Álvaro Filho lança “Eu não falo brasileiro”, crônicas sobre ser imigrante em Lisboa
Em “Eu não falo brasileiro”, o escritor pernambucano revela, com ironia e afeto, as contradições de viver entre o Brasil e Lisboa
- Lisboa
Outubro 29, 2025
Lisboa já foi, para Álvaro Filho, “a cidade possível”. Hoje, o escritor a vê transformar-se em “Lisbolândia”, uma espécie de parque temático para turistas e investidores, onde o cotidiano se esvazia do que antes era genuíno.
É desse olhar crítico e nostálgico que nasce Eu não falo brasileiro – crônicas de um imigrante em Lisboa (Prensa Guerrilha, 124 páginas, 14 euros), livro que reúne 25 textos publicados originalmente no jornal A Mensagem de Lisboa.
Neles, Álvaro, que vive na capital portuguesa há anos, examina o deslocamento não apenas geográfico, mas emocional de quem tenta continuar pertencendo a algum lugar.

Com uma prosa que alterna o humor ácido e a ternura de quem observa o mundo com estranhamento, o autor costura episódios de sua vida em Lisboa a cenas universais do ser migrante. Destaques para O meu vizinho Omar Sharif, Meu pequeno ilegal e Buro-Xenofobia, sobre o atual ataque institucional aos imigrantes no país.
LEIA TAMBÉM: “Ritas”, documentário sobre Rita Lee, estreia em Portugal
Em meio a sua rotina, Filho se depara com pequenas histórias de peixarias que desapareceram, apartamentos que encareceram e conversas onde o sotaque ainda denuncia o “outro”. “Lisboa ficou hostil”, diz ele, lembrando que, para o imigrante, o pertencimento é sempre negociado entre a saudade e a sobrevivência, entre o afeto e o aluguel.
Ao revisitar a crônica, gênero que o acompanhou desde o início da carreira, Filho volta ao formato que melhor acolhe suas inquietações. Entre risos e melancolia, suas palavras revelam que a migração não termina na chegada, ela se reinventa a cada esquina, no idioma que muda, no olhar que insiste em aprender o outro:
“Às vezes sinto que não tenho mais o que aprender em Lisboa.Talvez eu precise respirar um pouco do Brasil para voltar a falar esse tal de brasileiro”, confessa o autor.
Álvaro Filho assina uma coluna mensal de crônica na edição impressa da revista EntreRios.
