Brasileiros e portugueses falam a mesma língua? Diferenças vão muito além do sotaque
Do “café da manhã” ao “pequeno-almoço”, as barreiras linguísticas e a influência digital redesenham a comunicação entre brasileiros e portugueses
- Lisboa
Junho 10, 2026
Uma hóspede brasileira pediu “café da manhã” e recebeu no quarto apenas uma xícara de café — exatamente como solicitado. No hotel, o pedido foi interpretado de forma literal, o que acabou gerando frustração pela simplicidade da refeição.
Em Portugal, o termo correto seria “pequeno-almoço”, que inclui suco, pães, frutas e outros itens típicos da refeição. A situação foi vivida por Raquel Araújo, 35 anos, que trabalhou por alguns anos em um hotel de Lisboa.
Quando o assunto é comunicação, há duas realidades distintas. Brasileiros tendem a ter mais dificuldade em compreender o português original, em grande parte pelo pouco contato histórico com a cultura portuguesa. É o que observa Stevan Lekitsch, escritor e jornalista brasileiro que lançou o livro Pequeno dicionário “brasileiro”–português e português–“brasileiro”.

Apesar do título, a obra não é miúda: reúne cerca de duas mil palavras com significados diferentes, revelando que as diferenças vão muito além de meros detalhes.
Lekitsch começou a visitar Portugal há 26 anos. “Minha família é descendente de portugueses, e, mais tarde, minha mãe se casou com meu padrasto, que é português. Eu me mudei para cá em 2015 e, nesses 11 anos, fui anotando tudo o que eu ouvia e lia de diferente”.
O conjunto de palavras e expressões deu origem ao dicionário, publicado em 2024. “Eu via aquelas legendas nos noticiários na TV e não entendia nada”. Para os portugueses, compreender o falar do Brasil costuma ser mais natural, já que a influência da cultura brasileira há tempo está muito presente por aqui. Desde 1977, quando a novela Gabriela estreou em Portugal e se tornou um fenômeno de audiência, as produções além-mar passaram a fazer parte do cotidiano.
A presença diária na televisão ajudou a tornar o sotaque e as expressões mais familiares para o público. Além disso, a literatura e a música do Brasil sempre tiveram forte aceitação.
Entre os mais jovens, a influência chega sobretudo por meio dos desenhos animados e das redes sociais, diz Maria Santos, 63 anos, professora de português e dona de um centro de estudos.
Ela observa que os alunos, especialmente os pré-adolescentes, incorporam com frequência expressões fora do padrão de Portugal. Termos como “cara” e “carinha” ganharam espaço, enquanto “legal” e “bacana” disputam lugar com “fixe”.
O TikTok, o YouTube e os videogames reforçam essa mudança linguística. Maria cita, por exemplo, alterações na estrutura das frases, como o uso de “não te preocupes” em vez de “preocupa-te”, ou “te amo” no lugar de “amo-te” Nomes populares da internet também contribuem para a tendência.
Luccas Neto, um dos youtubers infantis mais conhecidos do Brasil, com mais de 53 milhões de inscritos em seu canal, tem grande alcance entre as crianças em Portugal. Além das emissoras de rádio tocarem músicas brasileiras com muita frequência, a presença de brasileiros nas escolas, que reflete o aumento da imigração nos últimos anos, também incentiva o contato com as expressões empregadas no Brasil. “Tenho uma turma em que dois terços dos alunos são brasileiros”, relata Maria.

Ela explica que as variações não são consideradas erros, conforme a política de integração do Ministério da Educação, embora se espere que os alunos também aprendam as particularidades do português de Portugal.
Para Lekitsch, o idioma falado por cerca de 290 milhões de pessoas no planeta apresenta cada vez mais diferenças regionais. Ainda assim, o aumento do turismo e da presença de brasileiros em Portugal pode aproximar os dois países e facilitar o entendimento entre as variantes.
Verbos, Pronúncias e Significados
Se no Brasil o gerúndio é comum, em Portugal predomina o infinitivo, mas “estou comendo” ou “estou a comer”, vão dar no mesmo. A pronúncia também tem suas variações, piscina em Portugal se pronuncia “pixina”, no Brasil “pissina”. E já agora convém saber que a expressão “ora pois” não existe. No vocabulário, as diferenças aparecem com mais força: paquerar é flertar, cara é gajo, brega é pimba, menino é um puto e por aí vai. O melhor mesmo é andar de dicionário na mão.
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Memória da Língua Portuguesa

Inaugurado em 2006, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, é um dos primeiros museus do mundo dedicado a um idioma, celebrando a língua portuguesa como património imaterial e elemento central da cultura brasileira. E faz todo o sentido que este museu se situe em São Paulo, cidade que detém a maior população de falantes da língua portuguesa em todo o mundo (quase 12 milhões de habitantes, mais do que os habitantes de Portugal inteiro que se situam em torno de 10,75 milhões). O belíssimo edifício do museu, a Estação da Luz foi um dos principais pontos de passagem dos imigrantes que chegavam ao Brasil e, até hoje, é um espaço dinâmico de contato e convivência entre várias culturas e classes sociais, abrigando sotaques vindos de todas as partes do Brasil. Entre 2006 e 2026 (dados de março) já recebeu mais de 5,3 milhões de visitantes. Depois de seis anos encerrado devido a um incêndio de enormes proporções, reabriu em 2021.
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