Aos 34 anos, Philippe Coutinho já rodou o suficiente pelo mundo da bola para conhecer a fundo a alma do torcedor de futebol. Cria do Vasco, vestiu camisas de clubes importantes como Liverpool, Barcelona e Bayern de Munique, entre outros, sem falar na maior de todas, a da seleção brasileira, na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Sua personalidade, porém, não lhe permitiu que assumisse de corpo e alma o papel de ídolo definitivo de um time, embora tenha sido protagonista em alguns. Tímido e moderado tanto nas entrevistas quanto nas redes sociais, o rapaz negou uma das maiores oportunidades que a bola lhe deu na vida: imortalizar-se como ídolo do Vasco, um clube de mais de 13 milhões de torcedores.
Jogou fora a grande chance ao vestir a camisa do Santos sete meses depois de abandonar o Vasco em pleno sábado de carnaval, decretando que aquele jogo contra o Volta Redonda seria o último pelo clube que dizia amar. Alegou, na época, a necessidade de priorizar a saúde mental e, assim, pulou fora do barco que ameaçava afundar, entre vaias de uma torcida sofrida com péssimos resultados. A gota d’água no mar revolto foi o empate em 1 a 1 com o Voltaço em seu próprio estádio, São Januário. Os vascaínos andavam tão sem esperança que, dos 10.031 ingressos disponibilizados, 1.519 encalharam. Portanto, apenas 8.512 pessoas estavam no estádio.
Nem todo mundo vaiou Philippe Coutinho. Ainda que os apupos tivessem partido das 8.512 bocas, dava para relevar, considerando uma das máximas do escritor e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues, que costumava dizer que “toda unanimidade é burra”. Mas Coutinho preferiu dar ouvido ao coro de insatisfeitos e jogar a toalha, ignorando um diagnóstico óbvio ao qual qualquer psicólogo, mesmo iniciante, chegaria: a torcida do Vasco também enfrenta há tempos problemas de saúde mental. Como ficar feliz com um empate em casa com o Volta Redonda? O torcedor paga ingresso com dinheiro suado, encara transporte público para ir ao estádio e, quando chega em casa, ainda tem que enfrentar a zoação do vizinho flamenguista. Tudo bem, a vaia não faz ninguém jogar melhor, pelo contrário, só aumenta a tensão e a insegurança, mas ela é tão comum quanto a bola, a grama, o apito do árbitro, a chuteira e o meião. Pra torcida do Vasco que há anos sofre com a falta de títulos, vaia nem é vaia. Vaia é muxoxo. Um muxoxinho de nada, que alivia a cabeça e o nó na garganta. Extravasa. E o amor volta depois de uma vitória, um gol ou um simples carrinho.
Mas, sete meses após esse rompimento, o ex-quase ídolo do Vasco foi chorar pitangas no Santos, no ombro do amigo Neymar. Reclamou das vaias da torcida do clube carioca e dos 10 milhões de dólares limpos que deixou para trás ao largar o Al Duhail, do Catar.
Fica a dúvida sobre a expectativa de Philippe Coutinho em relação a seu novo clube. Será que Neymar, o amigo que o convenceu a ir para o Santos, nunca lhe contou das vaias e xingamentos que o atormentam na Vila Belmiro quando as coisas vão mal? Será que Coutinho não viu na televisão, em algum momento da vida, os santistas revoltados no alambrado ou invadindo o campo? Pobre Philippe Coutinho. Chegou aos 34, já na curva descendente de prestígio e desempenho, sem senso crítico, acreditando que perdeu o carinho dos vascaínos por culpa do torcedor exigente e não pelo pouco que fez com a camisa que prometeu honrar. Contentou-se em ser apenas mais um mediano, entre tantos, a não entrar para a história gloriosa de uma galeria que tem Roberto Dinamite, Edmundo, Juninho Pernambucano e muitos outros imensos. E dificilmente terá um poster seu ao lado de Pelé, Zito e Neymar.
PS: Poucas horas após o ponto final deste texto, o Santos foi eliminado da Sul-Americana.

Marluci Martins