Em uma Europa pressionada pelo turismo de massa, pequenas vilas portuguesas descobriram que a tranquilidade, antes vista como isolamento, tornou-se um ativo valioso. Um movimento vem ganhando força ao propor o contrário do lugar comum: permanecer mais tempo em um mesmo lugar, caminhar sem urgência e trocar a lógica do consumo, comum entre os visitantes, pela contemplação. É o turismo do silêncio.
A mudança acompanha um novo comportamento dos viajantes. Segundo o 2026 Trends Report, produzido pela rede hoteleira internacional Hilton, 56% das pessoas viajam principalmente para descansar, enquanto 26% planejam passeios sozinhas. Já o site Booking.com identifica um interesse crescente por áreas menos movimentadas e por maior contato com a natureza.
Em Portugal, a estratégia de descentralizar o turismo fortalece destinos fora dos circuitos tradicionais em um país que, somente no ano passado, recebeu 32,5 milhões de hóspedes e registrou 82,1 milhões de diárias, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). A tendência não sugere a ausência de atrações, mas a possibilidade de vivê-las de forma mais tranquila, sem que um atrativo dispute a atenção a cada instante.
Foi essa promessa que atraiu os holandeses Caroline van der Meer e Ronald van der Meer, de Roterdã. Caroline interrompeu uma frase que dizia ao companheiro. Van der Meer fez um gesto para que ela esperasse. Durante alguns segundos, o único som que atravessava o vale era o canto de uma ave. A cena aconteceu no Miradouro do Ujo, entre São Mamede de Ribatua e Safres, em Alijó. No observatório, que enquadra a paisagem do Douro, o casal preferiu ouvir o silêncio antes de voltar a conversar. “O sossego daqui é um dos pontos altos da nossa viagem. Gostamos de viajar por conta própria e sabíamos que encontraríamos outro ritmo”, disse ela.
Vieram pelos vinhos e ficaram pela calma e pela curiosidade de ouvir a coruja que dá nome ao miradouro. A poucos quilômetros dali, em Favaios, esse perfil de visitante já faz parte da rotina da Quanta Terra, projeto criado pelos enólogos Celso Pereira e Jorge Alves em uma antiga destilaria da Casa do Douro, hoje transformada em espaço de enoturismo, arte e cultura. Para Alves, estar fora do circuito mais movimentado do Douro tornou-se uma vantagem, preservando aquilo que é autêntico. As pessoas que vivem na região, segundo ele, não são personagens. “Trabalham aqui, vivem aqui. Esse é o nosso jeito de receber quem chega”.
De casa em ruínas a um dos refúgios mais acolhedores do Douro
Se Favaios convida à contemplação entre vinhas, Santar faz o mesmo entre jardins. A pequena vila do Dão foi o destino escolhido pela brasileira Letícia Mendes depois de um burnout. Ela queria apenas desacelerar. Apaixonada por jardins, caminhou sem pressa pelas ruas históricas e percebeu que fazia tempo que não olhava para o celular. “Não é uma viagem para conhecer muitos lugares. Eu quis caminhar, observar e aproveitar o tempo”.
A proposta se estende ao Valverde Santar Hotel Spa, instalado na Casa das Fidalgas, uma construção do século XVII. Para a COO do hotel, a brasileira Graziela Vieira da Rocha, a procura mudou.

Instalada na histórica Casa das Fidalgas, a propriedade que hoje abriga o Valverde Santar Hotel & Spa tem origens no século XVII e chegou a integrar o patrimônio da família real de Bragança. Crédito: Divulgação
Hoje, os hóspedes buscam privacidade e tranquilidade. E isso não está, necessariamente, ligado ao luxo ou a altos orçamentos. Tem mais a ver com simplicidade.
Você pode dormir em um hotel que já pertenceu à realeza portuguesa no coração do Dão
A mesma lógica orienta o projeto Santar Vila Jardim, que ligou antigas propriedades por um percurso entre jardins, vinhas e hortas, permitindo ao visitante descobrir o povoado sem pressa. É dessa relação entre deslocamento e contemplação que fala o historiador francês Alain Corbin em seu livro História do silêncio, ao lembrar que a quietude sempre esteve ligada ao encontro consigo mesmo. Talvez seja por isso que localidades como Favaios e Santar despertem cada vez mais interesse. Não porque ofereçam menos possibilidades, mas porque devolvem ao viajante algo cada vez mais raro: tempo para vivê-las.
Mais estrelas, menos ruídos
Criado pela Associação Dark Sky em 2007, o Dark Sky Alqueva, no Alentejo, foi o primeiro destino turístico do mundo a receber a certificação Starlight Tourism Destination. A baixa poluição luminosa transformou a observação das estrelas em um atrativo turístico, unindo natureza, caminhadas noturnas e astronomia.
Segundo a Agência Europeia do Ambiente, mais de 20% dos europeus estão expostos a níveis de ruído prejudiciais à saúde. A exposição prolongada aumenta o risco de estresse, distúrbios do sono e doenças cardiovasculares.
flavio@revistaentrerios.pt
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Flávio Oliveira