Barbixas trazem “Improvável” a Braga, Porto e Lisboa em setembro
Elidio Sanna fala sobre a conexão com o público português, os bastidores da improvisação e os limites da comédia na atualidade
- Lisboa
Setembro 3, 2025
Depois de atrair mais de 5.500 espectadores na temporada de 2024, a Cia. Barbixas volta a Portugal em setembro com o espetáculo “Improvável”, que já conquistou plateias no Brasil e no exterior pelo humor rápido e imprevisível. A turnê terá apresentações em Braga (4/09), Porto (6 e 7/09) e Lisboa (10 e 11/09).
Conversamos com Elidio Sanna, um dos integrantes do trio formado também por Anderson Bizzocchi e Daniel Nascimento, para falar sobre a relação do grupo com o público português, bastidores do espetáculo e os desafios de fazer humor em tempos de fronteiras éticas e jurídicas.
“O primeiro contato com Portugal veio pela comédia”
Elidio conta que o vínculo com o público português começou de forma curiosa: “Nosso primeiro contato com Portugal foi assistindo Gato Fedorento. A gente não entendia tudo, claro, porque a comédia depende muito de referências locais. Mas foi aí que começamos a olhar para Portugal com outros olhos”.
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A estreia em solo português veio em 2010, numa iniciativa ousada para a época: “Naquela ocasião, havia muitos brasileiros em Portugal e a maioria da nossa plateia era formada por eles. Depois disso, ficamos um tempo sem voltar. Mas quando retornamos, por volta de 2016 ou 2017, o público português já tinha tomado conta das cadeiras”.
“Hoje, o público português entende nosso tempo cômico melhor do que o brasileiro”

Segundo Elidio, essa aproximação foi fortalecida pela internet e pela TV: “O português está mais acostumado com o nosso português do Brasil do que o contrário. Eles consomem nossa cultura há muito tempo, seja por novelas, música ou comédia. Em Portugal, ouço música brasileira, angolana e cabo-verdiana. Já no Brasil, parece que somos uma ilha linguística”.
No palco, esse intercâmbio cultural se transforma em diversão até mesmo quando as palavras escapam: “Às vezes recebemos um tema da plateia e não sabemos o que significa. Já aconteceu de nos darem o mesmo tema dois anos seguidos e a gente continuar sem entender. A plateia ri da nossa ignorância. E isso também é comédia”.
Os limites do humor
Elidio também compartilhou sua visão sobre os debates em torno dos limites do humor, principalmente no Brasil, onde piadas que reforçam discursos de ódio podem ter implicações legais:
“A comédia não está acima da lei. Uma piada pode, sim, reforçar ideias racistas, machistas, homofóbicas. A estrutura é cômica, mas o discurso é poderoso. Quando todos riem, você está reafirmando aquelas referências em comum”, reflete.
Ele também critica a visão de que “piada é só piada”: “Isso é subestimar o próprio trabalho. A comédia tem o poder de influenciar, de solidificar ideias. Por isso, precisa ser feita com responsabilidade”.
Antes de cada apresentação, o grupo se reúne com os convidados locais para decidir os jogos de improviso e as dinâmicas que dão forma ao espetáculo. Nesta temporada, os portugueses Mário Bomba e Telmo Ramalho se juntam ao elenco:
“Os jogos servem para dificultar a improvisação. A ideia é fracassar mas de um jeito engraçado. Nos bastidores, a gente se solta mais, testa coisas sem filtro. Muitas vezes, as cenas mais engraçadas acontecem longe do palco”, explica Elidio.
E no pós-espetáculo? “No começo, a gente tentava evitar falar sobre o show logo depois. Mas hoje em dia, celebramos até os nossos fracassos cênicos. Quando a gente erra de forma divertida, é um presente.”

Apesar de viver do riso, Elidio admite: “Eu sou péssimo para rir. A comédia me interessa mais como estrutura, como linguagem. Mas palhaçaria ainda me faz rir. Aquela coisa do erro, da ingenuidade, me pega”. Já no ambiente doméstico, o humor segue presente:
“Minha esposa me faz rir. A gente se conhece há 11 anos, e esse repertório compartilhado faz a gente rir um do outro. Talvez eu tenha até conquistado ela pelo humor”, brinca ele que é casado com a também atriz Samara Felippo
Elidio cresceu assistindo TV Pirata, Chaves e, mais tarde, Monty Python e Gato Fedorento: “O Chaves, por exemplo, tem aquela coisa da relação de status, da repetição, da pastelaria que se reflete na improvisação”. Mas hoje, ele destaca que as maiores inspirações vêm do convívio com o próprio grupo: “Inspirar os colegas é parte da função. É piegas, mas é real. Senão a gente murcha”.
Para Elidio, a chave da improvisação está no coletivo. “Você não improvisa para si, nem para a plateia. Você improvisa para quem está com você em cena. Se cada um quer brilhar individualmente, a cena não anda”. Ele ainda completa: “O bom improvisador aceita o desconhecido. Às vezes, nem a gente sabe onde a cena vai dar. E quando tudo dá errado — com graça —, aí é que o público ri mais”, finaliza.
“Improvável” em Portugal:
- Braga – 4 de setembro – Fórum Braga
- Porto – 6 e 7 de setembro – Teatro Sá da Bandeira
- Lisboa – 10 e 11 de setembro – Aula Magna
Ingressos à venda nas bilheterias locais e plataformas online.