Atlético-MG e Botafogo vão do céu ao inferno sem escalas
Clubes que fizeram a final da Libertadores de 2024 se afundam em crise e reforçam que SAF não é o remédio para todos os males
- Brasil
Abril 28, 2026
O futebol brasileiro adora vender redenções rápidas e milagrosas — e as SAFs, as chamadas SADs em Portugal, surgiram como a promessa mais sedutora dos últimos anos. Embalado em um pacote que continha profissionalização, governança e fim do improviso, o novo modelo de gestão foi apresentado como solução para os problemas de grandes clubes em apuros. Dois deles, Atlético-MG e Botafogo, pareciam ser as vitrines desses novos tempos. Em 2024, fizeram a final da Copa Libertadores — a Champions League da América do Sul — vencida pelo alvinegro carioca. Mas, em menos de 24 meses, o barco começou a fazer água.
O que se vê hoje é um contraste incômodo entre a expectativa criada e a realidade entregue. No caso do Botafogo, a crise extrapola as quatro linhas — e tem nome e sobrenome. O americano John Textor, figura central do projeto, passou de ídolo da torcida e símbolo da modernização a personagem de um enredo marcado por ruídos, acusações e incertezas. As dificuldades do grupo Eagle Football, que controla o clube, e os movimentos recentes que culminaram com o afastamento de Textor e a passagem de bastão para Durcesio Mello, presidente da associação, recolocam dúvidas que pareciam superadas: quem, de fato, manda e investe?
Essa incerteza, em uma instituição que deve R$ 2,7 bilhões, é mais do que preocupante. A crise já impacta o desempenho em campo. O time não se classificou para a semifinal do Carioca, foi eliminado na fase preliminar da Libertadores e ocupa apenas a oitava colocação no Brasileirão — campeonato que venceu há dois anos, após 29 sem conquistar o título.
Adversário do Botafogo naquela final de 2024, o Atlético-MG vive um terremoto esportivo. O elenco caro, montado para disputar títulos, não responde em campo. O time oscila, acumula frustrações e parece distante da consistência que se espera de um projeto sólido. No Brasileiro, tem a mesma pontuação do Santos, primeiro time na zona de rebaixamento.
Um episódio recente escancara o momento do clube. Maior ídolo do atual elenco, o atacante Hulk foi retirado do jogo contra o Flamengo minutos antes de a equipe entrar em campo — um gesto deselegante e desrespeitoso com um jogador que foi decisivo nos últimos títulos do clube. Sem Hulk, o time foi goleado em casa, na Arena MRV, por 4 a 0. Infeliz e sem clima em Belo Horizonte, o atacante negocia sua saída para o Fluminense. Se a transferência se concretizar, sairá sem sequer um jogo de despedida — um desfecho melancólico para um dos principais nomes da história recente do clube.
SAF não é milagre
A transformação de um clube em empresa pode melhorar processos, atrair investimento e dar mais racionalidade às decisões. Mas não elimina variáveis que seguem presentes no futebol brasileiro: escolhas erradas, leitura equivocada de mercado, pressão por resultados e, sobretudo, a dificuldade de sustentar projetos de longo prazo. No Brasil, a linha entre o acerto e o fracasso segue tênue — com ou sem troca de CNPJ.
O caso de Atlético-MG e Botafogo escancara isso. O sucesso de 2024 não garantia continuidade, assim como o momento atual não é sentença definitiva de fracasso. Revela, isso sim, um traço recorrente do futebol brasileiro: a pressa em transformar qualquer avanço em solução mágica.
Talvez o maior erro tenha sido acreditar que a SAF mudaria o futebol brasileiro no mesmo ritmo em que alterou a arquitetura jurídica dos clubes. Não mudou. E dificilmente mudará sem tempo, consistência e, principalmente, capacidade de atravessar crises sem recomeçar do zero a cada nova tempestade.