Quando li a notícia, tomei um susto: Jesus voltou, dizia a manchete. Lembrei logo da minha avó, católica fervorosa, anunciando aos quatro cantos: “Quando Jesus voltar, o circo vai pegar fogo!”, para o pânico dos netos. Mas o Jesus da notícia era outro: o treinador de futebol, novo técnico da seleção portuguesa, cujo primeiro nome é Jorge.

Alívio. Os circos, os palhaços e os elefantes não estavam em risco. Nada de fim do mundo, e sim a esperança de Portugal chegar à final da próxima Copa do Mundo. O que não seria nenhum milagre. Assim como o mais famoso, o Jesus dos gramados veio do Oriente Médio, das Arábias, onde treinava o clube Al Nassr e o futebol ainda é jogado no ritmo do Antigo Testamento. Olho por olho, dente por dente, bola pra frente e seja o que Deus quiser. O que não muda, tanto lá quanto cá, é que ganhar é o paraíso, e perder, o inferno.

O primeiro milagre do treinador no novo emprego deve ser a multiplicação da torcida por Portugal. É bom lembrar que Jesus virou santo no carioca Flamengo. Ganhou tudo. Havia torcedor com tendinite no ombro de tanto levantar troféus. E, se os 50 milhões de flamenguistas seguirem fiéis ao técnico, a seleção lusa terá cinco vezes mais adeptos do que a população do país.

Publicidade

Já em campo, todo mundo sabe que o Jesus de Portugal não é cristão, e sim cristiano. Cristiano Ronaldo. Para ele, é Deus no céu e CR7 na Terra, de preferência na grande área e de frente para o gol. O treinador deixou claro que o único mandamento na seleção é tocar toda bola para o atacante, e quem desobedecer comete pecado capital, estadual e federal.

Quanto à idade avançada do jogador, Jesus disse que nem adianta tentar pegar Ronaldo pra Cristo. Se Noé velejava com 900 anos e Moisés, aos 120, abriu o Mar Vermelho, um jogador com quarenta e poucos é um menino. Por via das dúvidas, os portugueses já estão mexendo os pauzinhos com a Fifa para que chute na bengala seja punido com cartão vermelho direto.

Outra vantagem em ter Jesus no comando é que as contusões dos atletas tugas vão diminuir drasticamente. Basta o jogador cair no gramado, que o treinador vai lá e diz: “Levanta-te e corre!”. A es- tratégia só não funcionou quando ele treinou Neymar, pois aí já seria milagre demais.

Por essas e outras, acho que os portugueses escolheram o nome certo para carregar a cruz de uma seleção com bons jogadores, mas que nunca ganhou um título mundial. Afinal, quem sabe só mesmo Jesus na causa para transformar o futebol de Portugal da água para o vinho.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.

Assine aqui →