O primeiro dia do MEO Kalorama 2026 reuniu nomes de peso da música internacional, com Grace Jones e Robbie Williams como alguns dos grandes destaques da noite. O Parque Bela Vista tem capacidade para receber até 40 mil pessoas, mas o movimento ficou abaixo desse limite na abertura do festival.

No Palco MEO, o principal, e no palco secundário, as apresentações se alternaram ao longo da noite, com cerca de uma hora de duração cada. A exceção ficou por conta do encerramento, com um show de uma hora e meia. O espaço dedicado à música eletrônica também manteve a programação ativa durante toda a noite.

Se Grace Jones e Robbie Williams corresponderam às expectativas e entregaram alguns dos momentos mais fortes desta sexta (28), Maro acabou sendo uma das decepções da noite, sem conseguir criar a mesma conexão com o público. Já Angine de Poitrine e Judeline apareceram como surpresas positivas e ganharam atenção com apresentações que foram além do esperado.

Neste sábado (29), o festival recebe Lauryn Hill, que se apresenta ao lado de Wyclef Jean, além de Zion e YG, Sam The Kid com Orquestra e Orelha Negra, Vince Staples, Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago.

A seguir, confira uma breve análise dos principais shows do primeiro dia do MEO Kalorama.

Angine de Poitrine

A misteriosa dupla Angine de Poitrine surpreendeu o público com uma performance envolvente. Crédito: José Sena Goulão / Agência Lusa

O sol começava a raiar e o publico ainda chegava ao MEO Kalorama quando Angine de Poitrine (traduzido como angina no peito, ou a sensação presente antes de um ataque cardíaco) entrou no palco em sua segunda passagem por Portugal, após um show nos Açores, em junho. A dupla canadense de identidade misteriosa (conhecemos apenas por Knh e Klek), que vem lotando shows pelo mundo, adota um visual único com fantasias com bolinhas pretas e brancas e máscaras de papel machê que são, para dizer o mínimo, peculiares.

Crédito: Reprodução / Instagram (@meokalorama) Leia também MEO Kalorama começa nesta sexta (28); confira guia completo com atrações, mapa, horários e como chegar

O som, classificado como math rock, mistura rock psicodélico, techno e disco em uma combinação frenética e caótica, mas surpreendentemente precisa, que hipnotizou o público no Parque Bela Vista. As referências passam por nomes como Daft Punk e Gorillaz, mas a banda constrói uma identidade própria, sem medo de experimentar.

As músicas dispensam letras convencionais e apostam em gritos, vozes distorcidas e sons que parecem pertencer a um idioma próprio. Até a interação com o público escapa ao roteiro habitual. O resultado pode causar estranhamento no primeiro contato, mas logo cria uma conexão particular com quem está diante do palco. Para muita gente que ainda não conhecia a banda, foi uma das descobertas da noite.

Interpol

Interpol voltou a Portugal no dia do lançamento de seu novo álbum de estúdio. Crédito: Divulgação MEO Kalorama

A banda americana Interpol, que mistura o rock tradicional com influências do pós-punk e foi um dos grandes nomes do indie rock especialmente na década de 2000, fez um show bom mas pouco empolgante, em apresentação que marcou o retorno da banda a Portugal após três anos.

No mesmo dia da apresentação no MEO Kalorama também foi lançado o álbum This mirror weighs a ton, o oitavo do grupo, que discute temas como vigilância, tecnologia e inteligência artificial (IA), representados pelas câmeras na capa. Entre as novidades também está a nova formação que incluiu o tecladista Brandon Curtis e o baixista Brad Truax ao lado de Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino.

No show, a banda mesclou grandes clássicos dos álbuns Turn On The Bright Lights (2002) e Antics (2004), como PDA, Obstacle 1, C’Mere e Slow Hands com faixas do novo disco, como This mirror weighs a ton e See Out Loud.

Judeline

A jovem cantora espanhola Judeline mistura ritmos e danças em seu show. Crédito: José Sena Goulão / Agência Lusa

A cantora espanhola de apenas 23 anos chegou a Portugal celebrando o estrondoso sucesso da música BbY Now, em parceria com Karol G, que a levou a ser a primeira artista espanhola a ficar em primeiro lugar no Spotify global. Com origem na Andaluzia, ela mostrou um grande potencial artístico com a mescla de ritmos diversos que combinam o flamenco, oriundo da sua região, pop latino, indie, funk, reggaeton e até mesmo rap, além de danças e performances sensuais e provocativas.

Leia também MEO Kalorama 2026: fomos conhecer o festival antes da abertura; veja o que esperar

A maioria de suas letras é em espanhol, mas também há espaço para o francês e até mesmo para o português como no caso da canção Tu et moi, que conta com um funk cantado por MC Morena na abertura, performance que foi ovacionada pelo público brasileiro. Uma apresentação que surpreendeu muitos dos presentes que ainda não conheciam essa espanhola de grande potencial.

Grace Jones

Grace Jones entregou todo seu talento e disposição ao público no show do MEO Kalorama. Crédito: Divulgação MEO Kalorama

Aos 78 anos, Grace Jones voltou a Portugal após um hiato de mais de sete anos para mostrar que ainda possui vitalidade e a energia que marcaram a sua carreira desde o início da década de 1970. Em sua apresentação, ela trouxe grandes hits que levantaram o público como I’ve seen that face before, Amazing Grace, Pull Up to the Bumper e Slave to the Rhythm.

Grace Jones tem sido uma força metamórfica, provocadora e absolutamente singular no universo do entretenimento desde que emergiu como modelo em Nova Iorque e Paris, no início da década de 1970. A cantora, modelo e atriz jamaicana mistura influências do soul, disco e new wave com um visual único e um espetáculo intenso, em que a moda também é elemento essencial. Tudo isso ficou muito claro durante sua apresentação no MEO Kalorama que foi muito apreciada pelo público.

Ao longo de toda a apresentação, ela manteve uma relação próxima com a plateia, fez brincadeiras e não perdeu o bom humor. O espírito transgressor apareceu em uma performance na qual tocou os pratos de uma bateria, derrubou os instrumentos e anunciou uma espécie de “demolição”. Em alguns momentos, permaneceu sentada por conta da idade, mas isso não reduziu a força de sua presença no palco.

O show também passeou por referências do reggae jamaicano e pela força da percussão, enquanto os diferentes figurinos reforçaram a versatilidade da artista. O resultado foi uma apresentação marcante, que merecia um espaço no Palco MEO, o principal do festival, em vez do Palco Sagres

Robbie Willians

Robbie Williams levantou o público com clássicos e covers de grande sucesso. Crédito: Divulgação MEO Kalorama

Robbie Williams levantou o público com clássicos e covers de grande sucesso. Crédito: Divulgação MEO Kalorama

Um dos maiores nomes do MEO Kalorama, a performance do britânico Robbie Willians foi de longe a mais esperada e a que mais empolgou o público no primeiro dia. Seu lema inicial Let me Entertain You fez jus à volta do cantor a Portugal após um hiato de três anos. Como não poderia deixar de ser, ele apresentou os principais hits de sua carreira, como Angels, Rock DJ, Feel e hits da época do Take That, em uma consagração do seu pop rock que mistura elementos do glam rock, synth pop e pop orquestral que o marcou especialmente ao longo da década de 1990 e de 2000.

Lauryn Hill no The Town em 2025. Crédito: Sebastiao Moreira/Lusa Leia também MEO Kalorama: de Lauryn Hill a Criolo, confira a programação do festival

Para além dos clássicos também houve espaço para canções do disco mais recente, o Britpop, lançado no começo do ano e que também chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas.

Ao longo do show, o cantor manteve uma relação próxima com o público, fez piadas, brincadeiras e não poupou elogios aos portugueses. Também falou sobre a gratidão à mulher, Ayda Field, a quem atribuiu o apoio durante momentos difíceis, e declarou o amor pelos filhos ao dedicar a eles I Love My Life. Para o pai, a quem chamou de herói, reservou My Way, música que ouvia na infância. O britânico também falou sobre o diagnóstico de Parkinson do pai, que hoje o impede de acompanhar todas as suas apresentações.

A música de Frank Sinatra não foi o único dos tributos a grandes clássicos do rock. Também estiveram no repertório We Will Rock You, Jolene (uma homenagem a Dolly Parton, que faleceu na última semana e foi homanegeada no telão ao final do show), New York, Personal Jesus, Hey Jude, YMCA, I Will Survive, entre muitas outras em performances que combinaram interações de toda a banda, danças, luzes e novos figurinos que divertiram o público. Houve ainda a exibição de She is the one para uma integrante da plateia que fazia aniversário no dia.

Robbie Williams mostrou mais uma vez que possui muita energia e intensidade e que essas características tornam o seu show único, ele se entrega e é capaz de oferecer emoções das mais diversas. Sorte do público que esteve presente para acompanhar.

renan@revistaentrerios.pt