Aos 40 anos e com mais de duas décadas de carreira, Pedro Nercessian atravessa uma nova fronteira profissional. O ator brasileiro chega ao cinema português em Santo António, o casamenteiro de Lisboa.
Conhecido no Brasil desde 2004, quando fez a novela Malhação, e por trabalhos em produções como A força do querer, Justiça e Bom dia, Verônica, Pedro construiu uma trajetória diversa no audiovisual. No cinema, esteve no elenco de Canastra suja, Medida provisória e O silêncio da chuva, além do curta Nada de bom acontece depois dos 30, selecionado para o Short Film Corner do Festival de Cannes. Também dirigiu e produziu projetos musicais e culturais, incluindo o Show das poderosas, de Anitta.
Agora, a estreia internacional ganha um significado pessoal porque ele tem ascendência portuguesa, com raízes familiares no norte de Portugal.

Maria Rueff e Pedro Nercessian em Santo António, o casamenteiro de Lisboa. Crédito: Estelle Valente
O filme, que entra no circuito comercial a partir de quinta-feira (10), é dirigido por Ruben Alves, cineasta de A gaiola dourada, e reúne nomes como Rita Blanco, Joaquim Monchique, Joaquim de Almeida, Maria Rueff, Ana Bola, Maria João Bastos, Isabel Abreu, Albano Jerónimo, Inês Aires Pereira e João Catarré. A história combina romance, humor e questões contemporâneas ligadas às transformações de Lisboa, à preservação das tradições e aos efeitos do turismo. No centro dessa mistura está também o brasileiro interpretado por Nercessian, cuja trajetória de imigração dialoga diretamente com a sua própria história familiar.
Em entrevista à EntreRios, o artista falou sobre a estreia nos cinemas portugueses, a ligação familiar com Portugal e o desafio de interpretar um imigrante. O ator também refletiu sobre amor, as transformações da capital do país e o “heterotimismo” como uma forma de olhar para as relações.
Como surgiu o convite para o filme e o que ele representa para você?
Tenho um fascínio e uma ligação com o país que fui entendendo melhor depois de 2009. A história do meu personagem se cruza muito com a minha: meu avô, com quem conversei muito na época, é português do Norte, assim como o avô da ficção. Durante muito tempo, busquei essas raízes. Hoje tenho até um empresário no país. No meu aniversário de 40 anos, no ano passado, fiz o teste com o autor e o diretor, e ele gostou muito. Acho que não havia maneira melhor de estrear do que fazendo o papel de um imigrante brasileiro em Lisboa.

“Não tinha maneira melhor de estrear em Portugal”, diz Pedro Nercessian. Crédito: Estelle Valente
A história aborda tradição, turismo e as transformações de Lisboa. O que mais chamou sua atenção no roteiro?
Sou apaixonado por comédias, principalmente aquelas que fazem refletir. O diretor tem o talento de trazer todos esses temas de uma maneira leve, divertida. É uma comédia, essencialmente, mas também emociona e tem seus dramas.
Seu personagem é um brasileiro que chega a Portugal cercado de desconfiança. Como foi trabalhar esse aspecto?
Ele é um brasileiro de quem as pessoas desconfiam muito, e essa sensação de desencaixe está presente o tempo todo. Inclusive, o grande amor da vida dele tem suas desconfianças. Esse é o cerne da relação: esse sentimento é verdadeiro ou existe algum interesse por trás?
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Pedro Nercessian e Pedro Nuno em cena no longa. Crédito: Estelle Valente
Você acredita que a mistura de culturas pode ser uma potência?
Com certeza. Nosso filme é a prova: reúne pessoas de vários países e olhares sobre uma mesma cultura, respeitando as diferenças. O Brasil é um clássico dessa mistura, com todos os problemas que conhecemos, mas também com muitas qualidades que vieram justamente dessa diversidade.
Você se aproximou do público pelas redes e hoje fala muito sobre relações humanas. O que motivou essa mudança?
Estar mais perto do público, conhecer mais as pessoas e fazer com que elas conhecessem o meu universo. A internet tem seus problemas, como o hate e a disseminação de informações falsas, mas também proporciona essa proximidade. Hoje falo muito sobre relações, especialmente as amorosas.
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O carioca Pedro Nercessian diz que se considera romântico e respeita as diferentes formas de amar. Crédito: Divulgação
Você se considera romântico?
Sim, e sou um defensor do romantismo, mas não daquele ligado à misoginia e ao machismo, mas ao carinho, à parceria e às demonstrações de afeto. Também procuro respeitar as diferentes formas de amar. A maneira como o outro ama não invalida a nossa. Cada encontro é único, e estar aberto a entender como cada relação funciona tem me feito ter boas experiências e ser feliz.
Por que decidiu defender o que chama de “heterotimismo“ (otimismo hetero)?
Existe uma mania de reclamar dos relacionamentos na internet, mas quero falar também sobre as histórias que deram certo. Há muita gente vivendo feliz a dois, mas talvez isso seja menos instagramável. O amor real tem dificuldades, traições, desejos. Achar que uma relação vai nos privar de sentir desejo por outra pessoa ou de ter sentimentos que fogem do casamento perfeito vendido na internet pode colocar tudo a perder. Se conversarmos honestamente sobre isso, aumentamos as chances de uma união dar certo. Quero ser um bastião do “heterotimismo”.

Parte do elenco de Santo António, o casamenteiro de Lisboa. Crédito: Divulgação
E, já que falamos sobre Santo António, fez um pedido a ele?
Sim! Pedi para que a nossa vida prospere em todos os sentidos, sem também controlar ou botar o coitado de cabeça para baixo. Não vamos fazer isso com ele.
Amor com tradição
Inspirado na tradição dos Casamentos de Santo António, o longa Santo António, o casamenteiro de Lisboa, acompanha Carmo e Valentim, dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa que, após mais de 25 anos dedicados à organização daquele que é um dos eventos mais emblemáticos da cidade, recebem um ultimato: reinventar os Casamentos de Santo António ou assistir ao fim da tradição. Contra todas as probabilidades, lançam-se na missão de criar a edição mais memorável de sempre, provando que há tradições que continuam a fazer sentido e que a capital portuguesa não se explica sem elas.

Pedro Nercessian e Maria Rueff em cena no longa de Ruben Alves. Crédito: Divulgação
A chegada de Pedro Nercessian ao cinema português não parece, para o ator, uma experiência isolada. Ele pretende, agora, transformar a estreia internacional em uma nova frente de trabalho. Enquanto Santo António, o casamenteiro de Lisboa estará em cartaz nos cinemas portugueses, Pedro também rodará no Brasil O zelador, ao lado de Gregório Duvivier e Matheus Nachtergaele. A comédia, segundo ele, utiliza o humor para abordar questões sociais e o conflito entre modernidade e tradição. Ainda não há uma data de lançamento do longa.

Gregório Duvivier e Matheus Nachtergaele em O zelador, dirigido por Pedro Antônio. Crédito: Divulgação
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Jordan Alves