É impossível não ver o dedo de Donald Trump na bomba que caiu sobre o mundo transgênero há cinco meses, com a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) de procurar chifre em cabeça de cavalo, ou, em outras palavras, catar em atletas o tal gene SRY do cromossomo Y. O gene cuja sigla significa Sex-determining Region Y é a rebimboca dessa parafuseta toda, um indicador que determina o sexo biológico de uma pessoa. É, portanto, o dedo duro que, em um teste de sexo, aponta para a mulher trans, decretando sua reprovação. E, consequentemente, o banimento de uma competição esportiva para a qual passou a vida se preparando.
A política do COI de proibir a participação de atletas trans em competições femininas teve a adesão da Confederação Brasileira de Vôlei, que optou também por banir esse grupo das suas disputas. Uma decisão que afeta a ponteira Tiffany Abreu, do Osasco, há quase uma década prestando bons serviços ao vôlei nacional. Com o novo regulamento, ela será excluída automaticamente das competições.
A nova premissa capitaneada pelo COI, a dois anos dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, coroa a política dura de Trump contra os transgêneros. Em fevereiro, o presidente dos Estados Unidos assinou uma ordem executiva proibindo a participação de mulheres trans em competições esportivas do país. “De agora em diante, os esportes femininos serão apenas para mulheres”, sentenciou Trump. Apesar da escancarada pressão americana, a presidente do COI, Kirsty Coventry, negou a influência.
Je suis désolé, mas a literatura está aí para provar que o Barão de Coubertin criou os Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896, já inaugurando o preconceito de gênero ao ser contra a participação feminina na disputa. A mulher começou a ocupar seu espaço somente na segunda edição dos Jogos, quatro anos depois, com 22 representantes entre 997 atletas. Chegamos à paridade, enfim, na Olimpíada da França, em 2024, a primeira edição com igualdade numérica entre homens e mulheres: 5.250 atletas de cada sexo.
Mas ainda não se pode acreditar na máxima de que o esporte é inclusivo. O importante não é competir. É dominar o mundo, é vasculhar os cromossomos alheios, é vestir rosa em quem é XX, é vestir azul em quem é XY. A atleta trans ganha, agora, mais um X: na testa. Dane-se se a terapia hormonal deu certo e derrubou os níveis de testosterona, igualando as atletas transexuais às mulheres biológicas. Esporte inclusivo? Onde?