Acordo Mercosul-UE representa oportunidade que deve ser aproveitada, afirma representante da agência do comércio externo de Portugal
AICEP elaborou um estudo em que analisa setores e produtos que devem se beneficiar com exportações para o Mercosul
- Lisboa
Maio 7, 2026
No começo desse mês, entrou em vigor de maneira provisória o acordo Mercosul-União Europeia, que visa a criar uma zona de livre comércio em uma área com 31 países, população de 720 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 22 trilhões de dólares. O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas de importação para mais de cinco mil produtos, alcançando um total de 90% do comércio bilateral.
O acordo representa oportunidades de novas exportações tanto para Brasil quanto para Portugal. A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) já realizou um estudo completo sobre as possibilidades de ampliação das exportações de produtos portugueses para o Brasil, incluindo setores que serão beneficiados e outros que despertam preocupação para a economia portuguesa. O material completo pode ser conferido aqui. O órgão também realizou uma apresentação e um debate sobre o assunto.
Em entrevista exclusiva à EntreRios, o administrador da AICEP, Francisco Pinheiro Catalão, falou sobre as relações comerciais entre Brasil e Portugal, as possibilidades de exportação de novos produtos portugueses, além da atuação da própria AICEP no auxílio às empresas do país europeu. Segundo ele, as perspectivas são positivas e os setores que poderão ser impactados poderão se preparar para atenuar eventuais riscos.
Confira a entrevista na íntegra:

Quais são as grandes possibilidades de exportação de novos negócios e produtos para Portugal?
O estudo da AICEP identifica várias áreas com potencial relevante. Desde logo o setor agroalimentar, com produtos como vinho, azeite, frutas, queijos ou produtos transformados, que têm uma forte reputação de qualidade.
Mas não se trata apenas de agroalimentar. Há oportunidades muito interessantes em setores industriais e tecnológicos, como máquinas e equipamentos, componentes para material de transporte, metalomecânica, materiais de construção ou indústria farmacêutica. Além disso, não devemos olhar apenas para as exportações de bens. Há também oportunidades crescentes em serviços, tecnologia, engenharia ou parcerias industriais, sobretudo num contexto em que muitas empresas do Mercosul procuram modernizar cadeias de valor e integrar tecnologia europeia.
Acreditam que é possível equilibrar a balança comercial, hoje negativa para Portugal, com o Mercosul?
O objetivo não deve ser necessariamente equilibrar a balança comercial no curto prazo, mas sim aumentar o volume e a qualidade das trocas econômicas. Hoje Portugal tem uma balança comercial negativa com o Mercosul em parte porque importa matérias-primas e produtos agrícolas que são importantes para a economia europeia. Isso é estrutural.
O que o acordo pode fazer é criar melhores condições para aumentar as exportações portuguesas, sobretudo em setores industriais, tecnológicos e de valor acrescentado. Se as empresas portuguesas conseguirem aproveitar este novo enquadramento e ganhar quota nesses mercados, é natural que a relação comercial se torne mais equilibrada ao longo do tempo.
O essencial é perceber que estamos perante um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e uma das maiores áreas de comércio livre do mundo. Para as empresas portuguesas, isso representa uma oportunidade estratégica de longo prazo que deve ser aproveitada.
Pelo relatório produzido pela AICEP, produtos agroalimentares como queijos, vinhos, enchidos e azeites deverão beneficiar, mas nem todos, como é o caso das carnes bovinas. A que se deve essa diferença?
O acordo não tem impactos homogéneos em todos os setores. No caso de produtos como vinhos, azeites, queijos ou enchidos, estamos a falar de produtos com forte diferenciação, muitas vezes associados a indicações geográficas e a um posicionamento de qualidade. Isso permite às empresas portuguesas competir com valor acrescentado e beneficiar da redução de tarifas e da proteção de indicações geográficas no mercado do Mercosul.
Já em setores como o da carne bovina a realidade é diferente. Alguns países do Mercosul são grandes produtores e exportadores globais, com escalas produtivas muito significativas. Nesses casos, o acordo inclui mecanismos específicos, como quotas ou períodos de transição, precisamente para acomodar sensibilidades e evitar impactos abruptos em determinados setores europeus.
Ou seja, há áreas onde o acordo abre oportunidades claras para exportação europeia e outras em que a dinâmica comercial é diferente e exige maior acompanhamento e gestão de risco. É aí que a AICEP também pretende prestar o seu apoio.
Existe temor de algum setor português em relação a possíveis prejuízos com o acordo? Como têm trabalhado essa questão?
Sempre que se negoceia um acordo comercial desta dimensão é natural que existam preocupações em alguns setores. Isso faz parte do processo e deve ser tratado com transparência e informação. O que temos procurado fazer é precisamente disponibilizar análise rigorosa e apoiar os setores produtivos na compreensão das oportunidades e dos desafios. O estudo que divulgamos procura traduzir o acordo em impactos concretos por setor e por produto, permitindo às empresas perceber onde estão as oportunidades e onde será necessária uma maior adaptação.
A nossa abordagem passa também por ações de esclarecimento, trabalho com Associações Empresariais e acompanhamento individualizado às empresas. A mensagem é clara: os acordos comerciais não criam exportações por decreto, mas criam melhores condições para que as empresas que estejam preparadas possam crescer nesses mercados.
Por que grande parte do comércio realizado com o Mercosul é com o Brasil? Isso se deve à ligação natural entre os países? A intenção é ampliar essa relação com os demais países?
O Brasil é naturalmente o principal parceiro de Portugal dentro do Mercosul por várias razões. Em primeiro lugar, pela dimensão da economia e do mercado. Estamos a falar de um país com mais de 200 milhões de consumidores e com uma estrutura económica muito diversificada. Depois existe, obviamente, uma relação histórica, cultural e linguística muito forte que facilita as relações empresariais e institucionais. Isso cria um ambiente particularmente favorável para as empresas portuguesas.
Mas o acordo abre precisamente a possibilidade de diversificar mais a presença portuguesa na América Latina. Países como Argentina, Paraguai e Uruguai apresentam oportunidades interessantes em áreas como agroindústria, infraestruturas, energia, tecnologia ou equipamentos industriais. Um dos objetivos da AICEP é ajudar as empresas portuguesas a olhar para o Mercosul, através do país âncora que é o Brasil, de uma forma mais integrada, explorando também esses mercados.
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Como a AICEP já atua em relação ao contato das empresas portuguesas com o Mercosul e como deverá ser essa relação a partir de agora com o novo acordo?
A AICEP já tem uma presença consolidada nos mercados do Mercosul através da sua Rede Externa, em São Paulo, e do acompanhamento direto às empresas portuguesas que passa pela produção de inteligência econômica, apoio na definição de estratégias de entrada no mercado, identificação de parceiros locais e acompanhamento das empresas em processos de internacionalização. O que o acordo vem fazer é criar um enquadramento muito mais favorável para esse trabalho. A eliminação progressiva de tarifas, a redução de barreiras não tarifárias e uma maior previsibilidade regulatória vão facilitar o acesso das empresas portuguesas a estes mercados.
O papel da AICEP será, sobretudo, ajudar as empresas a transformar essa nova moldura institucional em oportunidades concretas de negócio, identificando nichos de mercado, apoiando a prospecção e acelerando parcerias locais. Estamos também a reforçar ações de capacitação e sessões de esclarecimento para que as empresas possam preparar-se antecipadamente para este novo contexto competitivo. Realizamos, aliás, no último dia 11 de março um workshop sobre as oportunidades para as empresas portuguesas com o Acordo UE-Mercosul que foi bastante concorrida, com cerca de 400 participantes.
renan@revistaentrerios.pt