O Atlântico começa a ficar menor, pelo menos na estratégia internacional da Gol. A companhia aérea inaugura nesta quarta-feira (16) a nova rota direta entre Lisboa e o Rio de Janeiro em um voo que marca uma nova etapa da expansão internacional da empresa. Portugal foi escolhido como porta de entrada para a Europa, enquanto o Galeão aparece como peça central da estratégia para conectar passageiros não apenas ao Rio, mas a diferentes regiões do Brasil e da América do Sul.

“Eu sempre falo que a gente precisa diminuir o Atlântico”, afirmou Mateus Pongeluppi, vice-presidente Comercial e de Clientes da Gol, durante coletiva realizada em Lisboa. Segundo o executivo, a escolha do Rio de Janeiro para a nova ligação também representa uma tentativa de recuperar a vocação internacional do Galeão, historicamente ofuscada pela concentração das operações internacionais em São Paulo.

“Então o Rio de Janeiro ficou ali sendo uma base muito mais doméstica, e a gente traz agora esse anseio de transformar novamente o Rio de Janeiro numa grande porta de entrada para o Brasil”, explicou Pongeluppi.

A operação começa com quatro frequências semanais, às segundas, quartas, sextas e sábados. A partir de 24 de novembro, a terça-feira será acrescentada, elevando a oferta para cinco voos por semana.

Na configuração inicial, a rota será operada com um Airbus A330-neo, com quase 300 assentos, sendo 20 na classe executiva e 280 na econômica. No início de 2027, a companhia prevê a entrada de uma aeronave própria para a rota, quando a classe executiva passará a contar com 34 lugares.

Aeronaves A330 da Wamos Air. Crédito: Divulgação

A expectativa da Gol é começar com uma ocupação entre 70% e 80% nos primeiros sete a dez dias, período definido pela empresa como de adaptação da operação. Depois desse intervalo, a previsão é superar os 80%, considerados pela companhia um nível saudável para a rota.

TAP ganhou como melhor companhia aérea europeia para África e melhor companhia europeia para a América do Sul. Crédito: Divulgação Leia também TAP anuncia rota internacional inédita entre Lisboa e São Luís

Os horários variam conforme o período do ano. Entre 26 de outubro e 21 de novembro, por exemplo, os voos Rio-Lisboa sairão às 9h05, com chegada às 21h45. No sentido contrário, a partida de Lisboa será às 23h35, com chegada ao Rio às 6h35 do dia seguinte.

O Rio como porta de entrada para o Brasil

Mais do que trazer passageiros para o Rio, a Gol pretende transformar o Galeão em um ponto de distribuição. Segundo Danillo Barbizan, diretor de Vendas da companhia, a operação permite conexões para mais de 15 destinos em aproximadamente duas horas.

Da esquerda para a direita: Renata Fonseca, VP de Relações Governamentais e Institucionais; Mateus Pongeluppi, VP Comercial e de Clientes; e Danillo Barbizan, Diretor de Vendas em encontro no restaurante Cícero, em Lisboa. Crédito: Divulgação

O passageiro que chega de Lisboa poderá seguir para diferentes regiões brasileiras e também para países vizinhos. De acordo com Barbizan, Buenos Aires já aparece como a terceira origem-destino mais forte da nova rota, o que reforça a aposta da companhia em transformar o Rio em uma plataforma de conexão entre Europa, Brasil e América do Sul.

A possibilidade de combinar destinos também faz parte da estratégia. Um passageiro pode chegar ao Rio, permanecer alguns dias na cidade e depois seguir para a Argentina ou outro destino brasileiro. É aí que entra o stopover, que permite ao viajante permaneça na cidade antes de continuar a viagem sem pagar a mais por isso na passagem. “Você pode, sem adicional de preço, ficar no Rio de Janeiro de 3 a 4 dias”, afirmou Barbizan.

Atualmente, o período previsto é de três dias, mas a Gol avalia ampliá-lo para atender melhor ao perfil do público europeu, que costuma fazer viagens mais longas.

O Galeão também é apresentado como uma alternativa de conexão para quem tem São Paulo como destino final. A Gol destaca a possibilidade de conexão rápida com Congonhas, aeroporto localizado na região central da capital paulista, em um trajeto que pode ser feito em menos de uma hora.

A estratégia está relacionada à própria dimensão da operação da Gol no Rio. Cerca de 70% da oferta de assentos da empresa no Galeão está ligada a voos domésticos, o que amplia as possibilidades de conexão para quem chega de Lisboa.

Lisboa é o primeiro passo na expansão europeia

Aeronave Gol. Crédito: Divulgação

A escolha de Lisboa está relacionada aos vínculos históricos, culturais e econômicos entre Brasil e Portugal.

Portugal recebeu cerca de 1,06 milhão de hóspedes brasileiros, enquanto o Brasil recebeu 273.483 turistas portugueses, o maior volume de visitantes portugueses no país em 18 anos. Para Pongeluppi, entretanto, os números ainda não refletem todo o potencial dessa relação.

“Embora a gente veja os números crescendo, acho que a nossa ambição pode ser maior”, afirmou.

A companhia espera inicialmente uma presença maior de brasileiros nos voos, mas pretende conquistar gradualmente o público português e europeu.

Viagem de lazer ganha espaço na nova rota

Embora a companhia também aposte no mercado corporativo, o foco inicial da nova operação está no viajante de lazer. A Gol estima que cerca de 80% a 85% dos passageiros da rota sejam desse segmento, enquanto o público corporativo deva representar aproximadamente 15%.

A mudança acompanha, segundo Barbizan, um comportamento que ganhou força nos últimos anos: o viajante de lazer passou a olhar também para a classe executiva em busca de tarifas que caibam no planejamento da viagem.

“Antes você via muito, nas classes executivas, muito passageiro corporativo utilizando dessas classes. Agora você começa a ver, já desde a pandemia, também o viajante a lazer se programando para achar as tarifas boas”, afirmou.

Gol aposta em conectividade, não apenas em preço

A entrada da Gol na rota Lisboa-Rio coloca a companhia para disputar diretamente um mercado no qual a TAP tem forte presença. Os executivos, porém, evitaram apresentar a competição como uma disputa exclusivamente baseada em tarifas.

A estratégia, segundo a empresa, não será necessariamente oferecer preços sempre inferiores aos da concorrente. Os valores deverão variar de acordo com a demanda de cada voo e com as diferentes possibilidades de conexão oferecidas pela malha da Gol.

“Não quero ser leviano e falar assim: a gente vai entrar com o preço mais barato”, afirmou Barbizan. Segundo ele, a companhia pretende oferecer oportunidades de tarifas competitivas, mas sem estabelecer a promessa de que será sempre mais barata que a concorrente.

A aposta está em combinar preço, conectividade e novos destinos. A companhia acredita que sua presença doméstica no Brasil pode ser um diferencial diante de uma demanda que vai além do eixo Rio-Lisboa.

“Então a gente não vem para repartir esse bolo que já existe, e sim para agregar muito mais nesse mercado”, afirmou Barbizan.

A companhia cita como exemplo passageiros de cidades brasileiras que hoje têm pouca oferta internacional ou viajantes do interior da Argentina que poderiam usar o Rio como ponto de conexão para chegar a Portugal.

Wamos opera os primeiros voos

A operação inicial também tem uma particularidade: os aviões não serão, neste primeiro momento, da frota própria da Gol.

Os voos serão realizados com aeronaves A330 da Wamos Air, empresa espanhola que também faz parte do Grupo Abra, conglomerado ao qual pertence a Gol. A companhia possui 14 aviões de fuselagem larga e atua no modelo de aluguel de aeronaves para operações temporárias.

A solução será utilizada enquanto os A330 próprios da Gol passam por processos de renovação de interiores, documentação e preparação para a nova etapa internacional. A previsão apresentada pelos executivos é que cinco aeronaves próprias sejam destinadas ao Brasil, com a entrada da primeira delas em operação em fevereiro.

Experiência brasileira a bordo

Na classe executiva, a Business Insignia by Gol oferece assento que se transforma em cama, acesso a lounges, embarque prioritário, kit de amenidades da Granado, fones com cancelamento de ruído e entretenimento individual.

A configuração inicial da executiva será de 2-2-2, mas todos os passageiros terão acesso direto ao corredor. Quando a aeronave própria da Gol entrar na operação, a configuração prevista será de 1-2-1.

A gastronomia é outro elemento usado pela empresa para aproximar o passageiro do Brasil. O menu é assinado pelo chef brasileiro Felipe Bronze, que leva para bordo releituras de sabores e ingredientes regionais brasileiros.

“É uma classe executiva que vai vir supercompetitiva para o mercado”, disse Barbizan.

Luxury Tours Portugal. Crédito: Divulgação Leia também Turismo de luxo em Portugal atrai brasileiros em busca de experiências únicas

Na nova fase, a Gol diz ter escolhido a hospitalidade como um dos conceitos centrais de sua identidade internacional.

“A gente não se propõe a colocar luxo no nosso dia a dia, a gente se propõe àquela coisa do ‘quero me sentir bem, quero me sentir em casa’”, afirmou Pongeluppi.

 

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