Brasileira em Lisboa transforma maternidade e migração em livro de poesia
Luciana Soares apresenta "Tudo que colhi no fundo do mar", obra que aborda saúde emocional, pertencimento, identidade e os desafios da maternidade real
- Lisboa
Maio 29, 2026
Mudar de país, reconstruir a própria identidade e lidar com as transformações da maternidade foram experiências que aproximaram a brasileira Luciana Soares ainda mais da escrita. Natural de Fortaleza, no Ceará, e vivendo atualmente em Lisboa, a poeta encontrou nas palavras uma maneira de elaborar emoções, revisitar memórias e atravessar períodos marcados por dor e recomeço.
Após sair de um relacionamento abusivo, a autora passou a mergulhar na escrita e na arteterapia como parte de um processo de reconstrução pessoal. Dessa vivência nasceu Tudo que colhi no fundo do mar, coletânea de poemas que aborda temas como pertencimento, migração, saúde emocional e transformação feminina a partir de experiências íntimas que também refletem a realidade de muitas mulheres.
Aos 41 anos, Luciana concretiza um sonho antigo. “Quando era pequena e faziam a clássica pergunta ‘o que você quer ser quando crescer’, eu respondia que queria ser escritora”, relembra. Em entrevista à EntreRios, ela falou sobre a obra, os desafios da migração e os caminhos que a levaram até a literatura. Confira!
Em Tudo que colhi no fundo do mar, como a maternidade influenciou o seu processo de escrita e reconstrução pessoal?
A maternidade é uma transformação absurda de tudo. Do corpo, da mente, da relação com os outros, da nossa ilusão de controle sobre as coisas. Parece que tudo vira de cabeça para baixo, novas portas se abrem na forma de ver o mundo e a nós mesmas. Nesse sentido, posso dizer que a maternidade influencia de forma incontornável minha escrita, exatamente porque modificou quem eu sou. Com a maternidade, precisamos construir uma nova identidade e a minha escrita depois de me tornar mãe reflete isso. É uma escrita mais conectada às profundezas e à beleza das pequenas coisas.

De que forma a experiência da migração do Brasil para Portugal atravessa os poemas e a construção da sua identidade artística?
A experiência de migração me permeia de uma forma que eu nunca imaginei que seria possível. Paradoxalmente, estar longe da minha terra e dos meus faz com que eles estejam mais presentes em mim do que nunca. Acho que nesse sentido, a migração nos põe em contato com uma parte nossa que às vezes esquecemos, mas que é nossa raiz. Especificamente nos poemas deste livro, senti ainda mais vontade de abordar este lugar ancestral: minha mãe, a língua que falo, o meu sotaque, o meu sangue latino-americano, brasileiro. Todos esses lugares de onde vim, para além da terra em si.
O livro nasceu também da arteterapia. Como transformar emoções difíceis em poesia contribuiu para o seu processo de cura?
Acho que qualquer tipo de criação artística é uma forma de explicar o mundo e também nós mesmos. Uma forma de dar sentido às coisas externas e também àquilo que sentimos. Para mim, a palavra e o poema têm sido ferramentas essenciais para essa organização interna. Os poemas deste livro, Tudo que colhi no fundo do mar, vieram num momento emocionalmente muito turbulento, com a gravidez e todas suas transformações e também com uma depressão severa do meu pai. A arteterapia e a escrita foram essenciais para processar o turbilhão de sensações e colocar a mente no lugar.

O livro propõe um olhar mais realista e íntimo sobre a maternidade. O que você considera mais urgente discutir hoje sobre a saúde emocional feminina?
Acho que saúde mental, de forma geral, deveria ser muito mais discutida. Infelizmente ainda é um tabu, mas a verdade é que quase todos nós precisamos de ajuda neste campo. Especificamente com relação à saúde mental feminina, creio que essa é ainda mais urgente. O mundo parece estar a andar para trás, com movimentos como a manosfera/red pill a ganhar terreno de forma absurda, então as mulheres precisam cuidar de si mesmas e umas das outras. Acho que misoginia afeta profundamente a forma como vemos a nós mesmas e nos expõe a perigos físicos e mentais muito grandes, em termos individuais e como grupo também. Durante a maternidade, então, que já é um período muito intenso, isso se potencializa. As mulheres precisam colocar a si mesmas no centro, mas acho que é preciso mais do que esforços individuais. Programas de saúde mental públicos para mulheres e debates abertos na sociedade sobre isso seriam muito benéficos.
LEIA MAIS: Moda, música e cultura impulsionam o Brasil como referência estética e criativa no mundo
Lançamento
O lançamento de Tudo que colhi no fundo do mar acontece neste sábado (30) na Greta Livraria, em Lisboa. A autora também participa, em junho, da Feira do Livro de Lisboa, na sexta (12), com leituras performativas dos poemas e sessão de autógrafos. Os encontros marcam a chegada da obra ao público português.
jordan@revistaentrerios.pt
Ver esta publicação no Instagram
Uma publicação partilhada por Greta Livraria & Editora Feminista (@gretalivraria)