Ela mede apenas 1,54m, mas enfrenta ondas de até 30 metros. Joana Andrade é a primeira e única mulher portuguesa a surfar as gigantes da Nazaré — uma façanha que a colocou no mapa do surf mundial.
Aos 45 anos, a atleta e instrutora carrega não só pranchas, mas também uma trajetória marcada por resistência, fé na própria intuição e a busca constante por equilíbrio entre corpo e mente.
“A minha força não vem do físico, mas sim do mental. Quando você está debaixo d’água, enrolado por uma onda gigante, é a mente que ajuda a sobreviver, não o corpo”, disse em entrevista exclusiva à EntreRios, realizada durante o verão europeu, para a edição nº 4 da revista impressa.
Como o surf virou cura para o TDAH e o bullying
Joana começou a surfar aos 13 anos, em meio a dificuldades na escola. Diagnosticada com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção / Hiperatividade), enfrentava episódios de bullying e testou vários esportes antes de encontrar no mar o seu refúgio.
“Minha mãe tentou de tudo: karaté, equitação, balé, basquete… Eu era boa em todos, mas faltava algo. No surf encontrei minha conexão, o equilíbrio e a paz de espírito”, recorda.
Na época, ela conta, o esporte ainda era visto com preconceito, associado a “marginais e hippies”. Mesmo assim, Joana insistiu. Depois de meses tentando ficar em pé na prancha, venceu campeonatos e conquistou respeito.
O chamado das ondas gigantes da Nazaré
A transição para as ondas grandes aconteceu naturalmente. Nas competições, Joana se destacava quando o mar estava mais agitado.
“Era quando as outras meninas ficavam intimidadas que eu me sentia melhor”.
Ao chegar à Nazaré pela primeira vez, achou impossível. “Olhei e pensei: isso é como surfar o Everest. Mas algo dentro de mim disse que eu tinha que tentar”.
Após um ano inteiro de preparação e críticas de quem diziam ser “pequenina demais”, entrou no mar acompanhada de Garrett McNamara, lenda das ondas gigantes.
“Ele olhou para mim e disse: ‘You are so small’. Não havia equipamento para o meu tamanho. Colocaram dois coletes infantis em mim. Entrei nervosa, mas naquele momento entrei também num estado profundo de consciência. Nas ondas grandes não há espaço para errar.”
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Mulher em um esporte masculino
Além das ondas, Joana enfrentou o machismo dentro do surf. “No começo havia comentários como ‘cuidado meninas, o mar está grande’. Mas aprendi que nas ondas gigantes não há masculino nem feminino: há apenas um ser humano diante da força da natureza”.
Hoje, ela vê avanços na participação feminina e considera este o momento das mulheres no esporte: “Já fomos vistas como bruxas, escravas, inferiores. Agora é a nossa era”.
Surf como terapia e novos caminhos
Foi assim que o esporte se tornou medicina para Joana. “É o meu santuário, onde medito. Cada onda me ensina sobre meus medos e fragilidades, e tento aplicar isso no dia a dia”.
Além de competir, ela dirige a Progress Surf School, em Ericeira, onde ensina desde iniciantes até surfistas avançados. “Muitas pessoas nunca mergulharam antes. Quero mostrar que o surf é para todos”.
Agora, começa a pensar em outros projetos, como retiros voltados à conexão entre mulheres e o mar. Um dos próximos será no Brasil, em Pipa (RN), previsto para 2026.
Nazaré, Brasil e o futuro do surf
A relação com a Nazaré é, nas palavras dela, “um pesadelo e um sonho ao mesmo tempo”.
Já com o Brasil, a conexão é direta: sua parceira de ondas grandes é a brasileira Michaela Fregonese, e boa parte de sua equipe também é do país. “As ondas da Nazaré cresceram muito com a chegada dos brasileiros. Temos a mesma energia, o mesmo sangue”.
Para Joana, Portugal tem um papel cada vez maior no surf mundial. “Temos uma costa cheia de ondas consistentes e uma cultura que atrai o mundo. O surf só tende a crescer, não só como esporte, mas como caminho espiritual”.
Fique por dentro
Uma reportagem sobre “A Força do Surf em Portugal” está publicada na revista EntreRios, edição nº 4 (setembro de 2025), disponível nas bancas em Portugal.
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Déborah Lima