Portugal é um dos destinos mais cobiçados da Europa por viajantes em motorhome, conhecido como autocaravana. O clima ameno, a extensa costa atlântica e a segurança são determinantes para o crescimento desse tipo de viagem.
No verão, o movimento se intensifica, atraindo turistas em busca de liberdade, natureza e roteiros flexíveis. Nos levantamentos da rede europeia Camping-Car Park, o país aparece como o segundo destino estrangeiro mais procurado por autocaravanistas nesta época, atrás apenas da Itália.
Estima-se que o turismo em motorhome movimente 1,54 bilhão de euros na Europa durante a temporada. Apesar de ser um país pequeno, Portugal oferece grande variedade de paisagens e experiências para quem viaja sobre rodas. Os destinos mais procurados são Algarve, Costa Vicentina, Vale do Douro e Serra da Estrela, além de Lisboa e Porto.
As regiões costeiras lideram, mas cresce o interesse por áreas rurais, aldeias históricas e regiões vinícolas, menos conhecidas pelo grande público. Para os adeptos das autocaravanas, a vivência é mais do que turismo, é um estilo de vida.
LEIA TAMBÉM Um novo jeito de conhecer o Douro que une arte, arquitetura e vinho
Ricardo Santos e Sara Neto, de Leiria, mantêm o hábito do caravanismo há sete anos, sempre na companhia do filho Rafael, hoje com 9 anos.

Experientes, compartilham a lista de itens essenciais: água potável, equipamentos para preparar refeições simples, internet e eletricidade. “Eu adoro dirigir. Só de sentar ao volante e rodar sem destino já fico feliz”, conta Santos. “Às vezes chegamos a um cruzamento e decidimos na hora se vamos para a esquerda ou para a direita. Não precisamos nos preocupar com hospedagem nem com roteiros fixos. E essa liberdade é o que mais aprecio”.
Os recentes dias livres levaram a família à Ericeira, onde estacionaram a ‘casa móvel’ em uma Área de Serviço para Autocaravanas (ASA).
Tendo o mar como cenário, o clima é de tranquilidade. Rafael brinca de bola enquanto os pais aproveitam o sol em cadeiras portáteis ao lado da campervan. “É dessa simplicidade e paz que eu gosto”, diz Sara.
Para ela, o essencial é transportar apenas o necessário, sem excessos. “Autocaravanas de luxo, com Bimby (robô de cozinha) e café expresso, acabam distorcendo o espírito do autocaravanismo. Fundamentais são as pranchas de surf e os meios de transporte alternativos, como as bicicletas e uma moto, para explorar os locais”.
LEIA TAMBÉM Vai visitar a Torre de Belém? Monumento passa a limitar número de visitantes; veja como funciona
Outro aspecto muito valorizado pelos viajantes é a facilidade de criar conexões. Foi o que aconteceu com David Brasete, 60 anos, aposentado, que reencontrou a família de Ricardo e Sara na Ericeira.

Amigos há mais de 25 anos, eles se conheceram em uma concentração de motos no Algarve e, com o tempo, também devido ao aumento das famílias, todos migraram do transporte de duas rodas para o de quatro. Depois do encontro, o casal Santos seguiu para Peniche, onde se reuniu com outros parentes, também autocaravanistas.
Entre praia, surf e convivência, o fim de semana prolongado terminou com a sensação de liberdade total. “Podemos mudar os planos a qualquer momento. Se um lugar está cheio ou com clima ruim, seguimos viagem sem perder tempo, e isso só é possível deste jeito”, resume Santos.

Estacionamento e pernoite
O Turismo de Portugal criou o programa de Autocaravanismo Responsável, que incentiva a utilização de uma rede nacional de ASA, espaços que permitem pernoite, abastecimento de água, descarte de resíduos e uso de energia elétrica, promovendo estadias mais sustentáveis e reguladas.
Em comparação com campings tradicionais, oferecem menos estrutura, mas também são mais econômicos e tranquilos. Na Ericeira, por exemplo, a ASA atualmente é gratuita, enquanto parques de campismo na Costa Alentejana podem custar entre 25 e 45 euros por noite, dependendo da temporada.
Desde 2021, a legislação portuguesa passou a estabelecer regras mais claras sobre estacionamento e pernoite. Em áreas protegidas, como parques naturais, é proibido dormir, com multas que variam entre 60 e 300 euros.
Crescimento do autocaravismo
Em 2010, havia cerca de cinco mil motorhomes registrados. Em 2024, esse número já chegava a 26.562 unidades. As vendas também acompanham essa tendência: passaram de 219 unidades vendidas em 2017 para 471 em 2024. O mercado apresenta perfis variados, com motorhomes com quarto extra sobre a cabine do condutor, comuns entre famílias; modelos semi-integrados ou integrados (ou seja, com separação da cabine do condutor ou incorporados em um espaço único), preferidos por casais sem filhos; e campervans e vans convertidas, segmento que mais cresce entre os viajantes jovens.
Os preços variam entre 50 e 100 mil euros nos modelos novos, mas podem ser bem mais altos nas versões de luxo. Já no mercado de usados, os valores ficam entre 15 e 50 mil euros, dependendo do estado de conservação e dos equipamentos.

Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.
susana@revistaentrerios.pt