Motoristas foram às ruas de Portugal na segunda-feira (7) para protestar contra o aumento dos combustíveis. Em Sines, no distrito de Setúbal, uma marcha lenta com dezenas de veículos provocou filas de até 15 quilômetros nos acessos à refinaria da Galp. Quatro dias depois, o tema ganhou uma dimensão ainda maior: um alerta feito no Parlamento Europeu aponta para o risco de uma nova crise energética durante o inverno.
O protesto reuniu entre 60 e 100 veículos, segundo a Guarda Nacional Republicana (GNR). Os manifestantes partiram de localidades como Grândola, Santiago do Cacém e Vila Nova de Santo André e seguiram em direção à refinaria. Alguns exibiam cartazes com frases como “Basta ao aumento dos combustíveis” e “As famílias não aguentam mais”.
A mobilização ocorre em um momento de forte pressão sobre o orçamento das famílias portuguesas. Um levantamento divulgado nesta quinta-feira (10) mostra que 85% dos entrevistados em Portugal estão preocupados com o valor das contas de eletricidade e gás, enquanto 77% demonstram preocupação com os gastos com gasolina e gasóleo.
Custos de energia pressionam famílias portuguesas
A pesquisa do Secours Populaire Français, realizada em parceria com o instituto Ipsos e conduzida em dez países europeus, ouviu 10 mil pessoas sobre o impacto dos custos de energia no dia a dia. Em Portugal, 28% dos entrevistados afirmam abrir mão com frequência de despesas importantes, como alimentação e cuidados de saúde, para conseguir pagar as contas de energia. Em relação aos combustíveis, 30% dizem ter feito sacrifícios semelhantes.
O levantamento também mostra que as famílias portuguesas têm adotado medidas para reduzir o consumo. Entre os entrevistados, 57% dizem ter desligado o aquecimento em alguns cômodos, 38% limitaram a temperatura da casa a menos de 18 graus e 40% deixaram de utilizar determinados eletrodomésticos.
Em uma perspectiva mais ampla, sete em cada dez europeus consideram que o acesso à energia a preços acessíveis está pior hoje do que na época de seus pais. Os dados ajudam a dimensionar o impacto social do encarecimento da energia e explicam parte da insatisfação que levou motoristas portugueses às ruas.
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Preços dos combustíveis sobem em Portugal
A pressão sobre os consumidores acompanha uma trajetória de alta ao longo de 2026. Na semana de 7 a 13 de setembro, o preço médio da gasolina 95 simples chegou a cerca de 2,09 euros por litro, enquanto o gasóleo simples alcançou aproximadamente 2,10 euros. O valor do gasóleo atingiu, assim, um novo máximo no ano.
Segundo o governo português, o preço médio do gasóleo passou de 1,596 euro por litro, em 27 de fevereiro, para 2,029 euros em setembro, uma diferença de 43,3 centavos por litro. No mesmo período, a média da União Europeia subiu de 1,590 para 2,039 euros.
A Comissão Europeia acompanha semanalmente a evolução dos valores por meio do Weekly Oil Bulletin, que reúne os preços praticados nos 27 países do bloco. A edição mais recente foi publicada em 10 de setembro.
Governo atribui alta ao cenário internacional

Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente e Energia, esta semana em conferência de imprensa por causa do aumento dos combustíveis. Crédito Agência Lusa/Tiago Petinga
Para a ministra portuguesa do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a alta dos combustíveis no país está relacionada ao cenário internacional e acompanha, de modo geral, o movimento observado em outras nações europeias.
Segundo o governo, entre os fatores que pressionam o mercado estão a instabilidade geopolítica, os conflitos internacionais e a redução da capacidade de refino na Europa, inclusive em Portugal. A combinação desses elementos diminuiu a oferta disponível e elevou os custos dos derivados de petróleo.
Para tentar reduzir o impacto sobre consumidores e empresas, o Executivo mantém medidas fiscais. O desconto extraordinário no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) representa atualmente cerca de 23 centavos, já considerando o IVA, por litro de gasolina e gasóleo. O governo também decidiu prolongar o apoio ao gasóleo agrícola.
Apesar das medidas, a cotação internacional do petróleo continua sendo um dos principais fatores de pressão. O valor, que estava em 67,6 dólares por barril em 27 de fevereiro, alcançou 97,4 dólares em setembro, segundo dados apresentados pelo governo.
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A Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE) continua acompanhando diariamente a evolução dos preços de referência e divulgando relatórios semanais sobre o mercado.
Europa teme crise energética no inverno
O problema, porém, não se restringe a Portugal. Na quinta-feira (10), Simon Stiell, secretário executivo da ONU para as Alterações Climáticas, alertou durante uma intervenção no Parlamento Europeu que a dependência dos combustíveis fósseis pode levar o continente a enfrentar uma nova crise energética no próximo inverno.

Simon Stiell, Secretário Executivo da ONU falando sobre energias renováveis na Europa. Crédito: Lusa, Rajat Gupta
Depois de um verão marcado por temperaturas extremas e incêndios, Stiell afirmou que a dependência europeia de importações de combustíveis fósseis continua sendo uma vulnerabilidade econômica. Segundo ele, a volatilidade dos preços pode voltar a pressionar famílias, empresas e governos durante os meses mais frios.
O secretário defendeu uma aceleração da transição para fontes renováveis. Segundo Stiell, a expansão da energia limpa pode reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades econômicas.
Em Portugal, a insatisfação já chegou às ruas e o aumento dos custos pesa sobre o orçamento doméstico. No restante do continente, o cenário se soma ao desafio de garantir o abastecimento durante o inverno e diminuir a dependência de fontes fósseis.
A evolução das cotações internacionais, o cenário geopolítico e a capacidade dos países europeus de ampliar alternativas energéticas serão determinantes para definir o comportamento dos preços nos próximos meses.
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Susana Gaião Mota