Existem artistas que conquistam um país. Outros conquistam um continente. E há aqueles casos raros em que o sucesso se transforma em afeto duradouro. É exatamente esse lugar que Ivete Sangalo ocupa. Ao longo de 30 anos de carreira, ela deixou de ser apenas uma estrela do entretenimento para se tornar um fenômeno cultural, capaz de reunir multidões, atravessar gerações e manter uma conexão genuína com o público onde quer que esteja. Em Portugal, esse vínculo ganhou contornos especiais desde a primeira apresentação, em 2004. De lá para cá, foram inúmeras passagens pelo país, arenas lotadas, festivais memoráveis e uma relação que a própria cantora resume em poucas palavras: “Portugal já é minha casa”.

Ivete Sangalo cantou por quase cinco horas no “Ivete Clareou” nos Jardins do Casino Estoril. Crédito: Fernanda Baldioti
Mas reduzir Ivete ao sucesso dos números seria insuficiente. São mais de 330 canções gravadas, cerca de 18 milhões de discos vendidos, mais de 150 prêmios nacionais e internacionais, incluindo Grammys Latinos, além de participações na televisão, no cinema, em campanhas publicitárias e uma legião de fãs organizada em centenas de fã-clubes oficiais. Uma carreira construída sem perder de vista a origem, a alegria e a capacidade de se reinventar, qualidades que fazem de Ivete uma artista cuja história continua sendo escrita com a mesma intensidade de quando tudo começou.

O visual de “Ivete Clareou” foi gravado no Rio de Janeiro em 2025. Crédito: Rafael Mattei
Em 2026, voltou a escrever capítulos históricos da música brasileira. Em maio, foi convidada por Shakira para participar do megashow realizado na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, diante de cerca de dois milhões de
pessoas, o maior espetáculo da carreira da artista colombiana. Poucos meses antes, tinha levado seu bloco de carnaval pela primeira vez às ruas de São Paulo, reunindo aproximadamente 1,2 milhão de foliões no Parque do Ibirapuera. Feito explicável para a rainha da Bahia e do axé, que há anos enche as ruas de Salvador durante o carnaval e já se prepara para o próximo ano.

Ivete Sangalo e Shakira em Copacabana, no Rio de Janeiro. Crédito: Rafael Mattei
Os números impressionam. Mas, ao conversar com Ivete, percebe-se rapidamente que seu discurso caminha por outro lugar. Ela prefere falar de pessoas. Foi exatamente assim quando perguntada sobre Portugal, que trouxe seu novo show Ivete Clareou (realizado no dia 5 de setembro). Há quem esperava uma descrição detalhada do espetáculo.
“Tem coisas que a gente não explica. A gente vive. Eu quero muito que Portugal viva também comigo esse sonho. Eu estive em Cascais turistando e achei a coisa mais maravilhosa. Eu estou dizendo assim: vá que eu cuido de você, amor. Não se preocupe com nada. Você vai, você me beija, você me ama… vai ser lindo”, disse a cantora antes do show.
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É uma resposta típica de Ivete. Em vez de vender um show, vende uma experiência. A artista conta que fez questão de trazer o projeto para Portugal porque não queria que Ivete Clareou permanecesse restrito ao Brasil. “A retomada e a expansão internacional da turnê em 2026 confirmam que o que vivemos em 2025 foi verdadeiramente especial. É preparar o coração e viver”, diz. O espetáculo nasceu das memórias de infância em Juazeiro, no interior da Bahia, onde o samba fazia parte do cotidiano familiar. Agora, essas lembranças atravessam o Atlântico. A cantora também se prepara esse mês para mais uma edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro. Ela subiu ao Palco Mundo da cidade do rock no último dia 13 de setembro.

Ivete Sangalo e Preta Gil. Crédito: Reprodução Instagram
Mas a entrevista rapidamente deixa a música para entrar em assuntos mais pessoais. Um dos momentos mais emocionantes acontece quando Ivete fala sobre a amizade com Preta Gil (1974 – 2025). Sem recorrer ao drama, ela prefere lembrar da força espiritual da amiga.
“A espiritualidade transcende os ritos. A minha fé está muito ligada a isso. Ela não me deixa cega para as experiências do divino”.
Ao recordar os últimos momentos vividos ao lado de Preta, Ivete descreve uma mulher que, mesmo diante da doença, escolheu oferecer serenidade aos amigos. Ela diz ter aprendido mais observando a postura da amiga diante da vida do que em qualquer outra experiência. Essa espiritualidade, segundo a cantora, não depende de religião.”Cada religião tem seus ritos. Mas a fé e a espiritualidade estão acima disso”. É um tema que aparece diversas vezes durante a conversa. A artista fala com naturalidade sobre propósito, sobre existência e sobre a importância de acreditar que existe algo maior conduzindo a vida.

Marcelo e Ivete Sangalo no carnaval de Salvador deste ano. Crédito: Reprodução Instagram
Depois de falar sobre o amor fraternal e a importância das amizades, a conversa naturalmente chegou ao amor romântico. Embora esteja vivendo
uma nova fase pessoal, Ivete surpreende ao revelar que não se encaixa no
perfil da romântica clássica. Diante da pergunta “Você é romântica? Você se considera uma mulher romântica?” ela faz uma breve pausa, reflete e admite:
“Boa pergunta. Ninguém nunca me perguntou isso… Eu sou geminiana, então sou romântica, mas uma romântica mais moderna. Adoro fazer surpresas, adoro cuidar. Mas não sou uma pessoa da melodia, da melosidade. Sou muito justa no amor, muito dedicada. Cuido muito de quem amo, mas não sou neurótica nem ciumenta”, diz deixando escapar um sorriso no rosto.
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Ela explica que prefere gestos espontâneos às datas comemorativas e garante que não se incomoda se alguém esquecer seu aniversário. “A sensação vale muito mais do que o calendário”. Mais do que demonstrações grandiosas, acredita na parceria e na presença constante. “Sou fiel. Fiel como amiga, como mãe, como parceira”.

Ivete Sangalo no Palco Mundo do Rock in Rio 2026. Crédito: Reprodução / X (@rockinrio)
Essa maturidade também aparece quando se fala sobre sofrimento afetivo. Segundo Ivete, nunca foi alguém que permanecesse presa às dores amorosas. “Se eu entendo que aquilo não é para mim, ou que aquela situação não está me fazendo bem, eu dou cabo disso”. A fala resume uma mulher muito diferente daquela jovem cantora que, nos anos 1990, conquistava o Brasil à frente da Banda Eva. Hoje, Ivete administra uma carreira gigantesca sem abrir mão da vida familiar. É mãe de Marcelo, músico que ocasionalmente sobe ao palco ao lado da mãe, e das gêmeas Helena e Marina. Também vive uma nova fase afetiva ao lado do empresário Tiago Maia.
O amor foi apenas um dos temas da conversa. Ao ser questionada sobre o Brasil e o momento político do país, com a proximidade das eleições em outubro, Ivete respondeu com a mesma franqueza.
“O que eu quero para o Brasil é uma ideia muito comum a todo mundo. Claro que existem discordâncias sobre o que é certo e o que é errado, mas eu quero um país desenvolvido, que saiba aproveitar o seu tamanho continental, as suas riquezas e a força do seu povo, com igualdade e oportunidades para todos”, afirma.
Para a cantora, a educação continua sendo a principal ferramenta de transformação social. “Embora o Brasil tenha muitos desafios prioritários, como segurança, saúde, igualdade e pertencimento, eu acho que a educação consegue unir tudo isso.” Ivete também defende que a responsabilidade pela construção do país não cabe apenas aos governantes.
“O que eu espero mesmo são as intenções. Que elas sejam, de fato, voltadas para beneficiar a população. E que as pessoas assumam as suas responsabilidades sociopolíticas como cidadãs. Acho que nós, como cidadãos, temos muito a colaborar na construção política do Brasil”.

Ivete Sangalo está a frente do Instituto que leva seu nome. Crédito: Divulgação
Paralelamente à carreira artística, dedica parte importante do seu tempo ao
Instituto Ivete Sangalo, criado para fortalecer projetos voltados à infância,
especialmente na Bahia. A iniciativa coordena ações sociais, campanhas beneficentes e programas de apoio a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, reforçando um compromisso social que acompanha a artista desde o início da carreira.
Ivete tornou-se mais do que uma cantora, virou uma marca, uma personalidade que atravessa gerações e reúne crianças, jovens e adultos no mesmo espetáculo.
Multitalentosa e muito além dos palcos
Se a música fez de Ivete uma das maiores artistas do Brasil, sua
versatilidade consolidou um fenômeno raro no entretenimento. Ao longo da
carreira, a baiana conquistou também a televisão, tornando-se uma das
comunicadoras mais populares do país. Esteve à frente de programas como Estação Globo, Superbonita, Pipoca da Ivete, The Masked Singer Brasil e Música Boa Ao Vivo. Também brilhou como jurada do SuperStar e como técnica do The Voice Kids e The Voice Brasil. Como atriz, participou de novelas, filmes e séries.

Ivete Sangalo como Maria Machadão em “Gabriela”. Crédito: Divulgação/TV Globo
Com naturalidade, Ivete transita entre música, televisão, publicidade e atuação, mantendo o mesmo carisma que a transformou em um dos rostos mais conhecidos e admirados do Brasil. Mais do que uma cantora, tornou-se uma das personalidades mais influentes do entretenimento brasileiro.
jordan@revistaentrerios.pt
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Jordan Alves