A cantora e compositora, Marisa Monte construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre tradição e contemporaneidade, atravessou gerações com suas canções e agora revisita parte desse repertório em uma nova experiência sinfônica. Em setembro, ela retorna a Portugal com o espetáculo Phonica, ao lado de uma orquestra de 55 músicos. Nascida no Rio de Janeiro, Marisa cresceu cercada por diferentes referências musicais. Ainda criança, estudou piano e bateria e desenvolveu uma escuta que transitava por universos aparentemente distantes. Admirava Maria Callas (1923 – 1977) e Billie Holiday (1915 – 1959), mas também Carmen Miranda (1909 – 1955) e a música brasileira. Essa combinação de referências ajudaria a formar, ao longo das décadas, uma artista difícil de enquadrar em um único gênero ou tradição.

Desde o início da carreira, Marisa construiu uma relação particular com a canção brasileira. Sua música se tornou reconhecível não apenas pela voz, mas também pela maneira cuidadosa de escolher repertórios, trabalhar arranjos e aproximar diferentes linguagens. Ao longo dos anos, transitou entre a tradição popular brasileira, o pop, a música erudita e experiências coletivas que ampliaram ainda mais seu alcance.

Marisa Monte. Crédito: Bruno Cavalcanti

Marisa Monte e o maestro André Bachur durante o show “Phonica”. Crédito: Bruno Cavalcanti

Uma dessas experiências foi o encontro com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, com quem formou os Tribalistas, projeto que marcou a música brasileira nos anos 2000 e voltou a ganhar força posteriormente. O grupo se tornou um fenômeno ao transformar a cumplicidade entre os três compositores em uma linguagem musical própria, com canções que atravessaram gerações. Essa trajetória será revisitada no documentário Tribalistas – O Baú da Hora Fértil, que acompanha o processo criativo do grupo nos anos 2000 e 2010 e reúne registros inéditos dos bastidores dos dois álbuns e da única turnê realizada no Brasil. Após passar por festivais e cinemas, o filme tem estreia prevista no canal CURTA! no primeiro semestre de 2027.

Marisa Monte. Crédito. Leo Aversa

A carioca Marisa Monte começou estudar música ainda na infância. Crédito: Leo Aversa

Leia também Ivete Sangalo aparece de surpresa em bar no Estoril e canta pagode

Agora, enquanto sua obra continua ganhando novas leituras, Marisa Monte volta a olhar para o próprio repertório. No projeto Phonica, canções que já fazem parte da memória afetiva do público são reconstruídas para uma formação sinfônica. Para a cantora, porém, trata-se menos de revisitar o passado do que de descobrir novas possibilidades para músicas que continuam em movimento. “As músicas também têm vida própria, diz. Em Entrevista à EntreRios ela falou sobre esse momento profissional:

O que uma orquestra de 55 músicos permite fazer com uma canção no lugar de uma banda?

Ao longo da minha trajetória, trabalhei com grandes arranjadores, e o maestro André Bachur me ajudou a encontrar novos arranjadores que pudessem expandir e adaptar os arranjos originais para formações maiores, sinfônicas. Passamos alguns meses trabalhando nessas adaptações, entre idas e vindas, com muita troca, escuta, feedback e sugestões, até chegarmos ao resultado final, que também foi fruto da escolha dos instrumentos que teríamos no palco. Além da formação orquestral clássica completa, temos dois solistas, uma harpista, um pianista e a minha banda, o quarteto maravilhoso que me acompanha. Tudo isso junto gerou uma nova textura, uma linguagem entre o meu repertório e a música erudita, entre o popular e o clássico. É uma emoção indescritível cantar com essa massa sonora, com tantas vozes e cores, tantas camadas melódicas que arrepiam e inspiram. Para mim, é um momento abençoado, de um sonho antigo.

Ao revisitar canções que já atravessaram várias gerações, há alguma que hoje lhe revele um significado diferente daquele que tinha quando a gravou?

O tempo e o distanciamento geram perspectivas que não havia na época. As músicas também têm vida própria e fazem parte da vida dos outros de uma maneira imprevisível, surpreendente e bela. O tempo cumpre seu papel, ressignificando sentidos, conexões e memórias para cada canção.

Neste encontro entre música popular brasileira e linguagem sinfônica, o que foi mais difícil foi adaptar as canções à orquestra ou impedir que a orquestra se sobrepusesse à intimidade delas?

Nada foi difícil nesse projeto. Na verdade, todo o processo foi muito inspirador e fluiu com beleza, naturalidade e prazer.

Tribalistas. Crédito: Reprodução: @marisamonte

Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown formam o “Tribalistas”.  Crédito: Reprodução: @marisamonte

Vanessa da Mata. Crédito: Reprodução Instagram Leia também Vanessa da Mata leva “Todas Elas” ao Rock in Rio e anuncia novos shows em Portugal

Depois de tantos anos de carreira, o que ainda precisa acontecer em uma canção para que você pense: “esta merece entrar no meu repertório”?

Hoje, com tantos anos de carreira, já gravei tantas músicas que tenho um repertório que não cabe em show nenhum. Então, naturalmente, as canções circulam, entrando e saindo do roteiro dos shows, criando novos diálogos, sentidos e equilíbrios entre assuntos, estilos e ritmos.

O documentário dos Tribalistas terá imagens inéditas das gravações e da turnê. Há algum momento que, visto hoje, tenha surpreendido até vocês próprios?

Muito. O filme é sobre o nosso processo de composição, e, quando vejo os grandes hits que fizemos juntos no momento de nascimento, é muito impressionante atestar a dimensão que essas músicas tomaram ao longo dos anos no mundo. Sinto-me abençoada por fazer parte desse processo com meus amigos e parceiros Carlinhos e Arnaldo. É um processo mágico, de expressividade coletiva, construído através da cumplicidade, da admiração mútua e do amor.

Marisa Monte. Reprodução: @marisamonte

Marisa Monte durante passagem de som com orquestra e banda. Reprodução: @marisamonte

Com uma  formação musical que começa com  referências diversas e adotou para sua carreira essas influências em uma obra própria, capaz de dialogar com o popular sem abrir mão da sofisticação e de experimentar novas linguagens sem perder a intimidade da canção. O show se encaixa não como uma celebração nostálgica de sucessos, mas como mais uma possibilidade de olhar para músicas conhecidas e descobrir o que ainda existe dentro delas.

Phonica de Marisa Monte & Orquestra ao vivo

Marisa Monte sobe ao palco em Lisboa na sexta (18) em Lisboa, na MEO Arena e no domingo (20) na Arena do Porto. A apresentação reúne a cantora, sua banda e uma orquestra sinfônica de 55 músicos, sob direção musical e regência do maestro André Bachur. Os ingressos custam a partir de 30 euros!

jordan@revistaentrerios.pt