Startups brasileiras ampliam presença em Portugal e atraem novos investimentos
Empresas e investimentos cruzam o Atlântico e fincam raízes na Europa
- Porto
Novembro 18, 2025
A tecnologia é um importante motor da economia portuguesa. O programa Deep2Start, que destina 60 milhões de euros para projetos deep tech — ou tecnologia profunda — referente a startups e empresas que desenvolvem soluções com base em ciência e tecnologia, busca atrair o dobro em recursos privados, aproximar ciência e mercado e providenciar acesso a fundos europeus.
Somado ao pacote de 420 milhões de euros aprovado ano passado pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) — cuja expectativa é criar mais de mil vagas qualificadas — Portugal oferece uma oportunidade concreta de internacionalização para empresas brasileiras.
O Porto Digital, parque tecnológico sediado na capital pernambucana de Recife e gerenciado por uma entidade privada, sai na frente por ter fechado um alinhamento entre Apex, Sebrae, governo de Pernambuco e prefeitura municipal de Aveiro na criação do Cais do Porto, braço da instituição no país luso.
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Com 340 mil euros investidos desde a fundação, a iniciativa conta com recursos públicos e privados luso-brasileiros, além de um processo bem definido, pensado com uma estratégia comercial de longo prazo e, também, de mudança de mentalidade.
Desde 2023, a associação na Europa já apoiou 45 empresas brasileiras em expansão para o exterior, segundo a instituição. A estrutura atua, dentre outras coisas, como mediadora institucional.
O setor de tecnologia, segundo seus representantes, é composto majoritariamente por profissionais de alta qualificação e capacidade de enxergar os melhores caminhos. É o caso do pernambucano Arthur Sá, CMO da Mesa, cuja expansão europeia já estava no radar.
O plano inicial eram os Estados Unidos, mas a intenção foi redirecionada devido à chegada do Porto Digital Europa para dar assistência a iniciativas nacionais.
A Mesa é uma consultoria que ajuda empresas a tirar do papel produtos digitais, como sites, plataformas e aplicativos, atuando com clientes em áreas diversas: de energia e saúde até o varejo e o setor financeiro.
“A Mesa trabalha com o desenvolvimento de produtos digitais, desde a concepção até o desenvolvimento, testes e evolução contínua”, explica Sá. “Usamos metodologias como design thinking, inception, design sprint. Não se trata apenas de entregar código”.
Francisco Neves, também de Pernambuco, mudou-se, há dois anos, com a mulher, o filho e o cachorro para Vila Nova de Gaia, no Norte, com o objetivo de expandir a atuação da Guestdash, plataforma que facilita a comunicação entre hotéis e seus hóspedes, substituindo as tradicionais ligações telefônicas por atendimentos digitais via WhatsApp.
“No Brasil, já atendíamos marcas da rede hoteleira, como o Porto Sol, em Santa Catarina, e a SoleLuna Casa Pousada, na Bahia. Portugal foi uma escolha natural porque o país oferece um ambiente propício para empreender e testar soluções inovadoras no mercado europeu”.
No setor criativo, Caio Danyalgil, que também vem de Pernambuco, apostou em um modelo baseado em compartilhamento de equipamentos audiovisuais. À frente da LOC, ele oferece uma solução híbrida entre aluguel, venda e, quando possível, empréstimo de câmeras e acessórios para produções independentes, tudo online.
“Portugal é um território mais complexo que o Brasil, com desafios de pagamento, contratos e diferenças culturais”, explica Danyalgil. “Cada palavra precisa ser adaptada ao português de Portugal, nas redes sociais, no atendimento. Isso exige muita energia”.
O contexto político também interfere no desempenho final. “Existe uma virada à direita do governo português para tentar barrar a imigração e dificultar os processos”, diz Marcela Valença, country operations manager do grupo. Nesse cenário, trava-se um debate que vai além da tecnologia.

“Problematizar a imigração seria prejudicar, inclusive, o desenvolvimento e a própria sustentabilidade financeira e econômica do país”.
Mesmo com o clima político adverso, a inovação brasileira avança em Portugal. A travessia está em curso e, para quem aposta nessa ponte tecnológica entre Brasil e Europa, o futuro se desenha não só em códigos e conexões mas, também, em persistência.
Essa matéria foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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