A arrogância de Neymar
Entre lampejos de talento e episódios de destempero, o jogador insiste em não amadurecer
- Brasil
Abril 16, 2026
Neymar chegou, em fevereiro, aos 34 anos, o dobro da idade que tinha quando se
tornou jogador profissional, e, mesmo famoso, rico e já atravessando a curva
descendente da carreira, mantém-se como um menino brigão da pelada da rua, que
peita a vizinhança, fica vermelho de raiva e volta pra casa emburrado. Nem dá pra
dizer que vem jogando mal. Tem bons lampejos do craque que foi e talvez até volte a
ser. Mas apaga cada assistência, cada gol, cada momento de clarão, com algum gesto
ou discurso impensado. É imaturo, mal-educado e arrogante. Sua prepotência não
combina com a fase apenas razoável que periga culminar com a ausência da Copa do
Mundo.
Acontece sempre. Pode até haver dúvidas sobre seu futebol, mas nenhuma em relação
ao destempero da semana contra árbitro, adversário ou torcida. Neymar em campo
tem sido garantia de polêmica. Na segunda rodada da Sul-Americana, no último dia 14,
o Menino da Vila, que se recusa a amadurecer, ficou um tempo no campo discutindo
com um grupo de torcedores do Santos que protestavam das cadeiras sociais. Chamou
um deles de gordinho, mandou calar a boca, disse que respeitava muito o clube, falou
uns palavrões e, enfim, se aproximou das sociais do alto de sua empáfia: “Vou te dar
um minuto de fama”, gritou, para o santista anônimo.
Reparem bem, nem falei do resultado do jogo em questão. Nem falei que Neymar
abriu o placar diante dos reservas do Deportivo Recoleta, modesto time do Paraguai,
na Vila Belmiro. Nem falei que o adversário empatou graças a um gol de pênalti de
Ortiz. É que o comportamento de Neymar tem apagado todo o resto. Contra o Remo,
em abril, pelo Campeonato Brasileiro, a arrogância de novo entrou em campo. O
atacante fingiu ler o nome escrito nas costas do uruguaio Diego Hernández, para lhe
perguntar: “Quem é você? Joga nada”. E encerrou o show de horrores dizendo, ao fim
da partida, que o árbitro Sávio Pereira Sampaio havia acordado “meio de chico”. Tudo
isso, aos 34 anos, o dobro da idade que tinha quando se tornou jogador profissional.
(Eu poderia falar também sobre o jogo contra o Vasco, dois meses antes, quando
Neymar simulou ter levado uma cabeçada de Thiago Mendes, e caiu estatelado,
rolando 180 graus na grama, mas é preciso terminar o texto antes que ele apronte
mais uma, ou isso aqui não terá fim jamais.)
Nem dá pra dizer que o camisa 10 está em desespero por ver cada vez mais em risco
sua chance de ir à Copa do Mundo. Basta voltar no tempo, Rio-2016, quando foi
protagonista da conquista do inédito ouro olímpico. O que Neymar fez, na decisão
contra a Alemanha? Fez um gol no tempo regulamentar e converteu o último pênalti
da vitória histórica. E, após a premiação, foi para a grade xingar um torcedor.
Transtornado, chegou a esmurrar uma bancada e acabou contido por seguranças. Ele
usava, na cabeça, uma faixa com a inscrição “100% Jesus”, e, no peito, a medalha de
ouro.
Neymar é xingado e apanha dos botinudos desde que escolheu a bola como profissão.
Estando ou não na boa fase na qual surfou por muito tempo, deveria saber que o
chuveiro pode ser o melhor companheiro de uma cabeça quente. A biografia de quem
chegou aos 34 anos não merece mais tamanho destempero.