Boom da cannabis medicinal em Portugal atrai brasileiros qualificados
Existem 40 empresas especializadas em cultivo e fabricação de cannabis para fins medicinais e quase 150 em processo de licenciamento
- Lisboa
Novembro 26, 2025
Portugal é o maior exportador de cannabis medicinal da Europa e o segundo no mundo, atrás apenas do Canadá. Em 2024, as vendas desse “ouro verde” ao exterior chegaram a 32.558 quilos.
O cultivo e a fabricação para fins medicinais começaram em 2014 e foram regulamentados em 2019. Já há mais de 40 empresas licenciadas pelo Infarmed e outras 150 estão em processo de licenciamento. Esse mercado em expansão, com regras claras e potencial robusto, abre oportunidades de trabalho — e os brasileiros estão de olho.
Brasileiros encontram oportunidades no “ouro verde”
O engenheiro agrônomo Rafael Sobral, 36 anos, chegou há seis meses trazendo a experiência como diretor de cultivo em uma associação canábica no Rio de Janeiro, embora o tema no Brasil ainda seja abafado por tabus.
LEIA TAMBÉM: Governo da Paraíba e Muda Portugal anunciam acordo para internacionalizar startups
A mudança ocorreu por incentivo da companheira, que escolheu estudar em Lisboa e se encantou pelo país. Rafael conseguiu uma vaga como técnico de cultivo e, três meses depois, já era produtor em outra instituição, onde comanda estufas com mais de 70 mil plantas, um salto em escala, estrutura e responsabilidade.
“Fico mais no computador, fazendo o controle das estufas e das regas. De vez em quando, monitoro as plantas in loco”, explica ele. “Tive o desafio de adaptar meu conhecimento a um cultivo de larga escala. No Rio, eu cuidava de duas mil plantas; aqui, são mais de setenta mil”, completa.
A carioca Carolina Furtado, a Carol Binóide, 31 anos, também se especializou e passou a treinar vendedores de lojas de CBD — como Canabidiol é conhecido. Criou uma apostila de treinamento, viajou por Portugal e Espanha formando equipes e passou a defender a capacitação obrigatória.
“Vender sem conhecimento é perigoso”, afirma ela, que abriu uma agência de comunicação especializada em conteúdo educativo, campanhas e branding. Também criou o Festival Binóide, que une música e feira de marcas canábicas. A segunda edição foi realizada em junho, em Lisboa.
O alerta de especialistas
A veterinária Karla Pinto, 47 anos, aponta o risco da automedicação, inclusive entre tutores de animais.
“Muita gente chega depois de ter começado um tratamento por conta própria, usando o que viu na internet ou o que um amigo indicou. E aí o produto não funciona, porque não é o adequado ou está na dosagem errada. Acontece tanto na medicina veterinária quanto na humana”.
Há mais de vinte anos, Karla migrou do Brasil para Portugal, onde concluiu mestrado e especializações. Foi nas pesquisas sobre técnicas para aliviar a dor dos animais que ela passou a estudar produtos à base de cannabis. Hoje, faz doutorado e conduz uma pesquisa relacionada ao tema na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), além de atuar como veterinária em Montijo e Lisboa.
“Os resultados são impressionantes. Casos de dor crônica, epilepsia e distúrbios de comportamento têm resposta muito positiva aos tratamentos. Eu utilizo bastante a acupuntura também”, diz Karla, que lamenta a dificuldade de acesso aos produtos por conta do preço.
Ela conta que em um ano, dez produtos novos foram lançados, mas ainda enfrenta dificuldades por ser um medicamento que não é coparticipado pelo Estado.
“Nas farmácias, os preços chegam a quase 150 euros por mês, dependendo da patologia e do tamanho do bichinho. Há outras alternativas, à base de cânhamo, mas é preciso ter atenção à qualidade dos produtos”.
Preconceito: um obstáculo maior no Brasil
Rafael, Carol e Karla concordam que o preconceito é um obstáculo bem maior no Brasil.
“Já fui mal interpretada por colegas em hospitais, que colocavam música do Bob Marley para mim e riam quando eu falava em CBD. Aqui em Portugal, já não sinto mais o preconceito”, diz a veterinária.
LEIA TAMBÉM: Portugal é o segundo país que mais busca imóveis rurais no Brasil
Ela defende que a maioria das pessoas em Portugal já passou a levar o tema a sério, impulsionada pela ampla oferta de suplementos veterinários à base de cannabis, o que contribuiu para a redução do estigma em torno do assunto.
Em sua visão, o debate ainda enfrenta barreiras no Brasil, especialmente de ordem religiosa, embora, apesar desses entraves e das restrições legais, o país se destaque como líder em pesquisas sobre o tema nas Américas.
Ela lembra, porém, que os avanços vão além da medicina: “Uma fábrica produz tijolos com fibra de cânhamo — um trabalho incrível”.
Essa matária foi publicada originalmente na revista EntreRios.
Você pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler na íntegra online.