EXPOSIÇÃO

“Bem Me Quer”: exposição transforma memórias da maternidade em arte

“Bem Me Quer” transforma flores oferecidas pelos filhos da artista numa instalação de afeto, pesquisa e maternidade

Dezembro 10, 2025

Roberta Goldfarb vive e trabalha entre São Paulo e Lisboa. Crédito: Divulgação

A artista Roberta Goldfarb inaugura nesta quarta (10), no MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, a exposição Bem Me Quer, resultado de um processo que durou mais de uma década.

O trabalho nasceu sem intenção artística: eram flores guardadas por afeto, pequenos presentes oferecidos pelos seus filhos enquanto ela vivia o período mais intenso da maternidade.

Com o tempo, porém, a artista percebeu que aquela coleção involuntária era também uma forma de criação, um arquivo sensível capaz de falar sobre o lugar da mulher, sobre pausas que não são pausas e sobre o modo como a vida e a arte se misturam: “Eu nunca parei de trabalhar. Enquanto estava com eles, eu estava coletando material para transformar em algo”, reflete.

Flores catalogadas que integram o acervo afetivo da artista. Crédito: Divulgação

Esse entendimento amadureceu ao longo dos anos, até que as flores, cuidadosamente secas e preservadas, revelaram à artista que ali havia um discurso poético poderoso. Roberta decidiu então ampliar essas memórias ao extremo,  transformando pequenas flores em imagens de grande formato, quase como num universo deslocado de proporções à maneira de Alice no País das Maravilhas.

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A coleção, que hoje soma 360 exemplares, tornou-se um modo de narrar a maternidade em sua beleza e intensidade:

“É tudo muito grande, muito bonito, muito demais  e transformar essas flores em algo monumental era a forma de falar desse ‘muito’”. 

Equilibrar a vida de mãe e artista, conta Roberta, não é um processo previsível nem elegante; é uma construção diária que se reorganiza conforme a vida avança. Ela, que é mãe de Benjamin e Antonella de 13 e 11 anos,  afirma que as duas identidades nunca se separam  ao contrário, se retroalimentam. 

Detalhe da instalação “Bem Me Quer”, em exibição no MUHNAC. Crédito: Divulgação

Seus filhos crescem vendo a mãe criar, e esse entendimento do ofício, diz ela, é parte do equilíbrio possível: “A vida se mistura. Meu trabalho se mistura com minha vida pessoal e eles participam disso. Tudo faz parte de uma mesma coisa”, explica. Essa fusão orgânica entre cotidiano e criação é precisamente o que dá corpo a Bem Me Quer.

Na exposição, o público terá acesso não apenas à instalação final, mas também ao processo: flores originais, catalogação inspirada em herbários, objetos e registros que mostram como a obra se construiu.

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Para Roberta, essa transparência convida cada visitante a reconhecer ali suas próprias memórias e afetos. Muitas pessoas, diz ela, identificam-se imediatamente.  Mães que também colecionaram flores dos filhos, ou qualquer pessoa que já guardou pequenos gestos como forma de amor:

 “O que é meu não é ter recebido as flores, mas tê-las guardado e transformado em obra. E acredito que essa conexão, tão humana, vai ser imediata”, diz a artista, cuja obra já integrou exposições em São Paulo, Lisboa, Viena e Paris.

Bem Me Quer ficará no MUHNAC  (R. da Escola Politécnica 56, 1250-102 Lisboa) até 18 de janeiro de 2026. A entrada é gratuita.  

 

jordan@revistaentrerios.pt

Lisboa