Amor ou ilusão? Os jogos emocionais das relações modernas
Love Bombing, Ghosting e Benching são algumas das palavras que definem relacionamentos líquidos
- Lisboa
Abril 7, 2026
Uma das principais razões, atualmente, para ficar de “coração partido” é o desfecho de muitas relações amorosas. Love Bombing, Ghosting, Benching e Síndrome do coração partido são algumas das expressões que definem os novos tipos de relação na era das redes sociais
Muitas pessoas arriscam se relacionar com alguém que lhes promete o céu para depois as largar no inferno da incerteza, da solidão e da baixa autoestima, pessoas que muitas vezes até já estão fragilizadas por vivências anteriores. E os casos são tão graves que há relações em que as “vítimas” de um(a) sedutor(a) se ligam emocionalmente ao outro sem sequer terem se conhecido previamente. Pessoas que falam todos os dias pelas redes sociais, como se fossem namorados, mas que, na verdade, nunca se viram. Outras vezes, acontece um envolvimento físico e emocional que termina de forma bem diferente do que foi idealizado pelas vítimas.
As redes sociais, especialmente os sites de encontros, pela forma como são concebidos e utilizados, permitem uma sedução avassaladora que, muitas vezes, é seguida de um corte radical.
É uma realidade tão atual que esse tipo de comportamento social e afetivo ganhou nomes próprios e passou a ser estudado por sociólogos, psicólogos e até filósofos.
Já nos anos 1960, o polonês Zygmunt Bauman, autor de mais de 50 livros, introduziu o conceito de “modernidade líquida”. Durante a Revolução Industrial, quando as relações econômicas passaram a ser priorizadas em detrimento das relações humanas, cresceu a convicção de que “a mudança é a única coisa permanente, e a incerteza, a única certeza”.
Nesse mundo de avanços e recuos, que gera cada vez mais angústia na busca pelo prazer imediato, as pessoas com a chamada Síndrome de Peter Pan — que não querem crescer — contribuíram para um aumento das relações líquidas: relações que hoje são tudo e amanhã já não existem mais, que, sem percebermos porquê nem quando terminam sem razão aparente.
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Love Bombing
Se pudermos traçar uma cronologia das relações líquidas e tóxicas, normalmente elas começam pela abordagem: Love Bombing, ou “bombardeio de amor”. Como o próprio nome sugere, é uma forma de aproximação em que o sedutor faz demonstrações exageradas de atenção e afeto a alguém que mal conhece, com o objetivo de fazer com que o outro se sinta valorizado e especial.
O problema é que esse bombardeio, por não ser sincero, pode fazer parte de um ciclo de abusos. Assim que a vítima é conquistada, o abusador perde o interesse, e, a partir daí, outros comportamentos passam a surgir.
Ghosting
Um dos mais comuns é o Ghosting, palavra inglesa derivada de “fantasma”, em que a pessoa some de forma repentina, sem explicações ou aviso prévio, e posteriormente ignora qualquer tentativa de contato. O Ghosting também pode ocorrer com amigos, familiares ou colegas de trabalho, mas, sem dúvida, é nas relações amorosas que causa maior impacto.
Para alguém com padrões de vínculo seguros, é difícil entender esse comportamento. Mas, se pensarmos que muitos adultos se comportam como adolescentes, percebemos que, para eles, é mais fácil desaparecer do que passar pelo desconforto de um término.
Benching
Outra forma de abuso emocional é confundir a vítima com um comportamento ambíguo: o chamado Benching, mais uma palavra inglesa que significa deixar a outra pessoa “na reserva”, esperando. A vítima fica “no banco” até que o sedutor resolva aparecer novamente, do nada e sem dar explicações.
Quem usa essa estratégia não tem a intenção de desenvolver uma relação. Pretende apenas usar o outro para algum fim — por exemplo, manter várias relações simultaneamente ou garantir que aquela pessoa esteja disponível quando precisar de apoio ou envolvimento físico.
Ser um Don Juan, hoje em dia, é adotar a técnica do Catch and release, um comportamento comum em pessoas que adoram a conquista. Assim que conseguem o que querem e começam a se apegar, perdem o interesse e vão embora.
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Os relacionamentos tradicionais, em que as pessoas se encontram, passam tempo juntas e se interessam genuinamente em conhecer e agradar o outro, parecem estar sendo substituídos pelos relacionamentos virtuais, praticados nas redes sociais e em sites de encontros.
Pode até parecer inofensivo que alguém que mal conhecemos fale, deixe de falar, desapareça e reapareça. Mas, se nos colocarmos no lugar da vítima, que anseia por uma relação amorosa, percebemos que são criadas expectativas que, quando não correspondidas, geram grande ansiedade e decepção.
Se pensarmos que uma relação deve ser um espaço de segurança, verdade, amor e companheirismo, fica claro que esses comportamentos são o oposto disso.
Quem são as vítimas e quem são os agressores nessas novas relações?
Geralmente, as vítimas são pessoas carentes, com histórico de relações afetivas difíceis ou oriundas de famílias disfuncionais, com baixa autoestima e claros problemas de dependência emocional. Acreditam que sua felicidade depende da outra pessoa.
Já os agressores costumam ser egocêntricos, impulsivos e narcisistas — pessoas vaidosas, que se consideram superiores, muitas vezes promíscuas ou com traumas não resolvidos, que vivem de desafios e conquistas que alimentam seu ego ferido. São dois tipos de personalidade que se atraem por necessidades complementares: uns buscam atenção, outros, valorização e poder pessoal.
Conhecer as pessoas, seus hábitos e sua história é fundamental. E mais importante do que o que as pessoas dizem é o que elas fazem.
Quando alguém não é empático, sua comunicação não é clara — e isso gera decepções, mal-entendidos, mentiras, frustrações e conflitos.
A responsabilidade emocional é a consciência que deve orientar nossas ações em relação às emoções das outras pessoas. É comunicar com clareza e sinceridade nossas intenções nos relacionamentos.
Pessoas seguras e emocionalmente responsáveis são diretas e verdadeiras. Explicam o que sentem, o que querem e até que ponto estão disponíveis, ou não, para atender às expectativas do outro.
Relacionar-se com alguém saudável e verdadeiro é a melhor forma de realização pessoal e emocional. E, se é verdade que todos corremos o risco de sermos enganados um dia, também é verdade que, no momento em que percebemos isso, só há um caminho: sair dessa situação o mais rápido possível.
susana@revistaentrerios.pt