A armadilha do FOMO: por que as redes sociais nos fazem sentir que nunca temos o suficiente?
- Lisboa
Março 26, 2026
Com as redes sociais, algo que antes não tinha tanto peso passou a ser amplamente exposto: sempre há alguém mais bonito, melhor, com mais sucesso e aparentemente mais feliz. As redes se tornaram um verdadeiro desfile de vaidades e exibições. Observar essa realidade constantemente nos dá a falsa impressão de que estamos perdendo o lado bom da vida.
Há uma sigla para essa sensação: Fomo, Fear of missing out, ou seja, medo de estar perdendo algo. Esse fenômeno psicológico da era digital cria a preocupação de que outras pessoas estejam vivendo experiências melhores, mais divertidas e interessantes, enquanto você fica de fora.
As redes nos fazem acreditar que tudo está ao nosso alcance, quando não está e nunca esteve. Nem todos podem ir para um resort na Polinésia Francesa, mas isso não significa que quem não pode não seja feliz. Viver conforme suas possibilidades não é infelicidade. Expectativas exageradas, sim, podem levar à sensação de que nada do que temos é suficiente.
Posso achar que, para ser feliz, preciso de vinte pares de sapato. Meus dez já são mais do que suficientes, mas a sociedade consumista me faz pensar que não.
Nas relações amorosas, a sensação de Fomo é amplificada. Cria-se a ideia, ou o receio, de que há parceiros “melhores” disponíveis. Ao ver imagens de pessoas vivendo situações amorosas ou sociais “perfeitas”, desvalorizamos o que temos, mesmo que seja valioso.
A intimidade exige partilha, confiança e vulnerabilidade. Muitos evitam expor medos e fragilidades por receio de serem julgados ou rejeitados, criando barreiras que dificultam conexões reais. Isso nos remete ao arquétipo junguiano da “criança eterna”, que não quer crescer e vive nos sonhos e no potencial não realizado. É o jovem que quer ser chefe sem nunca ter trabalhado, cantor sem ter cantado, jogador de futebol sem treinar.
A realidade é diferente, não vive de ideias, mas de possibilidades. Redes sociais e realidade parecem estar em pólos opostos. Por isso muitas pessoas que desejam viver a vida de forma mais autêntica usam as redes com moderação. Viver exige mais atenção, paciência e discernimento para não confundir vitrine com realidade. Enquanto sonhamos nas telas, a vida nos pede para manter os pés no chão e valorizar as conexões verdadeiras.
Essa coluna foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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