa, são janelas para o Brasil.
Entre móveis policromados, pratarias raras e até obra de Adriana Varejão, o marchand comanda o espaço como quem rege uma orquestra. Nada ocupa um lugar por acaso, e cada peça “precisa conversar com a outra”. O sobrenome Musse carrega mais de 120 anos de história dedicada à arte, memória e beleza. A saga da família começou em 1918, quando libanês David Musse deixou Beirute rumo ao Rio de Janeiro.

Vik Muniz, Florinda, 2022. Par de Leões em Louça, Portugal, Século XIX. Arcaz, Bahia, Brasil. Século XVII. Crédito: Renato Velasco
O destino mudou os planos: David passou mal no navio e desembarcou em Salvador. Acabou ficando. Fascinado pela cultura brasileira, trocou o emprego de comprador de ouro do Banco do Brasil pelo comércio de arte e antiguidades. Vindo de uma terra milenar, achou curioso que, no Brasil, peças de 200 anos já fossem consideradas antigas. David Musse chegou a ser chamado de “Rei David, o rei dos antiquários”, frequentado por celebridades como Jorge Amado, Roberto Marinho e grandes artistas e empresários da época, segundo conta o neto.

São José de botas, Portugal Século XVII. Crédito: Renato Velasco
Itamar Musse, formado em museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), assumiu o legado familiar com a elegância de quem compreende e preserva a própria história. Desde 1998, seu antiquário no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, ocupa dois prédios, nos quais “as peças respiram”. Recebe colecionadores, pesquisadores e curiosos para verem arte, do barroco à contemporaneidade. Mas a expansão mesmo foi em Lisboa. “Portugal parecia improvável. Eu queria a loja na Avenida da Liberdade, onde parece impossível achar um imóvel. Porém, certo dia, passando pela calçada, vi uma placa de ‘aluga-se’. Era o destino de novo”. A loja, que também funciona com horários marcados, como a de Salvador, é uma embaixada da arte brasileira, de peças sacras setecentistas a obras contemporâneas.
No centro do espaço, uma escultura de Adriana Varejão, inspirada nas “figuras de convite” (que surgiram no contexto barroco e refletem a ênfase ritual e cenográfica da época, sendo uma expressão original da azulejaria portuguesa) e dá boas-vindas aos visitantes: “Ela representa esse diálogo entre os dois mundos, um aprendendo com o outro”. Todos os artigos têm valores revelados sob consulta. O marchand enxerga na arte sacra um elo poderoso entre os países: “Os portugueses trouxeram os cânones, mas no Brasil eles se misturaram à nossa cultura com novas luzes, calor e sensualidade. Essa fusão criou algo único. É isso que a gente mostra”.

Sérgio Camargo: Escultura em madeira pintada. 1970. Crédito: Renato Velasco
Entre as histórias marcantes da trajetória de Musse está o projeto Florindas, que nasceu de um incômodo e virou livro: “Eu sempre via fotografias antigas de mulheres negras baianas, belamente vestidas e cheias de jóias, mas elas nunca tinham nome. Eram apenas ‘escravas baiana’, ‘crioula baiana’. Aquilo me frustrava profundamente”. Durante 30 anos, Musse reuniu imagens e peças até encontrar uma fotografia que mudaria tudo: uma mulher chamada Florinda, usando as jóias de sua coleção. A partir dela, o marchand reconstruiu uma história de resistência feminina: “Descobrimos uma narrativa de superação e dignidade. Demos nome e história que haviam sido apagados”.
Não é apenas com arte que a galeria se destaca. Em Salvador, ele e sua esposa, Vanessa, são anfitriões de uma das festas mais badaladas do calendário baiano: o 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, celebrado na cobertura de seu espaço no Rio Vermelho, de frente para o mar. “O que começou com poucos amigos virou um evento valorizado. É uma energia poderosa”, diz. A festa, que hoje figura no calendário cultural da cidade, atrai colecionadores, artistas e amigos: “É uma celebração de fé e gratidão. A Bahia tem a magia que transforma as pessoas. A arte e a fé têm isso em comum: ambas nos conectam ao invisível”, afirma.
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Quando não está garimpando obras, Musse se dedica à gastronomia: “Arte é o hobby. Mas logo depois vem a comida”. No paladar convivem azeite de dendê, vinho verde e cachaça: “Trouxe até farinha fina na mala para me sentir mais em casa e dividir com amigos”. A casa baiana, curiosamente, é um espelho da dualidade entre o antigo e o moderno: “É contemporânea, feita de vidro, pedra e concreto. Mas, por dentro, é cheia de antiguidades”.
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O sobrenome Musse continua atravessando gerações. O filho, também Itamar, 24 anos, segue os passos do pai: “Tive sorte porque ele é nosso único filho e gosta de arte. Desde pequeno se encantava com peças antigas. Vê-lo continuar esse legado é a maior alegria que eu poderia ter”. A história levando consigo o espírito do tempo, o olhar apurado e a generosidade de quem acredita que arte é, antes de tudo, uma forma de fé. “Acho que o destino sempre apontou o caminho. O nosso trabalho é só continuar ouvindo o que ele tem a dizer”, ensina Itamar Musse.
jordan@revistaentrerios.pt
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Jordan Alves