Ninguém pode negar que é muito dinheiro. São cerca de R$ 1 bilhão por temporada apenas em patrocínios a 13 clubes da Série A. Um montante suficiente para explicar a gritaria provocada pela possibilidade de o governo Lula apertar o cerco contra as bets. Mas não para decretar o fim do futebol brasileiro.

Foi exatamente esse o tom adotado por clubes e federações na semana passada. Diante da discussão no governo sobre uma medida provisória para restringir a atividade do setor, dirigentes divulgaram um manifesto com título nada econômico no drama: “O fim do futebol brasileiro”. Segundo eles, uma eventual proibição poderia levar clubes à insolvência e representar um “golpe fatal” no nosso futebol. Menos.

Claro que haverá abalo. Isso não se nega. Vinte e oito dos 40 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro têm algum vínculo comercial com empresas de apostas — 15 na Série A e 13 na B. Somente na divisão de elite, os patrocínios são estimados em mais de R$ 1 bilhão por ano. É uma montanha de dinheiro que não pode simplesmente desaparecer dos balanços de uma hora para outra. Mas há vida sem bets. Até outro dia havia.

As apostas esportivas de quota fixa só foram legalizadas no Brasil em 2018, no governo de Michel Temer. Antes delas, o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo, os times brasileiros venceram Libertadores e Mundiais e o futebol nunca deixou de ser a maior paixão do torcedor brasileiro. Fora daqui, ligas como a poderosa Premier League proibiram as casas de apostas de investirem no patrocínio máster das camisas dos times que disputam o mais rentável e competitivo campeonato nacional de clubes do planeta. E não se imagina que gigantes como Manchester City, Arsenal e Liverpool vão perder força e deixar de disputar títulos.

E nem seria a primeira vez que o esporte perde dinheiro vindo do jogo. Em 2004, no primeiro governo Lula, uma medida provisória proibiu bingos e caça-níqueis em todo o país. Houve protestos e previsões igualmente sombrias. Mas o futebol seguiu firme e forte no seu posto de paixão número 1 dos brasileiros.

Isso não significa dizer que a bilionária receita da publicidade das apostas possa ser retirada de um dia para o outro sem impactos. O que não dá é transformar uma fonte de receita que praticamente não existia há uma década em condição indispensável à existência de um esporte que chegou ao Brasil no século XIX. As bets nem são a maior fonte de receita dos clubes. Os direitos de transmissão de jogos e campeonatos ocupam esse posto. Verdade que hoje também boa parte desse dinheiro é receita indireta das casas de apostas, que compram espaço publicitário a valores astronômicos nas emissoras de TV e canais de streaming que exibem as competições.

O futebol já sobreviveu ao fim dos bingos, a patrocinadores que quebraram, a crises econômicas, gestões desastrosas e até aos próprios cartolas que juravam estar tentando salvá-lo. Quem não está sobrevivendo às bets são os apostadores. Um estudo encomendado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal revelou que o jogo de risco tirou R$ 62,5 bilhões do orçamento familiar dos brasileiros em 2025. O número de brasileiros que já apostaram em plataformas autorizadas cresceu 75% nos oito primeiros meses deste ano. Mas é preciso ressaltar que os maiores vilões do endividamento são as plataformas clandestinas que operam cassinos ilegais e os malfadados tigrinhos. Mas as casas de apostas esportivas também têm sua cota nesse latifúndio.

Se um dia as bets forem embora, haverá prejuízo, contratos menores, adaptação e certamente muita reclamação.

Mas a bola continuará rolando. Como já rolava muito antes de alguém ficar com o rosto colado em uma tela, muitas vezes apostando contra o seu próprio time do coração.