Dez anos em Lisboa e o fado segue um mistério para mim. Vou falar aqui baixinho, entre nós: o mais lisboeta dos gêneros musicais ainda não me pegou de jeito, não me emocionou. E olhe que tenho tentado, seja por teimosia, seja por dever profissional — o que me levou a casas de fados, guiado por um amigo músico brasileiro, o Walter Areia, que trocou o baixo elétrico pelo contrabaixo e o frenesi do rock’n roll pela maciez dos acordes fadistas.

Tem gosto para tudo, até para andar com um instrumento com dois metros de altura, quando mais prático seria tocar gaita. A verdade é que o périplo acabou por ser didático. Primeiro, porque o Areia foi buscar no Brasil um paralelo musical que fez todo sentido para mim: o fado é o brega português.

Basta ouvir direitinho: as letras só falam em saudade, amores não correspondidos, traição. Portanto, é chifre, é gaia, dor de cotovelo, roedeira, sofrência. É brega. É o Nelson Gonçalves que o seu avô ouvia na vitrola, a nostalgia de um “naquela mesa está faltando ele”, ou o Odair José da radiola de ficha dos boêmios, imbuído em tirar a amada daquele lugar. Garçom, desce aí um conhaque, um quartinho de aguardente, um shot de ginja.

Se ainda não me emociona, esse lado brega deixou até o esganiçado Óóóóó, Mourariaaaaa! mais simpático. Ajudou também ter entrado por sorte numa casa de fado que ninguém dá nada por ela, até porque não tem mesmo muita coisa, salvo ser o último lugar onde se pode ouvir o legítimo ‘fado-vadio’ em Lisboa: a Tasca do Jaime, na Graça.

Antes, é bom frisar: o vadio dos portugueses não tem o tom pejorativo do nosso, assim como o malandro deles, mais para o bon-vivantismo de fazer algo por prazer do que para o sujeito que está a fim de lhe passar a perna.

O ‘fado-vadio’ é uma prova de amor, cantado não por profissionais, mas por fadistas de ocasião. Vendedores, contadores, funcionários públicos e aposentados em geral se espremem num cantinho da Tasca para soltar a voz e o coração. E sem receber um centavo. Ok, às vezes os fadistas desafinam e nem sempre os músicos se entendem.

Mas não se pode ter tudo. O gênero nasceu do improviso, sem muito a ver com a voz, e sim com sentimentos. Por isso, prefiro a versão vadia. Tanto que, naquela tarde, lembrei de um amor antigo, apoiei os cotovelos no balcão e sofri como quem ouvia um bom brega.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.

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