Atrasos nos aeroportos afetam o turismo e podem travar a economia portuguesa
Para o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens as longas filas de espera na imigração se tornaram um problema “pior que estava há um ano”
- Lisboa
Junho 18, 2026
A implementação gradual do novo Sistema de Entrada e Saída da União Europeia (SES/EES), que começou a funcionar no ano passado, tem causado longas filas na imigração para a entrada e saída de Portugal, inclusive com relatos de diversos passageiros que têm perdido seus voos em conexões e escalas.
Os atrasos afetam especialmente os passageiros que vem de fora do Espaço Schengen, o que incluem os brasileiros. O mais afetado desde o ano passado foi o aeroporto de Lisboa, que já chegou a ter filas de mais de seis horas de duração no final do ano passado, mas os atrasos também têm afetado os terminais do Porto e de Faro.
LEIA MAIS: Portugal tem aeroporto no ranking dos piores da Europa em atrasos
A Polícia de Segurança Pública (PSP) registrou quase 6,3 milhões de passageiros em todos os aeroportos nacionais nos primeiros quatro meses deste ano que vieram de fora do Espaço Schengen, o que tem feito com que as filas se tornem um cenário constante no país.
Lisboa é o que mais recebe cidadãos de fora da União Europeia (com mais de 10 milhões ao ano), enquanto o aeroporto de Faro é o que recebe mais proporcionalmente (cerca de 50% dos passageiros vem de fora do espaço).
As más experiências nos aeroportos portugueses já tem provocado impactos diretos e indiretos negativos para o setor de turismo, um dos mais significativos para a economia portuguesa.
Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, afirma que não há uma quantificação dos prejuízos, mas destaca que os impactos dos atrasos possuem óbvias consequências negativas para o turismo. “Os problemas são um misto de falta de estrutura, falta de pessoal e das falhas no sistema de biometria. Esperamos que as medidas que o Governo está implementando possam minimizar os impactos”, destaca ele.
Recentemente, o Governo admitiu que os atrasos são prejudiciais e que trazem uma imagem negativa para o país e anunciou que, a partir desse mês, o aeroporto deve contar com mais 48 agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), ampliação do número de cabines de 20 para 34 e de cabines de saída para 18, além de mais portas eletrônicas de controle automático de passaportes, conhecidas como e-gates.
Além disso, Portugal deve incorporar 360 novos agentes à Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF), que serão distribuídos pelos aeroportos do país.
“O Ministro da Administração Interna (Luís Neves) demonstrou conhecimento do problema e deu-nos garantias de firmeza, competência e liderança para encontrar uma solução rápida e eficaz, que não coloque em causa a época alta turística. Essas medidas precisam ser implementadas para melhorar a resposta aos passageiros nos principais aeroportos do país”, ressaltou.
Já o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), Miguel Quintas, destacou que os principais danos são reputacionais e que eles se estendem ao longo do tempo, a longo prazo. “Sabemos que a reputação é rápida a perder e difícil para construir”, diz.
Ele afirma, porém, que alguns impactos já podem ser sentidos a curto prazo e aponta como exemplo o caso de parceiros internacionais que têm alegado que alguns de seus clientes já tem desistido de ir a Portugal e tem optado por outros destinos.
“As pessoas naturalmente não querem fazer um voo de duas ou três horas para depois estarem e depois estarem mais duas horas em filas para entrar no país e depois para sair novamente”, ressalta ele.
O executivo cita o caso de países, como a Grécia, que durante um período de tempo retirou o controle biométrico de algumas ilhas mais turísticas para que não houvesse atrasos. O país é um dos apontados por Miguel como os procurados pelos turistas em substituição a Portugal.
A Lusa também noticiou que agências de viagens do Algarve, em Portimão, Albufeira e Vilamoura, tem reclamado sobre os atrasos para o desembarque dos passageiros no aeroporto de Faro, o que tem arranhado a imagem do local por conta da má experiência para o viajante.
O presidente da Associação destaca que a ANAV foi a primeira associação a falar com o Governo sobre esses impactos há mais de um ano. “A verdade é que passado um ano estamos piores do que antes, mesmo com cinco ministros a olhar para o problema”, dispara.
Embora ressalte que o Poder Executivo tem aberto espaço para o diálogo e tem reconhecido o problema, ele se mostra pessimista quanto às medidas anunciadas pelo governo. “As medidas até agora são insuficientes e posso afirmar com elevado grau de certeza que as medidas que estão a ser implementadas não vão solucionar a questão para o verão”, critica.
Segundo ele, há problemas diversos, como aqueles a nível de infraestrutura com máquinas que não funcionam, com tecnologias que não estão interligadas ao sistema europeu de biometria, com servidores, com serviços de comunicação de internet e também com a falta de recursos humanos suficientes.
“Há problemas de falta de boxes nos aeroportos, de pessoas para dar indicações e de falta de locais para que os passageiros que chegam possam se acomodar durante as filas. Também há questões sobre de onde virão os efetivos a mais para trabalhar nos aeroportos”, elenca, relembrando que a chegada em outros aeroportos, como o de Madrid é eficiente e não toma mais que dez minutos para a passagem no controle de fronteiras.
A Deco, Associação de Consumidores de Portugal, também tem defendido que haja um mecanismo de compensação para os turistas que tiveram prejuízos causados por atrasos e pelas perdas de seus voos.
LEIA MAIS: Caos no aeroporto de Lisboa: filas, suspensão do sistema eletrônico e anúncio de novos investimentos
“A DECO apela à criação de um mecanismo de compensação que, rapidamente, garanta os direitos dos passageiros, em especial daqueles que, comparecendo no aeroporto com a antecedência devida, são impedidos de embarcar por constrangimentos alheios”, afirmou em comunicado.
Segundo a Associação, poderá haverá responsabilidade do Estado e eventualmente da própria infraestrutura aeroportuária. Isso porque os longos tempos de espera registrados no país não estão relacionados com problemas no funcionamento do Sistema de Entrada/Saída (EES), conforme apontado pela Comissão Europeia em inspeção surpresa realizada ao país no final do ano passado.
“Essa inspeção detectou “graves deficiências” no controlo de fronteiras, particularmente no Aeroporto Humberto Delgado, relacionadas com recursos humanos, falta de equipamentos e a simplificação sistemática de procedimentos de segurança”, ressaltou em comunicado.
renan@revistaentrerios.pt