“Portugal tem um excesso de passado e uma falta de presente.” A frase do escritor português Rui Marques sintetiza a crítica que atravessa o livro O poeta em construção, apresentado na Feira do Livro do Porto 2026. Na obra, a poesia serve de ponto de partida para uma reflexão que vai do indivíduo à sociedade: assim como o homem muda a partir das experiências que acumula, também a maneira de um país olhar para a própria história pode — e, para Marques, deve — estar em permanente transformação.
Esta é a segunda participação do autor no evento. A primeira foi em 2022, quando apresentou Porto – um roteiro sentimental, obra dedicada a diferentes lugares e personagens da cidade, com passagens pelo Porto romântico, pelo Palácio de Cristal e por figuras que marcaram a memória local.
Quatro anos depois, ele retorna à feira com um trabalho diferente. Em O poeta em construção, parte de vivências pessoais para refletir sobre as diferentes fases da vida. O próprio título estabelece uma relação com o Brasil e com o poema O operário em construção, de Vinícius de Moraes.
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A referência não é casual. Para o escritor, esse processo de transformação é permanente, tanto para o poeta quanto para o indivíduo. “É um livro sobre a formação por meio das mudanças da vida, das experiências. No fundo, o poeta e o homem estão sempre em construção”, explica.
Rui Marques questiona a visão sobre a história portuguesa
A partir dessa perspectiva individual, o livro também se volta para uma questão coletiva: a relação dos portugueses com a própria trajetória. No poema Pátria, ele questiona a forma como o passado nacional é frequentemente contado a partir de uma perspectiva heroica, deixando menos espaço para suas contradições e episódios mais obscuros.
“Nós portugueses falamos dela como se não houvesse o outro lado, o lado crítico, o lado obscuro”, afirma.
Para o escritor, reconhecer esses aspectos menos celebrados do passado não significa negar sua importância, mas compreendê-lo também a partir de suas contradições. “É necessário sermos mais críticos sobre isso, porque é uma forma também de construirmos o presente”, diz ele.
Na visão de Marques, essa leitura mais questionadora ajuda Portugal a se relacionar de outra maneira com o próprio tempo, sem ficar restrito à imagem idealizada de uma era de heroísmo.
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Flávio Oliveira